A Favorita (2018)
A Favorita: quando o afeto também é uma disputa de poder
A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em A Favorita é que não consigo decidir por quem torcer. E talvez essa seja exatamente a graça do filme.
De um lado, Sarah Churchill, a mulher que realmente governa a Inglaterra enquanto a Rainha Ana se mostra cada vez mais debilitada, dependente e emocionalmente instável. Do outro, Abigail Hill, uma jovem que chega ao palácio sem dinheiro, sem prestígio e praticamente sem nenhuma perspectiva, mas que rapidamente percebe que naquele ambiente inteligência e capacidade de manipulação podem valer mais do que um título. E, no centro de tudo, está Ana: uma rainha que possui o maior poder político possível, mas que parece completamente incapaz de controlar a própria vida.
É uma situação absurda.
E Yorgos Lanthimos transforma esse absurdo em uma das coisas mais divertidas, desconfortáveis e visualmente interessantes de sua filmografia.
A Favorita é um filme histórico, mas não parece interessado em fazer uma reconstituição histórica tradicional. O século XVIII está presente nos figurinos, nos palácios, nas relações de poder e nos acontecimentos políticos, mas Lanthimos utiliza esse contexto quase como um grande laboratório para observar três mulheres tentando conseguir alguma coisa umas das outras.
Amor, proteção, dinheiro, influência, segurança.
No fundo, todas querem alguma forma de poder.
E todas sabem que o afeto pode ser utilizado como moeda.
A história se passa em 1705, durante a guerra entre Inglaterra e França. A Rainha Ana está fisicamente debilitada e pouco interessada nos assuntos de Estado. Quem efetivamente conduz boa parte das decisões é Sarah Churchill, sua conselheira, amiga e amante. Sarah entende a fragilidade da rainha e sabe como conduzi-la sem precisar recorrer à força.
A chegada de Abigail muda completamente essa dinâmica.
E é aqui que o filme fica particularmente interessante.
Abigail não chega ao palácio como uma grande estrategista. Ela chega como uma mulher que precisa sobreviver.
Sua família perdeu o dinheiro e o prestígio, seu pai a entregou como parte de uma aposta e ela passou anos submetida a uma situação de abuso e humilhação. Quando finalmente retorna à Inglaterra, tudo o que encontra é a possibilidade de trabalhar como criada.
É uma queda social brutal.
E Emma Stone consegue fazer com que Abigail nunca pareça simplesmente uma vítima.
Existe vulnerabilidade nela, mas também existe uma capacidade impressionante de observar.
Ela aprende muito rapidamente.
Observa Sarah.
Observa Anne.
Observa os homens que circulam pelo palácio.
Observa o que cada pessoa deseja.
E, principalmente, percebe aquilo que Sarah parece esquecer: ninguém é insubstituível.
Rachel Weisz interpreta Sarah como uma mulher que já conquistou praticamente tudo o que poderia querer dentro daquele sistema. Ela possui dinheiro, influência e acesso direto à rainha. É inteligente, politicamente competente e parece genuinamente preocupada com os rumos do país.
Mas existe uma diferença fundamental entre Sarah e Abigail.
Sarah acredita que merece estar onde está.
Abigail sabe que precisa lutar para chegar lá.
Essa diferença determina quase todo o conflito do filme.
Sarah enxerga Abigail como uma intrusa. Abigail enxerga Sarah como um obstáculo.
E Anne enxerga as duas como pessoas que podem preencher alguma coisa que falta dentro dela.
Olivia Colman é, para mim, o grande acontecimento de A Favorita.
Sua Rainha Ana poderia facilmente se tornar uma caricatura. É uma mulher infantilizada, temperamental, cheia de dores físicas, cercada por dezessete coelhos que representam os filhos que perdeu. Ela alterna entre crises de raiva, carência, desejo e momentos de fragilidade absoluta.
Mas Colman nunca interpreta Ana como simplesmente ridícula.
Existe uma tristeza profunda por trás de cada comportamento aparentemente absurdo.
Os coelhos talvez sejam o elemento que melhor sintetiza isso.
À primeira vista, é uma ideia engraçada. Uma rainha adulta vivendo cercada por dezessete coelhos dentro do palácio parece uma excentricidade deliciosa. Aos poucos, porém, entendemos que cada animal representa um filho perdido.
A brincadeira deixa de ser engraçada.
Os coelhos são a materialização de um luto que Ana nunca conseguiu elaborar.
E é justamente nesse ponto que A Favorita consegue ser muito mais triste do que sua superfície sugere.
Por trás das intrigas, das relações sexuais, das corridas de patos, das brigas e dos diálogos absurdos existe uma mulher que perdeu quase todos os filhos e parece ter passado o resto da vida tentando encontrar alguma forma de preencher esse vazio.
Sarah sabe disso.
Abigail também aprende.
E as duas utilizam esse conhecimento de maneiras diferentes.
O que mais gosto no filme é que nenhuma das três mulheres é completamente inocente.
Não existe uma “boa” e uma “má”.
Sarah é manipuladora, mas também é a única que parece realmente preocupada com as consequências políticas das decisões da rainha. Abigail é vítima de uma estrutura social brutal, mas rapidamente aprende a reproduzir a violência que sofreu. Ana é uma mulher emocionalmente fragilizada, mas também possui poder suficiente para destruir a vida das pessoas ao seu redor.
Lanthimos não permite que o espectador encontre uma posição moral confortável.
E eu acho isso ótimo.
A relação entre as três é construída quase como um triângulo de dependência. Sarah precisa de Anne porque sua influência depende da proximidade com a rainha. Anne precisa de Sarah porque confia nela e porque existe uma relação afetiva genuína entre as duas. Abigail precisa de Anne porque essa é sua chance de recuperar a posição social que perdeu.
Mas, em determinado momento, o afeto começa a se misturar tanto ao interesse que já não conseguimos saber onde termina uma coisa e começa outra.
É justamente aí que o filme se torna mais perverso.
A pergunta não é apenas quem ama quem.
É: quanto vale esse amor?
E quanto estamos dispostos a fazer para não perdê-lo?
A direção de Yorgos Lanthimos é uma das coisas que mais me impressionam.
A Favorita tem uma estética muito diferente de um filme histórico tradicional. Em vez de composições equilibradas e elegantes, Lanthimos utiliza lentes grande-angulares, distorções, enquadramentos extremamente abertos e movimentos de câmera que fazem os corredores e salões do palácio parecerem ainda maiores e mais estranhos.
É um mundo monumental em que as pessoas parecem pequenas.
E, ao mesmo tempo, aprisionadas.
As lentes grande-angulares são particularmente importantes porque deformam o espaço. As paredes parecem se afastar, os corredores parecem intermináveis e os personagens frequentemente ficam nas extremidades do quadro.
A sensação é de estar observando aquele ambiente por uma espécie de olho deformado.
Talvez seja uma escolha perfeita para uma história em que ninguém enxerga as coisas exatamente como elas são.
Também gosto muito do uso da câmera em movimento.
Ela atravessa os corredores do palácio, acompanha os personagens e às vezes parece observar as cenas de um ponto de vista quase intrusivo. Não existe aquela distância respeitosa que normalmente associamos aos dramas de época.
Lanthimos quer que estejamos perto demais.
Quer que vejamos as pessoas em situações constrangedoras.
Quer que percebamos a sujeira, a comida, os corpos, as feridas e os momentos de humilhação.
O palácio deixa de ser um lugar majestoso e se transforma em uma espécie de zoológico.
E isso combina perfeitamente com os coelhos.
Aliás, a direção de arte é uma das coisas que mais me chamaram atenção. Os ambientes são luxuosos, mas nunca parecem acolhedores. Há uma quantidade enorme de espaços vazios, paredes imensas, móveis pesados e corredores que parecem não terminar.
É bonito.
Mas é uma beleza desconfortável.
Os figurinos também são extraordinários. As roupas ajudam a estabelecer as diferenças sociais entre as personagens, mas também funcionam como uma extensão da personalidade delas. Sarah aparece frequentemente em roupas mais estruturadas e austeras, enquanto Abigail vai lentamente incorporando elementos da aristocracia à medida que ascende socialmente.
É quase como assistir a uma transformação visual.
A mulher que chega ao palácio como criada começa a vestir-se como alguém que pertence àquele lugar.
E quanto mais Abigail se aproxima do poder, mais distante fica daquela mulher que chegou ali precisando apenas de um emprego.
Esse processo é especialmente interessante porque o filme não apresenta a ascensão social como uma conquista necessariamente positiva.
Abigail consegue o que queria.
Mas o preço é alto.
A trilha sonora também contribui muito para essa sensação de estranhamento. As composições clássicas aparecem de maneira inesperada, às vezes criando uma tensão que parece completamente desproporcional ao que está acontecendo na tela.
É quase como se a música dissesse ao espectador: preste atenção, porque por trás dessa situação ridícula existe alguma coisa profundamente perturbadora.
E A Favorita é cheio dessas contradições.
É engraçado e triste.
É grotesco e delicado.
É vulgar e sofisticado.
É um filme sobre mulheres muito poderosas e, ao mesmo tempo, sobre mulheres completamente aprisionadas pelas estruturas sociais em que vivem.
Talvez a maior contradição esteja justamente na posição de Ana.
Ela é a rainha.
Pode mandar executar pessoas, declarar guerras, conceder títulos e determinar destinos.
Mas, emocionalmente, depende completamente de quem estiver ao seu lado.
Sarah e Abigail não possuem a coroa.
Mas disputam algo que, naquele ambiente, pode ser quase tão valioso quanto ela: a capacidade de influenciar quem a usa.
Por isso o filme também funciona como uma história sobre poder político.
A guerra com a França aparece como pano de fundo, mas Lanthimos nunca permite que ela ocupe o centro da narrativa. O conflito militar é quase uma extensão das disputas privadas do palácio. Enquanto homens discutem impostos e estratégias de guerra, as três mulheres disputam espaço na intimidade da rainha.
É uma inversão bastante interessante.
O poder político acontece em salas de reunião.
O poder real acontece no quarto.
E talvez seja justamente por isso que Sarah e Abigail tenham tanto interesse em controlar o acesso à rainha.
Quem está perto dela decide o que ela ouve.
Quem decide o que ela ouve influencia o que ela pensa.
E quem influencia o que ela pensa, em última instância, influencia o país.
É uma estrutura de poder muito mais sofisticada do que parece.
Apesar de tudo isso, A Favorita não é um filme que considero perfeito.
E é justamente por isso que minha nota fica em 8/10.
Tenho uma enorme admiração pela direção, pelas atuações e pela estética, mas em alguns momentos senti que o filme se apoia tanto em sua própria excentricidade que acaba criando uma distância emocional. Lanthimos parece mais interessado em observar aquelas personagens do que em nos fazer realmente mergulhar nelas.
Isso não é necessariamente um defeito.
É uma escolha.
Mas nem sempre funciona para mim.
Também sinto que alguns elementos da trama política poderiam ser mais desenvolvidos. A guerra, os debates sobre impostos e as consequências das decisões de Ana são importantes para compreender a posição de Sarah, mas muitas vezes funcionam apenas como peças para movimentar a disputa entre as três mulheres.
E talvez eu tivesse gostado de ver um pouco mais do mundo para além do palácio.
Ainda assim, quando penso no filme como experiência cinematográfica, é difícil não reconhecer o quanto ele é singular.
A Favorita não se parece com a maioria dos dramas históricos.
Não quer ser bonito o tempo inteiro.
Não quer que seus personagens sejam admiráveis.
Não quer que o espectador saiba exatamente por quem torcer.
E principalmente não quer transformar suas mulheres em figuras decorativas de um período histórico.
Elas são o centro da narrativa.
São inteligentes, cruéis, vulneráveis, engraçadas, egoístas e contraditórias.
E talvez seja justamente essa contradição que torne o filme tão fascinante.
No final, quando Abigail finalmente conquista a posição que desejava e começa a ignorar a rainha, percebemos que sua vitória não é exatamente uma vitória. Ela conseguiu tudo aquilo pelo que lutou, mas agora está presa dentro da mesma estrutura que utilizou para chegar até ali.
E Anne percebe.
A cena final, com a rainha obrigando Abigail a massagear sua perna enquanto puxa seus cabelos, é uma das imagens mais cruéis do filme. As três figuras — Anne, Abigail e os coelhos — parecem se fundir em uma única composição, como se Lanthimos estivesse resumindo toda a história em uma imagem.
A rainha perdeu Sarah.
Abigail perdeu a capacidade de simplesmente desfrutar daquilo que conquistou.
E os coelhos continuam ali.
Substituindo os filhos.
Substituindo o afeto.
Substituindo tudo aquilo que nenhuma das duas mulheres conseguiu oferecer a ela.
Talvez a maior ironia de A Favorita seja essa: Abigail passou o filme inteiro tentando se tornar indispensável para a rainha e, quando finalmente consegue, descobre que ser indispensável também pode ser uma forma de prisão.
No fim, ninguém realmente vence.
Sarah perde a posição e o amor de Anne.
Abigail ganha o título, mas perde qualquer possibilidade de inocência.
E Ana continua cercada por pessoas, riquezas e poder, mas permanece profundamente sozinha.
É uma história de ambição em que a recompensa nunca parece suficiente.
E talvez seja justamente por isso que eu continue pensando nela.
Nota: 8/10
Ficha técnica
Título original: The Favourite
Título no Brasil: A Favorita
Ano: 2018
País: Reino Unido / Irlanda / Estados Unidos
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Deborah Davis e Tony McNamara
Gênero: Drama / Comédia / Histórico
Duração: 120 minutos
Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn, Mark Gatiss e James Smith
Direção de fotografia: Robbie Ryan
Direção de arte: Fiona Crombie
Trilha sonora: diversos compositores e obras clássicas
Montagem: Yorgos Mavropsaridis
Distribuição: Fox Searchlight Pictures


