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Alice nas Cidades (1974)

Alice nas Cidades (1974)

Philip Winter está sempre indo embora: ele atravessa os Estados Unidos, fotografa paisagens, pessoas e estradas com uma Polaroid, tenta escrever uma reportagem que nunca consegue terminar e passa boa parte do tempo olhando para o mundo através de uma câmera. Quando finalmente chega a Nova York, deveria estar encerrando sua viagem. Em vez disso, uma greve de aviões o obriga a esperar no aeroporto e é justamente ali que sua vida toma um rumo completamente diferente. Lá, ele Alice e sua mãe, Lisa, que pouco tempo depois, desaparece. Assim, Philip, que mal consegue organizar a própria vida, se vê responsável por uma menina de nove anos que precisa encontrar a avó em algum lugar da Alemanha.

Tenho a impressão de já ter visto essa sinopse no caderno do Estado de Minas que eu sempre checava para ver a programação semanal da Sessão da Tarde. E, de fato, à primeira vista, parece o tipo de história que poderia facilmente se transformar em uma aventura infantil. Uma criança e um adulto viajando por cidades estrangeiras, procurando uma casa que talvez nem exista mais. Mas, para Wim Wenders, a viagem não é apenas geográfica, é também uma tentativa de encontrar referências em um mundo em que ninguém sabe exatamente onde está ou para onde está indo. Philip já estava perdido antes de Alice aparecer. Alice, apesar de ser criança, está perdida também.

O que existe entre eles é uma parceria provisória entre duas pessoas que foram abandonadas, em maior ou menor grau, à própria sorte. Wim Wenders filma essa busca com uma delicadeza que me parece muito comum do cinema alemão dos anos 1970 (pelo menos nos poucos filmes que já vi desse contexto). O filme não traz uma sucessão de acontecimentos emocionantes. Muitas vezes, simplesmente acompanhamos Philip e Alice andando, dirigindo, esperando, comendo ou observando a paisagem.

Estamos tão acostumados a road movies em que cada cena precisa avançar a trama ou que cada conversa dentro do carro é significativa e transformadora, que Alice nas Cidades pode parecer estranhamente silencioso. Wenders permite que seus personagens existam entre um acontecimento e outro.

Me chamou bastante a atenção a relação de Philip com a fotografia e a escrita; ou, melhor dizendo, com a procrastinação da escrita. Para mim, a fotografia também passa pela coleção de imagens, mas de uma maneira quase oposta à dele: fotografar o que vejo é uma forma de me preparar para escrever, um instrumento que alimenta a vontade de colocar as coisas no papel. A fotografia funciona como um primeiro registro, que depois se transforma em texto, quase sempre com muita urgência. Para Philip, não. A Polaroid registra imediatamente aquilo que está diante dele, enquanto a escrita exige uma elaboração que ele não consegue alcançar. As fotografias se acumulam, uma depois da outra, enquanto o texto permanece incompleto. Ele consegue registrar o mundo, mas não consegue transformá-lo em palavras.

Alice, de certa forma, ajuda a devolver a capacidade de Philip escrever. Ela não é uma criança especialmente sábia ou madura; é teimosa, curiosa, às vezes irritante e muito mais independente do que Philip gostaria. Rüdiger Vogler interpreta Philip com uma espécie de apatia melancólica, enquanto Yella Rottländer, como Alice, consegue sustentar uma presença extremamente natural. Ela não parece estar interpretando uma “criança cinematográfica”, parece somente uma criança. E isso fez toda a diferença para a minha imersão na história.

Alice não existe para ensinar lições de vida a Philip, ela simplesmente é uma menina que está tentando entender o que está acontecendo ao seu redor. Muitas vezes, inclusive, ela parece ser a pessoa mais prática da dupla. Também gosto da maneira como Wenders evita transformar a relação dos dois em melodrama. Ele não diz olha como eles estão criando um vínculo aqui, ou olha como esse momento foi especial. Esse vínculo simplesmente acontece, pois eles passam tanto tempo juntos que começam a desenvolver pequenas intimidades: conversas sem importância, brincadeiras, discussões, refeições improvisadas. Aos poucos, Philip deixa de ser apenas o adulto responsável por levar Alice até a avó e passa a ser alguém que ela procura quando alguma coisa dá errado.

É curioso como Wenders filma os dois quase sempre em movimento por diferentes meios. Nós vemos a dupla no carro, no trem, no avião e na balsa. Mas, apesar de estarem constantemente indo para algum lugar, os personagens estão emocionalmente parados; uma situação familiar para a maioria de nós. Às vezes passamos anos em movimento. Há mudança de endereço, viagens, novos projetos e fim de outros, pessoas novas. Acreditamos que a próxima mudança finalmente vai resolver aquilo que está incomodando, para depois percebermos que estávamos levando o problema conosco.

Também me interessa muito o papel da fotografia no filme porque Wenders não a utiliza apenas como elemento de caracterização. As fotografias de Philip são uma tentativa de transformar o mundo em alguma coisa compreensível, mas a fotografia não responde às perguntas que ele tem. Acho que justamente por isso Philip esteja fotografando: ele tenta segurar alguma coisa antes que ela desapareça. Alice também está tentando fazer isso. Ela carrega uma fotografia da suposta casa da avó e acredita que aquela imagem pode levá-la a algum lugar. Mas a fotografia não é suficiente, a casa já não pertence àquela pessoa e a memória não corresponde mais ao espaço físico. O passado está sempre um pouco deslocado.

A busca pela avó também é interessante porque funciona como uma espécie de investigação infantil. Alice lembra de pequenos detalhes, mas não possui as informações necessárias para transformá-los em um endereço. Sabe o sobrenome apenas parcialmente, lembra do carvão, reconhece uma cidade e tem uma fotografia. São fragmentos de memória dados a Philip, que precisa montar uma história a partir deles. É curioso que ele passe o filme inteiro tentando escrever uma história e termine justamente tendo uma história que não planejou.

Há uma sequência que gosto especialmente, quando Alice pergunta se as pessoas acham que Philip é seu pai. É uma pergunta simples, mas carrega muito do que está acontecendo entre os dois. Ela quer saber como os outros os enxergam. E, talvez, também queira saber como Philip a enxerga. Philip não substitui o pai de Alice, Alice também não “salva” Philip. Eles apenas se encontram em um momento em que os dois precisam de alguém.

Quando eles estão no trem e Alice pergunta o que Philip fará em Munique, ele responde que vai escrever o final daquela história. É uma frase simples, mas para mim representa uma mudança enorme, pois Philip finalmente tem uma história para contar. Durante todo o filme, ele tentou escrever sobre a América. Fotografou centenas de imagens, atravessou cidades, observou pessoas e acumulou experiências, mas não conseguia encontrar uma narrativa. No fim, a história que ele precisava contar estava acontecendo ao lado dele. Ela não está necessariamente nos grandes acontecimentos, está em duas pessoas sentadas dentro de um trem olhando pela janela. A câmera se afasta, o trem diminui no quadro, a paisagem ocupa cada vez mais espaço e os dois continuam viajando. Alice nas Cidades não é um filme que me conquistou pela trama e sim pelo estado de espírito. É melancólico sem ser deprimente, delicado sem ser sentimental e é uma aventura sem precisar de grandes aventuras.

Nota: 9/10


Ficha técnica

Título original: Alice in den Städten
Título no Brasil: Alice nas Cidades
Ano: 1974
País: Alemanha Ocidental
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders e Veith von Fürstenberg
Gênero: Drama / Aventura / Road movie
Duração: 110 minutos
Elenco: Rüdiger Vogler, Yella Rottländer, Lisa Kreuzer, Edda Köchl, Ernest Boehm e Sam Presti
Direção de fotografia: Robby Müller
Trilha sonora: Can e outros artistas
Montagem: Peter Przygodda
Distribuição: Filmverlag der Autoren