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Os melhores anos de nossas vidas (1946)

Os melhores anos de nossas vidas (1946)

O que mais me impressiona em Os Melhores Anos de Nossas Vidas é que, apesar de ser um filme sobre homens que voltam de uma guerra, ele não está realmente interessado na guerra. As batalhas já terminaram quando a história começa. Não vemos os personagens no campo de batalha, não acompanhamos combates nem somos apresentados a grandes momentos de heroísmo. O verdadeiro conflito começa justamente quando eles chegam em casa. William Wyler entende que voltar para casa não significa necessariamente voltar para a vida que existia antes — e é nessa impossibilidade de retorno que está a força do filme. 8/10.

Al, Fred e Homer se conhecem no avião que os leva de volta aos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Eles têm origens, idades e experiências completamente diferentes, mas compartilham uma mesma condição: todos precisam descobrir como continuar vivendo depois de terem passado anos em uma realidade que não existe mais. O interessante é que Wyler não transforma essa experiência em um drama único. Cada um deles enfrenta um tipo diferente de dificuldade, e o filme vai construindo um retrato amplo de uma sociedade que também precisa reaprender a funcionar depois da guerra.

Al é talvez o personagem que melhor representa a tentativa de simplesmente retomar a normalidade. Ele volta para a esposa, para os filhos, para a casa confortável e para o emprego no banco. À primeira vista, sua vida parece intacta. Mas não está. Al voltou bebendo demais, carregando uma experiência que não consegue simplesmente abandonar no momento em que atravessa a porta de casa. Existe algo muito interessante no fato de ele ter tudo aquilo que deveria representar uma reintegração bem-sucedida e, ainda assim, parecer deslocado.

Seu conflito profissional também é uma das partes mais interessantes do filme. Como funcionário de um banco, ele passa a lidar com empréstimos para veteranos e se vê diante de uma escolha entre seguir as regras da instituição ou utilizar sua posição para ajudar homens que retornam da guerra sem dinheiro, emprego ou qualquer perspectiva. O discurso que faz bêbado durante o jantar é constrangedor, mas também bastante revelador. Al está tentando transformar sua experiência em alguma coisa que tenha significado, ainda que não saiba exatamente como fazer isso.

Fred, por outro lado, retorna para uma vida que praticamente não conhece. Ele havia se casado pouco antes de partir e passou mais tempo na guerra do que ao lado da própria esposa. Quando volta, descobre que Marie continuou vivendo sem ele e que o casamento existe muito mais no papel do que na prática. Ela não é uma vilã particularmente complexa, mas representa uma realidade desconfortável: enquanto Fred estava lutando, a vida continuou.

E talvez seja justamente por isso que a história de Fred seja a que mais me interessa. Ele retorna esperando encontrar uma esposa e uma vida esperando por ele, mas descobre que a guerra não congelou o mundo até sua volta. Tudo continuou acontecendo enquanto ele estava fora.

A relação com Peggy acrescenta outra camada a essa sensação de deslocamento. Ela se apaixona por Fred justamente quando ele está mais perdido, e existe uma delicadeza na maneira como o filme trata esse romance. Não é simplesmente uma história de “amor verdadeiro”. Peggy se apaixona por um homem traumatizado, casado e praticamente sem perspectivas. Fred, por sua vez, sabe que não tem condições de oferecer a ela a vida que imagina que ela deseja.

Gosto especialmente porque o filme não transforma esse conflito em uma grande paixão melodramática. Fred não abandona imediatamente a esposa para ficar com Peggy. Ele tenta fazer aquilo que considera moralmente correto, mesmo que isso lhe custe felicidade. E, quando finalmente os dois ficam juntos, Wyler não promete que tudo será fácil. Pelo contrário: Fred deixa claro que os dois terão que trabalhar e provavelmente enfrentar dificuldades. É uma conclusão romântica, mas não ingênua.

Se Fred representa a dificuldade de voltar a uma vida que deixou de existir, Homer representa algo ainda mais concreto: a impossibilidade física de recuperar aquilo que perdeu.

Homer perdeu as duas mãos durante a guerra e utiliza próteses. O personagem é interpretado por Harold Russell, que realmente era amputado, e essa escolha dá ao filme uma dimensão que dificilmente seria alcançada por uma atuação convencional. Há uma naturalidade desconcertante em vê-lo realizar tarefas cotidianas com as próteses, e Wyler não transforma sua deficiência em um espetáculo. Homer não é apresentado como uma inspiração ambulante nem como uma vítima. Ele é um homem tentando descobrir se ainda pode ser amado.

E é aqui que o relacionamento com Wilma se torna tão importante.

Homer acredita que ela não pode continuar amando alguém que já não é o homem que conheceu. Ele passa boa parte do filme tentando afastá-la, como se estivesse tentando protegê-la de uma vida que considera inevitavelmente infeliz. É uma reação bastante humana: ele não consegue enxergar a si mesmo separado daquilo que perdeu. Para Homer, aceitar o amor de Wilma significa aceitar também que ela terá que conviver com suas limitações.

A cena em que ele finalmente tira as próteses diante dela é, para mim, uma das mais bonitas do filme. Não porque seja uma cena de superação no sentido tradicional, mas porque Homer finalmente abandona a tentativa de esconder sua vulnerabilidade. Wilma não precisa que ele volte a ser quem era. Ela simplesmente decide ficar.

É uma resolução sentimental, mas funciona porque o filme passou bastante tempo construindo a insegurança de Homer.

Também acho interessante que Os Melhores Anos de Nossas Vidas tenha sido lançado em 1946, tão pouco tempo depois do fim da guerra. Existe algo quase documental na maneira como o filme olha para os veteranos. Não é uma história sobre um passado distante; é uma história sobre uma ferida ainda aberta. Os Estados Unidos estavam vivendo justamente o momento em que milhões de soldados precisavam retornar à sociedade civil, procurar emprego, reconstruir relacionamentos e descobrir como lidar com as consequências físicas e psicológicas do conflito.

Por isso, o título tem uma ironia que gosto bastante. Quais foram, afinal, os “melhores anos” dessas pessoas?

Os anos da guerra certamente não foram. Mas também não é possível simplesmente afirmar que o futuro será melhor. O filme parece interessado justamente nessa contradição. Há uma expectativa social de que os soldados voltem para casa felizes, agradecidos e prontos para retomar suas antigas vidas. Mas os personagens não conseguem simplesmente apertar um botão e voltar a ser quem eram.

E isso me parece uma das ideias mais contemporâneas do filme.

A guerra funciona como uma ruptura. Antes dela, havia uma identidade, uma rotina, uma relação amorosa, uma profissão. Depois dela, existe a necessidade de reconstruir tudo isso. O problema é que a sociedade ao redor parece esperar que os veteranos estejam felizes porque sobreviveram. O sofrimento deles, portanto, precisa ser escondido para não atrapalhar a narrativa de vitória.

O filme é especialmente crítico quando mostra a relação entre os veteranos e o mercado de trabalho. Fred, que era vendedor de farmácia antes da guerra, volta acreditando que sua experiência como militar terá algum valor, mas descobre que não. Seu antigo emprego parece pequeno demais para ele, mas ele não encontra imediatamente outra alternativa. Quando finalmente consegue trabalho no setor de aviação, é quase como se estivesse encontrando um lugar onde sua experiência passada pudesse fazer algum sentido no presente.

Al enfrenta o problema por outro lado. Ele possui estabilidade, mas precisa decidir até onde está disposto a desafiar as instituições para ajudar outros veteranos. O filme, portanto, não apresenta apenas o problema individual da reintegração. Ele também pergunta o que uma sociedade que mandou seus jovens para a guerra deve a eles quando retornam.

Tecnicamente, também é um filme muito bonito. Wyler utiliza uma mise-en-scène bastante clássica, mas existe uma precisão impressionante na maneira como os personagens são posicionados dentro dos ambientes. A fotografia em preto e branco de Gregg Toland contribui para essa sensação de realismo, especialmente nos interiores domésticos e nos espaços de trabalho. Não há uma tentativa de tornar a realidade mais bonita do que ela é. Os ambientes parecem vividos, e os personagens frequentemente parecem pequenos dentro deles.

A duração de quase três horas pode assustar um pouco, principalmente porque o filme não possui uma estrutura de grandes acontecimentos. Ele é construído através de pequenas crises, conversas e transformações graduais. Para mim, isso é ao mesmo tempo sua maior qualidade e sua principal limitação. Em alguns momentos, senti que o filme poderia ser mais enxuto. Algumas situações se prolongam mais do que precisam, especialmente quando a narrativa se afasta dos conflitos principais.

Ainda assim, acho que a duração ajuda a compreender o processo de adaptação dos personagens. Wyler não quer mostrar simplesmente o momento em que eles voltam para casa; quer mostrar algumas semanas de tentativa e erro. Eles bebem, brigam, se apaixonam, perdem empregos, fazem escolhas ruins e tentam novamente.

E talvez seja justamente isso que torna o filme tão humano.

Não existe uma grande solução para o trauma. Não existe um momento em que todos simplesmente acordam e percebem que estão bem. Al continua bebendo. Fred continua sem saber exatamente o que fazer da vida. Homer continua tendo limitações físicas. O que muda é que eles encontram maneiras possíveis de seguir em frente.

Acho particularmente bonita a maneira como o filme termina com um casamento. Não porque o casamento seja apresentado como uma solução para todos os problemas, mas porque representa uma escolha pelo futuro. Homer e Wilma decidem continuar juntos mesmo sabendo exatamente o que os espera. Fred e Peggy decidem começar uma vida juntos sabendo que terão dificuldades. Depois de um filme inteiro sobre pessoas tentando recuperar aquilo que perderam, o final parece dizer que talvez seja impossível voltar atrás — mas é possível construir alguma coisa nova.

Os Melhores Anos de Nossas Vidas não é um filme sobre voltar para casa. É sobre descobrir que “casa” já não significa exatamente a mesma coisa depois que você passou por uma experiência capaz de modificar completamente a maneira como enxerga a si mesmo.

E talvez seja essa a sua maior qualidade. Wyler não precisa mostrar a guerra para falar sobre seus efeitos. Basta mostrar três homens tentando viver depois dela. A batalha acabou, mas a vida real — aquela que ninguém preparou ninguém para enfrentar — está apenas começando.

Nota: 8/10

Ficha técnica

Título: Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Best Years of Our Lives)
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Ano: 1946
Direção: William Wyler
Duração: 172 minutos
Roteiro: Robert E. Sherwood
Elenco: Fredric March, Myrna Loy, Dana Andrews, Teresa Wright, Virginia Mayo e Harold Russell
Fotografia: Gregg Toland
Edição: Daniel Mandell
Música: Hugo Friedhofer