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Piscina Infinita (2023)

Piscina Infinita (2023)

Brandon Cronenberg parece ter herdado do pai uma certa desconfiança em relação ao corpo humano, mas, em Piscina Infinita, o que mais me interessa não é exatamente o corpo: é o que acontece com uma pessoa quando ela descobre que as consequências dos próprios atos podem ser eliminadas. O ponto de partida do filme é quase uma fantasia de ficção científica bastante simples — a possibilidade de criar uma cópia perfeita de alguém e transferir para ela a punição por um crime —, mas Cronenberg transforma essa ideia em alguma coisa muito mais perturbadora. Porque, depois que a morte deixa de ser definitiva, o que impede alguém de fazer qualquer coisa? E, principalmente, o que acontece quando a impunidade deixa de ser uma condição externa e passa a modificar completamente a maneira como enxergamos a nós mesmos?

James Foster é um escritor que publicou um único livro, fracassou e parece ter passado os anos seguintes tentando lidar com o fato de que talvez não seja tão talentoso quanto gostaria de acreditar. Sua esposa, Em, é rica e sustenta a vida confortável do casal, enquanto ele permanece preso a uma espécie de frustração silenciosa. Eles viajam para um resort paradisíaco em um país fictício, cercado por uma população pobre e submetida a leis extremamente severas, e inicialmente tudo parece funcionar dentro daquela lógica conhecida dos filmes sobre férias de luxo: um casal rico, um lugar exótico, pessoas interessantes e a promessa de alguns dias de descanso. Só que James conhece Gabi, uma mulher que se apresenta como sua fã, e a viagem começa a adquirir uma dimensão muito mais estranha. Gabi é interpretada por Mia Goth com uma combinação desconcertante de sensualidade, euforia e crueldade. Ela parece ter identificado rapidamente aquilo que existe de mais frágil em James e passa a brincar com isso.

O que mais gosto nessa primeira parte é que o filme demora um pouco para revelar exatamente o tipo de experiência que estamos prestes a ter. Existe uma atmosfera de ameaça desde o começo, mas ela não vem necessariamente do lugar. O resort é bonito, confortável e aparentemente seguro. A ameaça vem das pessoas que circulam por ele e, principalmente, da sensação de que James entrou em um grupo cujas regras ainda não compreende. Quando acontece o acidente e ele atropela um homem, a situação parece inicialmente um pesadelo bastante convencional: um estrangeiro mata alguém em um país com leis rígidas e precisa lidar com as consequências. Só que Piscina Infinita rapidamente transforma essa situação em algo muito mais perverso. James pode pagar para que um clone seja criado e executado em seu lugar. Ele não precisa cumprir pena. Não precisa morrer. Precisa apenas assistir à própria cópia morrer.

É uma das ideias mais brilhantes do filme justamente porque a primeira execução ainda produz horror. James assiste ao seu clone ser morto e, apesar de saber racionalmente que aquela não é exatamente sua morte, o acontecimento continua sendo profundamente perturbador. Existe alguma coisa na imagem de um homem vendo uma cópia perfeita de si mesmo ser executada que parece tocar em um medo muito primitivo. A partir daí, porém, Cronenberg começa a fazer uma pergunta muito mais interessante: e se a primeira morte for assustadora, mas a segunda já for menos? E a terceira? E se, depois de algumas experiências, a morte de uma cópia deixar de significar absolutamente nada?

O grupo de turistas que James encontra parece já ter atravessado essa fronteira. Eles descobriram uma espécie de playground moral em que podem cometer crimes, morrer e voltar para o hotel como se nada tivesse acontecido. O sistema que deveria funcionar como punição acaba funcionando como autorização. É aí que o filme se torna especialmente cruel: a tecnologia não cria a monstruosidade dessas pessoas. Ela apenas retira o último obstáculo que existia entre o desejo e sua realização. Sem a possibilidade de sofrer consequências, elas descobrem que podem transformar violência em entretenimento.

E James é perfeito para ser incorporado a esse grupo porque existe nele uma espécie de vazio que Gabi percebe imediatamente. Ele quer ser um escritor importante, mas não consegue escrever. Quer ser admirado, mas não acredita que mereça admiração. Está casado com uma mulher que parece ter uma vida financeira e emocional mais estável do que a dele. Quando Gabi diz que conhece seu livro, ela oferece exatamente aquilo que James deseja receber: reconhecimento. Só que o elogio é uma armadilha. Mais tarde, quando ela revela que nunca leu o livro, fica claro que o grupo nunca esteve interessado em James como indivíduo. Ele era apenas alguém que poderia ser transformado em objeto de diversão.

Mia Goth é extraordinária nesse papel porque Gabi nunca parece completamente legível. Ela pode ser encantadora em uma cena e absolutamente repulsiva na seguinte, mas o mais desconfortável é que as duas coisas parecem existir simultaneamente. Ela não precisa se transformar em uma vilã convencional porque o filme não está interessado em estabelecer uma moralidade simples entre vítimas e monstros. Gabi e os outros turistas são monstruosos, mas o que os torna assustadores é justamente o fato de que eles continuam se comportando como pessoas perfeitamente comuns. Conversam, riem, fazem piadas, vão à piscina, usam drogas e discutem amenidades. A violência foi incorporada à rotina.

Esse contraste entre o luxo e a brutalidade é um dos aspectos visuais de que mais gosto em Piscina Infinita. Cronenberg filma o resort como um espaço quase artificialmente bonito, cheio de superfícies claras, piscinas, arquitetura moderna e paisagens tropicais, mas essa beleza vai sendo contaminada pela violência. A fotografia de Karim Hussain cria imagens muito limpas e, ao mesmo tempo, profundamente desconfortáveis. É como se o filme estivesse constantemente tentando transformar um cartão-postal em pesadelo. E as sequências de alucinação ampliam ainda mais essa sensação, principalmente quando as imagens começam a se multiplicar, os rostos se deformam e a identidade de James parece perder qualquer estabilidade.

O título é especialmente apropriado. A piscina infinita é uma imagem de luxo, mas também de repetição. A água parece continuar indefinidamente, sem começo ou fim, e essa ideia combina perfeitamente com o mecanismo do filme. Os personagens podem morrer e retornar. Podem repetir seus atos. Podem experimentar a violência novamente porque sabem que haverá outra versão de si mesmos disponível. A piscina se torna quase uma representação visual desse ciclo de prazer, violência e repetição do qual ninguém parece querer sair.

Também acho interessante que o filme não esteja realmente interessado em explicar de maneira detalhada o funcionamento da tecnologia. Como exatamente esses clones são produzidos? Qual é a natureza da consciência deles? Eles têm as mesmas memórias? São pessoas diferentes? Cronenberg oferece algumas respostas, mas nunca transforma essas questões no centro da narrativa. E considero isso acertado. A ficção científica aqui é um instrumento para discutir comportamento humano. O que importa não é se a tecnologia é possível, mas o que nós faríamos se ela fosse.

A partir do momento em que James começa a participar das experiências do grupo, ele passa por uma transformação que considero o verdadeiro centro do filme. Inicialmente, ele é uma vítima. Depois, passa a ser cúmplice. Em seguida, começa a participar da violência. E, pouco a pouco, já não parece saber exatamente onde está o limite entre aquilo que faz porque está sendo pressionado e aquilo que deseja fazer. Essa ambiguidade é muito mais interessante do que seria uma simples história de corrupção moral. James não é inocente durante todo o filme, mas também não se transforma completamente em um dos outros. Ele permanece preso em algum ponto intermediário, tentando descobrir quem é quando todas as regras que organizavam sua identidade foram retiradas.

A sequência em que ele descobre que um novo clone foi criado para ser usado em uma brincadeira é especialmente importante nesse sentido. Até então, James ainda podia acreditar que o sistema tinha algum tipo de lógica. Quando percebe que até sua própria imagem pode ser reproduzida e violentada por outras pessoas simplesmente porque elas acham divertido, alguma coisa se rompe. A identidade deixa de ser algo singular. Se existe outro James, depois outro e outro, o que exatamente significa ser James?

É uma pergunta bastante cronenberguiana, mas Brandon a conduz para um território diferente daquele explorado pelo pai. Em vez de concentrar a transformação no corpo, ele está muito interessado na dissolução da individualidade. O corpo pode ser reproduzido, mas a experiência continua sendo profundamente psicológica. James começa a enxergar a si mesmo como objeto. E talvez seja justamente isso que o grupo já tenha feito há muito tempo: transformou a própria existência em objeto de consumo.

O filme também faz uma crítica bastante evidente ao turismo de luxo e à maneira como pessoas privilegiadas podem enxergar países pobres como espaços onde suas próprias regras deixam de valer. Os turistas chegam a um lugar estrangeiro e transformam a cultura, a pobreza e até as leis locais em parte de sua experiência. O país existe para servi-los. Quando James comete um crime, o sistema jurídico local vira uma curiosidade exótica que pode ser contornada pelo dinheiro. Quando o grupo decide cometer outros crimes, a população daquele lugar deixa de ser composta por pessoas e passa a ser apenas parte do cenário.

Essa é uma das dimensões mais incômodas do filme porque a violência nunca acontece em um vazio. Existe sempre uma desigualdade econômica por trás dela. Os turistas podem fazer o que quiserem porque têm dinheiro. Podem ser punidos e voltar. Podem matar e substituir o próprio corpo. Podem transformar a morte em entretenimento porque a sociedade ao redor permite que continuem protegidos. A ficção científica apenas leva ao extremo uma lógica que já existe no mundo real: pessoas muito ricas frequentemente vivem sob regras diferentes das demais.

E existe uma ironia bastante amarga no fato de James ser um escritor fracassado. Ele está justamente em um ambiente em que ninguém parece interessado em quem ele é, mas todos podem reproduzir seu corpo. Seu livro não importa. Sua personalidade não importa. Sua história não importa. O que interessa é a possibilidade de transformar sua existência em espetáculo. Talvez seja por isso que o fato de Gabi nunca ter lido seu livro seja tão cruel. James queria desesperadamente ser reconhecido por aquilo que criou, mas descobre que as pessoas ao seu redor estão muito mais interessadas em destruir aquilo que ele é.

O final, para mim, é uma consequência quase inevitável dessa trajetória. Depois de ter a oportunidade de voltar para casa, James decide não embarcar no avião. Em vez de recuperar a vida anterior, ele retorna ao resort e permanece sozinho diante da piscina, enquanto a chuva cai. Não vejo esse momento simplesmente como uma escolha pela perversidade ou como uma incapacidade de voltar à normalidade. É algo mais triste. James já não sabe mais como retornar à pessoa que era antes. O resort deixou de ser apenas um lugar onde ele passou férias. Tornou-se o espaço em que sua identidade foi desmontada.

E é aí que Piscina Infinita me parece mais interessante do que simplesmente um filme de terror corporal ou uma ficção científica grotesca. A violência, o sangue, os clones e as alucinações são muito chamativos, mas por baixo deles existe uma história sobre privilégio, desejo, insegurança e a facilidade com que uma pessoa pode abandonar seus limites quando descobre que não precisará pagar por aquilo que faz. James não chega ao resort como um monstro. Ele chega como um homem frustrado, inseguro e ressentido. O que o filme faz é colocá-lo em um ambiente onde essas características podem ser exploradas até o limite.

Eu gosto muito de filmes que conseguem me deixar desconfortável sem depender exclusivamente de sustos, e Piscina Infinita faz isso muito bem. É um filme que parece estar sempre alguns passos à frente do espectador, não necessariamente porque sua história seja difícil de compreender, mas porque nunca sabemos exatamente até onde ele pretende levar uma determinada situação. A sensação de imprevisibilidade é constante. E quanto mais absurdo o filme fica, mais coerente parece a sua lógica interna.

Não acho que seja um filme perfeito. Em alguns momentos, Cronenberg leva sua alegoria tão longe que a repetição começa a diminuir um pouco o impacto das primeiras cenas. Há também momentos em que o simbolismo é bastante evidente, quase didático. Mas, mesmo assim, a experiência permanece muito forte. A direção tem personalidade, Mia Goth está extraordinária, Alexander Skarsgård consegue transmitir muito bem a fragilidade e o vazio de James, e o filme encontra uma linguagem visual que transforma uma história bastante simples em uma experiência perturbadora.

Talvez o que mais tenha ficado comigo depois de Piscina Infinita seja justamente a ideia de que a possibilidade de escapar da morte não necessariamente nos tornaria livres. Talvez nos tornasse piores. Se ninguém pudesse morrer de verdade, quantas coisas deixariam de parecer erradas? Quanto tempo levaria para a violência virar brincadeira? E, depois disso, quanto tempo levaria para deixarmos de reconhecer a nós mesmos?

É uma pergunta bastante desagradável.

E eu gosto que o filme não tente respondê-la de maneira confortável.

Nota: 9/10

Ficha técnica

Título: Piscina Infinita (Infinity Pool)
Ano: 2023
País: Canadá / Croácia / Hungria
Direção: Brandon Cronenberg
Roteiro: Brandon Cronenberg
Gênero: Terror / Ficção científica
Duração: 117 minutos
Elenco: Alexander Skarsgård, Mia Goth, Cleopatra Coleman, Jalil Lespert, Amanda Brugel e Thomas Kretschmann
Direção de fotografia: Karim Hussain
Montagem: Matthew Hannam
Música: Tim Hecker
Produção: Neon / Elevation Pictures / Topic Studios