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Os Inocentes (1961)

Os Inocentes (1961)

Há filmes de terror que querem nos assustar e há filmes que querem nos fazer duvidar do que estamos vendo. Os Inocentes, de Jack Clayton, pertence à segunda categoria — e talvez seja justamente por isso que continue sendo tão perturbador mais de seis décadas depois. É um filme em que quase nada precisa acontecer para que alguma coisa pareça profundamente errada. Uma figura ao fundo, uma janela, um corredor vazio, uma criança olhando por tempo demais para alguém que não conseguimos enxergar e, principalmente, a sensação persistente de que a casa está escondendo alguma coisa. 9/10.

Adaptado da novela A Volta do Parafuso, de Henry James, o filme acompanha a Sra. Giddens, interpretada por Deborah Kerr, uma jovem governanta que aceita cuidar de Flora e Miles, duas crianças órfãs que vivem na mansão Bly. Desde a entrevista de emprego, existe algo desconfortável na situação. O tio das crianças deixa claro que não quer ser incomodado por absolutamente nada relacionado a elas. Ele está disposto a contratar uma mulher para cuidar dos sobrinhos, mas não quer assumir a responsabilidade por aquilo que possa acontecer dentro da própria casa. A governanta, inexperiente e aparentemente encantada com a possibilidade de finalmente ter uma função importante na vida, aceita as condições.

Quando chega a Bly, porém, a casa parece inicialmente um lugar quase encantado. Flora é carinhosa, Miles retorna do internato com uma educação impecável e a Sra. Grose, a governanta mais antiga, parece representar alguma espécie de estabilidade naquele ambiente. Mas Clayton faz uma coisa muito inteligente: ele não transforma a mansão imediatamente em um lugar ameaçador. Pelo contrário. A beleza dos jardins, a arquitetura, a luz e os espaços enormes fazem Bly parecer bonita demais. E justamente por isso começamos a desconfiar dela.

A fotografia de Freddie Francis é fundamental para essa sensação. A mansão é constantemente atravessada por sombras, reflexos e enquadramentos que parecem esconder alguma coisa. A câmera frequentemente coloca personagens em espaços enormes, deixando áreas vazias ao redor deles. Existe sempre a possibilidade de que alguma coisa esteja acontecendo fora do nosso campo de visão. E o mais interessante é que Clayton não precisa mostrar o fantasma de maneira explícita para produzir essa expectativa. Muitas vezes, o terror está justamente na possibilidade de que haja alguém ali.

A primeira aparição de Quint é um ótimo exemplo. A Sra. Giddens olha para uma torre e vê um homem parado ali. Não há música estrondosa, não há susto repentino. Há simplesmente uma figura humana ocupando um lugar onde aparentemente não deveria haver ninguém. Quando ela chega ao local, ele desapareceu. É uma situação banal na superfície, mas o filme sabe prolongar o desconforto. A partir daquele momento, passamos a observar os espaços junto com ela, procurando por alguma coisa escondida.

E talvez o grande mérito de Os Inocentes esteja justamente nessa transformação do espectador em cúmplice da paranoia da protagonista.

A Sra. Giddens começa a enxergar coisas que ninguém mais parece perceber. Primeiro o homem na torre, depois a mulher vestida de preto. Ela tenta racionalizar o que está acontecendo, mas cada nova aparição torna essa possibilidade mais difícil. Ao mesmo tempo, as crianças começam a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos. Flora e Miles continuam sendo carinhosos, educados e encantadores, mas existe alguma coisa por trás dessa aparência de inocência que incomoda profundamente.

É interessante como o filme utiliza as próprias crianças como elemento de terror. Não porque elas sejam simplesmente “crianças assustadoras”, um clichê bastante explorado posteriormente pelo cinema de horror, mas porque existe uma contradição entre aquilo que elas parecem ser e aquilo que podem estar escondendo. Miles, principalmente, é perturbador. Ele é educado demais, maduro demais, observador demais. Há momentos em que parece compreender coisas que uma criança daquela idade não deveria compreender.

E Deborah Kerr é extraordinária justamente porque nunca interpreta a governanta como uma mulher que simplesmente enlouquece. Ela interpreta alguém que está tentando desesperadamente compreender o que está acontecendo. A Sra. Giddens começa a história cheia de expectativas. Ela parece enxergar aquele trabalho como uma oportunidade de construir uma vida própria, longe da condição de mulher solteira que precisa se submeter às expectativas sociais de sua época. Bly deveria ser uma espécie de recomeço.

Por isso, quanto mais a casa a absorve, mais trágica se torna sua trajetória.

Existe também uma dimensão sexual muito forte no filme, ainda que quase nunca seja explicitada. Peter Quint e Miss Jessel tiveram uma relação descrita como apaixonada, violenta e escandalosa, e a presença deles continua contaminando a casa depois da morte. O comportamento de Miles diante da governanta também possui uma estranheza que ultrapassa a simples precocidade infantil. Ele olha, fala e se comporta como alguém que aprendeu a linguagem dos adultos antes do tempo.

O filme não precisa explicar completamente o que aconteceu entre os adultos para que compreendamos que alguma fronteira foi ultrapassada. Quint e Jessel parecem ter deixado para trás não apenas fantasmas, mas uma espécie de herança de perversidade que pode estar sendo transmitida às crianças.

E é justamente aqui que a ambiguidade de Os Inocentes se torna tão interessante.

Os fantasmas realmente existem?

A pergunta parece simples, mas Clayton nunca oferece uma resposta completamente confortável. É possível interpretar os acontecimentos literalmente: Quint e Jessel são espíritos que retornaram para possuir ou influenciar as crianças. Mas também é possível interpretar tudo a partir da perspectiva da própria Sra. Giddens. Ela chega a uma casa isolada, passa a ouvir histórias sobre mortes violentas, começa a ver pessoas que deveriam estar mortas e gradualmente desenvolve uma obsessão pela ideia de que as crianças estão em perigo.

Talvez ela esteja vendo fantasmas. Talvez esteja vendo aquilo que sua própria imaginação produz.

O genial é que as duas possibilidades são assustadoras.

Se os fantasmas existem, Bly é uma casa assombrada onde duas crianças estão sendo perseguidas por adultos mortos. Se não existem, estamos acompanhando uma mulher cada vez mais convencida de que precisa salvar duas crianças de uma ameaça que talvez só exista em sua cabeça. Em qualquer uma das interpretações, o resultado é trágico.

A própria ideia de “inocência” do título começa a se tornar cada vez mais irônica. Flora e Miles são crianças, mas o mundo adulto já chegou até eles. Eles sabem demais, viram demais e parecem carregar uma história que não lhes pertence. A Sra. Giddens, por outro lado, acredita que pode restaurar essa inocência simplesmente expulsando Quint e Jessel. Mas talvez seja tarde demais para isso.

Uma das coisas que mais gosto no filme é que o terror não depende de violência gráfica. Mesmo para os padrões de 1961, Os Inocentes é um filme relativamente contido. O horror está no olhar, no som, na arquitetura e na expectativa. As batidas na porta, os ruídos distantes, os espaços vazios e as aparições breves criam uma atmosfera muito mais angustiante do que uma sucessão de sustos conseguiria produzir.

E há algo particularmente bonito na maneira como o som é utilizado. O silêncio nunca parece vazio. A casa está sempre respirando, rangendo, produzindo algum ruído. Quando ouvimos alguma coisa, imediatamente começamos a tentar localizar sua origem. Quando não ouvimos nada, ficamos esperando que alguma coisa aconteça.

A direção de Clayton também é muito precisa ao decidir quando mostrar e quando esconder. A cena em que a Sra. Giddens vê uma figura através de uma janela, por exemplo, funciona porque a aparição não ocupa o centro da imagem como uma criatura de filme de monstros. Ela simplesmente está lá. É quase possível não perceber. E é justamente essa discrição que torna a imagem tão perturbadora.

O final, para mim, é o golpe mais cruel do filme.

Depois de toda a investigação, de toda a tentativa de compreender o que aconteceu em Bly, a Sra. Giddens finalmente consegue aquilo que acredita querer: fazer Miles reconhecer Quint e se libertar de sua influência. Ela o pressiona, insiste, exige que ele diga o nome do homem. Quando finalmente ele o faz, a presença de Quint aparece. Miles parece reconhecer aquilo que ela está tentando combater. Ele cai nos braços dela.

Por alguns segundos, parece que ela venceu.

Então percebemos que Miles está morto.

E é uma conclusão devastadora porque destrói completamente a ideia de salvação que guiou a protagonista durante todo o filme. Ela acreditava estar protegendo aquela criança e termina justamente sendo a pessoa que a abraça no momento de sua morte. O beijo nos lábios torna tudo ainda mais perturbador, porque mistura luto, afeto, desespero e uma intimidade desconfortável em uma única imagem.

Não é um final que simplesmente encerra a história. É um final que muda a maneira como enxergamos tudo o que veio antes.

Os Inocentes é, para mim, um daqueles filmes em que a atmosfera importa tanto quanto a história. Talvez eu nem precisasse saber exatamente quem são os fantasmas ou o que eles querem para continuar pensando naquele casarão depois que os créditos terminassem. A força do filme está nessa sensação de que existe alguma coisa escondida atrás daquilo que conseguimos ver — e que talvez seja melhor não descobrir exatamente o que é.

Mais de sessenta anos depois, muita coisa que era inovadora aqui se tornou clichê. Crianças estranhas, mansões isoladas, fantasmas, governantas atormentadas, aparições em janelas. Tudo isso já foi repetido incontáveis vezes. Mas Os Inocentes continua funcionando porque não depende desses elementos isoladamente. Ele entende que o verdadeiro terror está na incerteza e, principalmente, na impossibilidade de confiar completamente naquilo que estamos vendo.

É um filme sobre fantasmas, mas também sobre repressão, desejo, solidão e obsessão. E talvez seja justamente essa combinação que faça com que ele continue tão desconfortável. A casa pode estar assombrada. As crianças podem estar possuídas. A Sra. Giddens pode estar enlouquecendo. Ou talvez todas essas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.

Nota: 9/10

Ficha técnica

Título: Os Inocentes (The Innocents)
País: Reino Unido
Gênero: Terror / Drama psicológico
Ano: 1961
Direção: Jack Clayton
Duração: 99 minutos
Roteiro: William Archibald e Truman Capote, baseado em A Volta do Parafuso, de Henry James
Elenco: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Pamela Franklin e Martin Stephens
Fotografia: Freddie Francis
Edição: Jim Clark
Música: Georges Auric
Produção: Jack Clayton e Michael L. Gough