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A Vida Invisível (2019)

A Vida Invisível (2019)

Eu li A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da Martha Batalha, antes de assistir ao filme, e isso torna a experiência um pouco curiosa para mim porque, na maioria das vezes, quando leio o livro antes da adaptação, fico inevitavelmente comparando os dois. Sempre existe aquela sensação de que alguma coisa ficou de fora, de que determinada personagem foi simplificada ou de que uma passagem que funcionava muito bem na literatura perdeu força quando passou para a tela. Aqui aconteceu justamente o contrário. A Vida Invisível é uma das raras vezes em que tive a impressão de que a adaptação cinematográfica é infinitamente melhor que o livro que a originou. Karim Aïnouz pega a história de Eurídice e Guida, muda sua essência e encontra uma forma visual e emocional muito mais poderosa de contá-la.

Eurídice e Guida são duas irmãs que vivem nos anos 1940 (como as avós da maioria dos millenials como eu), e têm personalidades completamente diferentes. Eurídice é disciplinada, tímida, estudiosa e sonha em ser pianista. Guida é mais impulsiva, apaixonada e inconformada com as limitações impostas às mulheres de sua época. Enquanto Eurídice permanece dentro daquilo que se espera de uma boa filha e futura esposa, Guida foge de casa com um homem por quem está apaixonada. Quando volta, grávida e abandonada, o pai decide que ela não faz mais parte da família. Eurídice é levada a acreditar que a irmã está vivendo na Europa, enquanto Guida passa a acreditar que Eurídice também seguiu a própria vida longe dela.

As duas passam décadas separadas sem saber que continuam relativamente próximas. E é justamente essa ironia que torna o título tão doloroso. As vidas das duas mulheres são invisíveis não porque elas literalmente desapareceram, mas porque ninguém ao redor delas se preocupa verdadeiramente em enxergá-las. Guida existe como mãe solo, como mulher abandonada por um homem e como alguém que precisa trabalhar e sobreviver. Eurídice existe como esposa, mãe e dona de casa, apesar de ter sonhos que vão muito além daquela função. As duas continuam vivendo, mas aquilo que realmente desejam permanece escondido.

O que mais me impressionou no filme foi a maneira como Aïnouz transforma essa invisibilidade em imagem. O Rio de Janeiro é lindo, mas raramente parece acolhedor. As cores são intensas, exageradas, e existe uma espécie de calor permanente nas imagens. Mesmo quando estamos diante de uma paisagem bonita, percebemos como é sufocante estar ali. É um filme cheio de vermelhos, verdes e amarelos, de cortinas, portas, corredores e janelas. As personagens estão sempre enquadradas dentro de alguma coisa, já que a própria casa, a família e a sociedade estão constantemente delimitando o espaço que elas podem ocupar.

E o filme entende muito bem que a prisão de Eurídice não precisa de grades. Ela se casa, tem filhos e passa a viver uma rotina doméstica que deveria ser apresentada como realização feminina. O marido não precisa ser um monstro para que sua presença seja opressiva. Basta que ele considere natural que a vida dela se organize em torno da dele. O sonho de ser pianista vai sendo adiado, primeiro por pequenas obrigações e depois pela própria estrutura de sua vida. É uma violência muito menos explícita do que a expulsão de Guida, mas também é reconhecível por qualquer mulher.

Guida, também, não recebe liberdade. Ela é expulsa da família, precisa criar o filho praticamente sozinha e enfrenta uma vida de dificuldades materiais. Mas existe nela uma força que Eurídice não consegue expressar. Fernanda Montenegro, em sua participação como Eurídice mais velha, resume essa tragédia: existe uma mulher inteira dentro daquela personagem que nunca teve oportunidade de viver plenamente.

A atuação de Carol Duarte é especialmente impressionante porque ela consegue fazer com que Eurídice pareça simultaneamente presente e ausente. Ela está sempre ali, cuidando da casa, tocando piano, criando os filhos, conversando com o marido, mas existe uma parte dela que parece ter ficado em algum outro lugar. É uma atuação muito física. O jeito de andar, de olhar, de tocar o piano e principalmente de reagir às pequenas humilhações domésticas constrói uma mulher que foi aprendendo a invisibilizar a própria vida.

Julia Stockler, como Guida, faz o movimento contrário. Ela é expansiva e cheia de energia; mesmo quando está sofrendo, existe nela uma vontade de continuar. E a relação entre as duas é o coração do filme. O que dói não é apenas saber que elas foram separadas, mas perceber quantas vezes poderiam ter se reencontrado se o pai não tivesse decidido controlar a informação sobre a vida delas. A violência dele é apresentada como algo absolutamente comum. Ele não grita o tempo inteiro, mas decide que Guida está morta para a família, mente para Eurídice, controla o que cada uma sabe sobre a outra. A mentira paterna passa a organizar décadas da vida das filhas. É uma demonstração muito eficiente de como o patriarcado pode funcionar não apenas através da violência explícita, mas também através do controle da narrativa.

E aí o filme consegue uma coisa que considero muito difícil: transformar uma história particular em algo maior sem transformar as personagens em símbolos ambulantes. Eurídice e Guida não são simplesmente “representações das mulheres brasileiras dos anos 1940”. Elas são pessoas específicas, com desejos específicos, que gostam de coisas, erram, se apaixonam, têm raiva, sentem vergonha, sentem desejo. A dimensão política nasce justamente dessa intimidade.

O que também me ganhou foi a sensualidade do filme. A Vida Invisível não tem medo de mostrar o desejo feminino. Guida não é punida por desejar, e Eurídice também não é reduzida à esposa assexuada. Isso é particularmente importante em uma história ambientada em uma época em que a virgindade e a maternidade eram usados como mecanismos de controle.

Para Guida, Eurídice e todas as mulheres, quase todos os caminhos cobram algum preço. Guida escolhe o amor e perde a família, enquanto Eurídice escolhe a família e perde, pouco a pouco, a possibilidade de viver seu sonho. Nenhuma das duas recebe exatamente aquilo que deseja. E é justamente isso que faz a história fugir de uma estrutura simplista de “uma irmã livre e outra reprimida”. As duas estão presas, só que em lugares diferentes.

A trilha sonora e o design de som também contribuem muito para essa sensação de memória. O piano de Eurídice não é apenas um elemento da história; quando ela toca, existe uma versão dela que aparece por alguns minutos. O instrumento permite que a mulher que foi escondida durante tantos anos volte momentaneamente à superfície.

E é aqui que minha comparação com o livro se torna inevitável. Martha Batalha criou uma história interessante, mas senti que o filme encontrou uma dimensão emocional que, para mim, a literatura não alcançou da mesma maneira. A versão literária é bem-humorada, com personagens que beiram o absurdo e um final feliz na casa do pai das meninas. Eurídice, no livro, continua sendo uma mulher de muitos talentos, tolhida pelo marido, mas a adaptação não me parece uma simples ilustração do romance. É uma releitura que encontra no cinema uma forma mais dolorosa e emocional de contá-la.

O filme também tem uma inteligência enorme na maneira como trabalha o tempo. A vida dessas mulheres não é apresentada como uma sequência de grandes acontecimentos. Ela é feita de anos que passam, filhos que crescem, casamentos, refeições, pequenas decepções e sonhos adiados. É justamente isso que torna tudo tão triste. Ninguém precisa destruir a vida de Eurídice de uma vez, basta deixá-la passar.

Para mim, A Vida Invisível dói. Dói pensar em quantas mulheres, como Eurídice e Guida, passaram pela vida carregando talentos e desejos que nunca puderam realizar. Dói pensar que nossas avós também quiseram coisas, sonharam com outras vidas, fizeram planos que talvez tenham sido abandonados no caminho e que, muitas vezes, nós sequer saberemos quais eram esses sonhos. Há uma parte dessas mulheres que desaparece com elas, sem nunca ter sido conhecida. Mas, apesar de toda essa dor, A Vida Invisível é um filme belíssimo.

Nota: 10/10.

Título: A Vida Invisível
País: Brasil / Alemanha
Gênero: Drama
Ano: 2019
Diretor: Karim Aïnouz
Duração: 139 minutos