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A pior pessoa do mundo (2021)

A pior pessoa do mundo (2021)

É difícil assistir a A pior pessoa do mundo sem sentir que o filme está falando diretamente com alguma parte bastante específica de mim. Julie é, em muitos momentos, irritante, egoísta, contraditória e imatura. Ela magoa pessoas que ama, foge de decisões, muda de ideia quando as consequências começam a aparecer e frequentemente parece acreditar que a própria confusão é uma justificativa suficiente para não assumir responsabilidade por nada. E, ainda assim, talvez seja justamente por isso que eu goste tanto dela. Joachim Trier não tenta transformar Julie em uma personagem exemplar, nem em uma mulher incompreendida que precisa apenas encontrar seu verdadeiro caminho. Ele faz algo muito mais interessante: acompanha uma pessoa tentando descobrir quem é enquanto percebe, aos poucos, que cada escolha também significa abrir mão de todas as outras vidas que poderia ter vivido.

Julie começa o filme como alguém que parece incapaz de permanecer em qualquer lugar por muito tempo. Medicina não serve, psicologia também não, fotografia talvez sirva. O problema não parece estar exatamente nas escolhas, mas na expectativa de que em algum momento uma delas finalmente produza a sensação de certeza que ela procura. Quando conhece Aksel, ela encontra uma estabilidade que inicialmente parece confortável, mas que logo se transforma em outra espécie de prisão. Ele é mais velho, mais estabelecido e sabe o que quer. Julie ainda está tentando descobrir se quer alguma coisa. A discussão sobre filhos é particularmente importante porque não existe uma resposta simples ali. Aksel não está necessariamente errado por desejar uma família, assim como Julie não está errada por não saber se quer ser mãe. O conflito nasce justamente da impossibilidade de conciliar dois desejos legítimos quando o tempo não é igualmente generoso com os dois.

E é aí que Trier consegue fazer algo que considero muito difícil em filmes sobre relacionamentos: ele não transforma ninguém em vilão. Aksel pode ser controlador, insistente e condescendente em determinados momentos, mas também é alguém apaixonado por Julie e tentando construir uma vida com ela. Julie, por sua vez, não é uma vítima de um homem que não a compreende. Ela simplesmente quer coisas diferentes, ou talvez ainda não saiba o que quer. A diferença parece pequena, mas é fundamental. O filme entende que algumas relações não terminam porque alguém fez alguma coisa imperdoável. Às vezes terminam porque duas pessoas estão caminhando em velocidades diferentes.

A sequência em que Julie conhece Eivind é uma das coisas que mais me encantam no filme. Os dois passam uma noite inteira juntos estabelecendo limites absurdamente específicos para aquilo que não irão fazer. Não vão se beijar, não vão fazer sexo, não vão trair seus parceiros. E, ao mesmo tempo, passam horas testando todos os limites possíveis. Eles cheiram um ao outro, fazem xixi juntos, experimentam intimidades que parecem banais e, justamente por isso, tornam-se extremamente íntimas. É uma cena engraçada, sensual e melancólica porque sabemos que aquilo já ultrapassou alguma fronteira, mesmo que tecnicamente nenhum dos dois tenha cometido uma traição convencional.

Quando Julie finalmente termina com Aksel para ficar com Eivind, existe uma sensação inicial de libertação. Ela finalmente escolheu. Só que A pior pessoa do mundo não está interessado em oferecer a ela a recompensa por ter tomado uma decisão. Eivind também se torna insuficiente. Não porque seja uma pessoa ruim, mas porque Julie continua sendo Julie. O problema que ela carregava não estava em Aksel. Talvez também não esteja em Eivind. Está nessa necessidade quase desesperada de acreditar que existe uma versão definitiva de si mesma esperando ser encontrada em algum relacionamento, profissão ou experiência.

É justamente por isso que considero o filme tão dolorosamente honesto. Julie não é apresentada como uma mulher que precisa simplesmente “se encontrar”. Essa expressão sempre me pareceu um pouco confortável demais, como se existisse uma versão verdadeira de nós mesmos escondida em algum lugar e bastasse procurar o suficiente para encontrá-la. Julie descobre algo muito menos romântico: somos também aquilo que fazemos enquanto ainda não sabemos quem somos. Somos nossas indecisões, nossos impulsos, nossas covardias, nossas escolhas ruins e as pessoas que machucamos tentando descobrir o que queremos.

O filme é dividido em capítulos, prólogo e epílogo, e essa estrutura funciona quase como uma autobiografia emocional fragmentada. Em vez de acompanhar todos os acontecimentos da vida de Julie com a mesma importância, Trier escolhe determinados momentos e transforma-os em pequenas histórias sobre desejo, amadurecimento, medo e arrependimento. É como se estivéssemos assistindo às lembranças que realmente permanecem depois que uma fase da vida termina. Algumas duram meses, outras parecem durar apenas uma noite, mas todas deixam alguma coisa para trás.

E existe uma sequência que, para mim, resume perfeitamente a capacidade do filme de transformar um desejo extremamente simples em algo quase fantástico: quando Julie decide ir até Eivind, ela atravessa Oslo e, de repente, o tempo parece parar. Pessoas ficam imóveis nas ruas, carros deixam de se mover, garçons permanecem congelados no meio do trabalho e Julie atravessa a cidade como se fosse a única pessoa viva naquele instante. Ela não está apenas correndo para encontrar um homem. Está experimentando aquela sensação absolutamente juvenil de que, quando desejamos alguma coisa com intensidade suficiente, o mundo inteiro deveria parar para que pudéssemos vivê-la. É uma fantasia romântica maravilhosa justamente porque sabemos que ela não pode durar.

Mas o filme nunca permite que Julie permaneça muito tempo dentro das próprias fantasias. A gravidez coloca tudo de volta no mundo concreto. Pela primeira vez, uma escolha deixa de ser apenas sobre ela. Existe outra pessoa envolvida, existe tempo, existe responsabilidade e existe a impossibilidade de simplesmente recomeçar quando as coisas ficam difíceis. E então acontece uma das coisas mais bonitas e dolorosas do filme: Julie visita Aksel no hospital. Ele está morrendo, e os dois finalmente conseguem conversar sem a necessidade de decidir quem está certo. Aksel diz que ainda a ama. Julie admite que está grávida. Não existe uma grande reconciliação, porque talvez algumas pessoas não tenham sido feitas para permanecer em nossas vidas. Algumas simplesmente atravessam determinado período e deixam marcas que continuam existindo mesmo depois que a relação termina.

A doença de Aksel também muda completamente a maneira como enxergamos o relacionamento dos dois. Até então, a morte parecia uma possibilidade distante, uma consequência abstrata da passagem do tempo. De repente, ela está ali. Aksel, que antes representava justamente aquilo de que Julie queria escapar — estabilidade, envelhecimento, compromissos, filhos, permanência — torna-se alguém que está perdendo tudo isso. E Julie, que passou boa parte do filme tentando descobrir como construir a própria vida, se vê diante da impossibilidade de controlar sequer o tempo que ainda terá com alguém que ama.

O aborto espontâneo de Julie é tratado com uma delicadeza que considero fundamental. O filme não transforma o acontecimento em uma grande lição moral nem tenta dizer a ela como deveria se sentir. Julie sente alívio. E sentir alívio depois de perder uma gravidez desejada e temida ao mesmo tempo é uma emoção profundamente contraditória, mas perfeitamente humana. Trier não parece interessado em oferecer ao espectador uma reação emocionalmente “correta”. Ele simplesmente permite que Julie sinta aquilo que sente.

É também nesse ponto que o título se torna mais interessante. A pior pessoa do mundo parece uma acusação, mas também funciona como uma provocação. Julie é a pior pessoa do mundo? Em determinados momentos, talvez seja. Ela mente, trai, abandona, manipula e machuca. Mas quem não reconhece alguma coisa de si mesma nela provavelmente está mentindo. O filme não pede que gostemos de todas as decisões da personagem. Pede apenas que reconheçamos a humanidade por trás delas.

E eu gosto especialmente de como Trier não transforma o amadurecimento em uma espécie de prêmio. Julie termina o filme trabalhando como fotógrafa, aparentemente mais próxima de uma vida que faz sentido para ela. Mas não existe a sensação de que finalmente encontrou “a resposta”. Ela simplesmente chegou a outro lugar. E isso me parece muito mais verdadeiro do que qualquer final em que a protagonista descobre sua vocação, encontra o amor verdadeiro e finalmente entende quem é. Talvez crescer seja exatamente isso: continuar sem saber completamente quem somos, mas aprender a conviver com o fato de que nossas escolhas têm consequências.

A sequência final, com Julie fotografando uma atriz durante uma filmagem e depois vendo Eivind do lado de fora com um bebê, é especialmente bonita porque não precisa explicar nada. A vida dele continuou. A dela também. Eles tiveram uma história, desejaram coisas um do outro e seguiram caminhos diferentes. Julie observa por alguns segundos e volta ao trabalho. Não há escândalo, ciúme ou grande discurso. Apenas aquela pequena dor que existe quando percebemos que uma vida que um dia pareceu possível agora pertence a outra pessoa.

E talvez seja justamente por isso que eu dê 10/10 para A pior pessoa do mundo. Não porque Julie seja uma personagem admirável, mas porque ela é uma personagem que eu consigo reconhecer. Existe algo profundamente íntimo na maneira como o filme fala sobre ter quase trinta anos, não saber exatamente o que fazer da própria vida, desejar coisas incompatíveis, mudar de ideia, sentir que estamos atrasados e, ao mesmo tempo, perceber que talvez não exista lugar algum onde finalmente chegaremos. Trier transforma essa ansiedade em romance, comédia, drama e fantasia sem nunca perder a sensação de verdade.

No fim, Julie não se torna uma pessoa melhor no sentido tradicional. Ela apenas continua. E talvez continuar, depois de tudo, seja uma das formas mais difíceis de amadurecer.

Ficha técnica

Título: A pior pessoa do mundo (Verdens verste menneske)
País: Noruega
Gênero: Romance/Drama
Ano: 2021
Diretor: Joachim Trier
Duração: 121 minutos

Nota: 9/10