A Nuvem Rosa (2021)
Quando A Nuvem Rosa apareceu para mim, eu não sabia absolutamente nada sobre o filme. Só estava procurando por produções brasileiras de ficção científica para passar o tempo durante o isolamento provocado pela pandemia de COVID-19. Foi uma escolha inocente (experiência que se repetiria algumas semanas depois com Viveiro, também escolhido no escuro, mas deixo essa crítica para outro dia). O fato é que assistir a um filme sobre isolamento enquanto eu mesma vivia um, tornou A Nuvem Rosa tão inesquecível para mim que, ainda hoje, me pego pensando nele com frequência.
O filme de Iuli Gerbase foi escrito e produzido antes da pandemia de COVID-19, mas chegou ao público em 2021, quando o medo da contaminação e o confinamento já faziam parte da vida de praticamente todo mundo. É difícil assistir àquelas pessoas trancadas dentro de casa, recebendo mantimentos por um tubo e acompanhando a deterioração das relações pela tela de um computador sem pensar naquilo que nós mesmos vivemos.
Lembro que, logo nos primeiros dias de isolamento, Epidemia (1995) estava entre os filmes mais vistos da Netflix. E ele, sim, é um filme sobre uma pandemia, ainda que com os exageros de sempre. A Nuvem Rosa, não. E é justamente por isso que ele continua interessante depois que a coincidência deixa de ser novidade. A nuvem é apenas o acontecimento que interrompe a liberdade. O verdadeiro assunto do filme é o que fazemos quando somos obrigados a continuar vivendo dentro de uma vida que não escolhemos.
A história começa assim: um menino passeia com um cachorro à beira de um lago, uma nuvem rosa se aproxima. Dez segundos depois, ele está morto. Não existe uma grande explicação científica (e nem existirá) e não existe tempo para compreender o que aconteceu. Quando a nuvem mortal chega a Giovana e Yago, que acabaram de se conhecer e passaram a noite juntos. Logo, eles descobrem que uma nuvem mortal está se espalhando e que a única maneira de sobreviver é permanecer dentro de casa, enfrentando uma intimidade para a qual elas ainda não estão preparadas.

Com o desenrolar do filme, percebemos que eles dificilmente teriam ficado juntos caso a nuvem rosa não tivesse colocado ambos naquela situação de confinamento. Yago quer ter filhos, Giovana não. Ele é mais ligado à espiritualidade e tenta aceitar a nova vida, enquanto Giovana não se conforma. Antes mesmo de a nuvem aparecer, portanto, existem divergências fundamentais entre os dois e o isolamento elimina as possibilidades de adiá-lo.
No começo, o confinamento parece provisório. Eles acreditam que em algum momento poderão sair, fazem planos, organizam a rotina e esperam (difícil não lembrar de quando achamos que o lockdown duraria duas semanas). Depois passam meses, anos e uma década. Eles ainda estão lá, sem contato com o mundo exterior. A espera deixa de ser uma fase para se tornar a maior parte da própria vida. Essa passagem do tempo é fundamental para entender o filme. A nuvem rosa não precisa aparecer o tempo inteiro. Na verdade, ela quase desaparece visualmente durante boa parte da narrativa. No início, achei que fosse uma escolha de arte ruim. A falta de orçamento parecia evidente na ausência de uma ameaça visualmente presente, algo que talvez fosse diferente em um filme milionário baseado em Stephen King, por exemplo. Depois, porém, comecei a achar essa escolha muito interessante. Porque o verdadeiro horror de A Nuvem Rosa não é a nuvem. É o tempo. É acordar no mesmo lugar durante dez anos, ver uma criança crescer sem nunca conhecer o mundo, assistir aos pais envelhecerem através de uma tela ou perder amigos sem poder abraçá-los. Nesse sentido, o filme consegue ser profundamente angustiante sem precisar recorrer constantemente ao suspense. O medo não está no que vai acontecer, mas naquilo que já aconteceu enquanto ninguém estava olhando: os anos passaram.
Nós sabemos o que acontece se eles abrirem a porta, então a tensão vem de outra pergunta: quanto tempo uma pessoa consegue permanecer viva sem sentir que está vivendo? Giovana é a personagem que mais entende e mais sofre com essa questão. Desde o início, ela é apresentada como alguém que tem uma relação muito particular com a própria liberdade. É designer, tem seus projetos e seus desejos. A maternidade não faz parte dos planos que ela imaginou para si.
Em determinado momento do filme, uma gravidez acontece. E, de certa maneira, o confinamento torna essa escolha ainda mais irreversível. Lino nasce dentro da casa, cresce e diante da possibilidade da extinção da nuvem, ele reza para que ela não vá embora, uma vez que ele só conhece aquela vida.
Existe uma tendência de representar a maternidade como uma transformação definitiva: a mulher não queria ser mãe, mas, quando o filho nasce, descobre um amor tão absoluto que todas as dúvidas desaparecem. A Nuvem Rosa não conta essa história. Giovana pode amar o filho e, ao mesmo tempo, lamentar a vida que perdeu. Pode ser uma boa mãe e ainda sentir falta da mulher que era antes dela. Não é uma mãe monstruosa, mas uma mulher exausta, presa a uma vida que não escolheu inteiramente e que, depois de tantos anos, já não consegue sequer imaginar como abandonar. Mais uma vez, o filme não é realmente sobre uma pandemia. Quantas mulheres não vivem, de alguma forma, a mesma experiência de Giovana, presas a uma vida que parece impossível de deixar?
A relação com Yago também vai se deteriorando de maneira muito interessante. Não existe um grande acontecimento que destrua o casal, mas existe um profundo desgaste. Eles passam tanto tempo juntos que, paradoxalmente, começam a viver separados dentro da mesma casa: Giovana fica em um andar e Yago, em outro. No começo, os dois dividem o mesmo espaço, depois, passam a fingir serem outras pessoas em uma simulação de festa; então ocupam cômodos diferentes, até que, emocionalmente, parecem viver em mundos completamente separados. Mesmo após uma década, não há intimidade e sim, distância. Outras relações mediadas pela tela também começam a desaparecer para ambos: o pai de Yago tem Alzheimer e progressivamente deixa de reconhecê-lo, uma amiga de Giovana está profundamente deprimida e eventualmente deixa de responder. Julia, a sobrinha dela, cresce e muda.
Quando Giovana ganha os óculos de realidade virtual, encontra finalmente uma possibilidade de experimentar algo que não existe mais. Ela pode voltar a ver paisagens e se imaginar em outros lugares. E, para Giovana, funciona como fuga, até que a nuvem muda de cor. Durante anos, enquanto Yago se resigna, Giovana vive acreditando que um dia poderá sair. Quando a nuvem finalmente muda de rosa para verde, essa possibilidade deixa de ser abstrata. Ela começa a fazer planos, arruma as malas, pensa no que fará quando sair. Então, a nuvem volta a ser rosa e uma esperança que foi devolvida a ela por alguns minutos, volta a ser retirada.

A partir daí, Giovana mergulha ainda mais na realidade virtual e acho interessante que a tecnologia, que inicialmente parecia uma forma de libertação, passe a funcionar como anestesia. Quando Lino quebra os óculos, não está simplesmente destruindo um objeto, ele destrói o único espaço em que a mãe ainda conseguia escapar. E a reação de Giovana mostra o quanto aquela fuga havia se tornado necessária para ela. O final, portanto, é inevitável: Giovana beija Yago e Lino enquanto eles dormem e vai até a sacada, conta até dez e o filme termina, com uma mulher que chegou ao limite daquilo que conseguia suportar.
Ao mesmo tempo, confesso que foi justamente quando o filme acabou que começaram a surgir algumas ressalvas em relação à história, que até então havia me deixado completamente imersa. Fiquei com aquela sensação de queria saber mais. Seria interessante ver como tantos anos de confinamento produziram consequências ainda mais profundas na construção daquele mundo. O filme escolhe deliberadamente permanecer restrito ao universo doméstico, o que reforça a sensação de claustrofobia, mas também limita um pouco a dimensão da história. Eu gostaria de saber mais sobre o mundo exterior. Como as pessoas se reorganizaram? Como os governos funcionam? Como as crianças que nasceram durante o confinamento enxergam a realidade? O que aconteceu com a cultura? Com o trabalho? Não necessariamente para transformar o filme em uma ficção científica mais convencional, mas porque algumas dessas perguntas surgem naturalmente a partir da própria premissa.
Ainda assim, pela terceira vez: A Nuvem Rosa não é um filme-catástrofe sobre uma epidemia. E eu relevei aquilo que, dentro desse tipo de história, poderia parecer sem sentido. O fato de eu ainda estar impactada por ele anos depois só reforça, para mim, o quanto é um filme realmente bom, principalmente porque sua melhor ideia não está na nuvem rosa, na realidade virtual ou mesmo no confinamento. Está naquela sensação muito mais simples e assustadora de acordar um dia e perceber que a vida que você imaginava que começaria depois já está acontecendo agora.E você está dentro dela.
Nota: 9/10
Ficha técnica
Título: A Nuvem Rosa
Ano: 2021
País: Brasil
Direção: Iuli Gerbase
Roteiro: Iuli Gerbase
Gênero: Ficção científica / Suspense / Drama
Duração: 105 minutos
Elenco: Renata de Lélis, Eduardo Mendonça, Kaya Rodrigues, Helena Becker, Girley Paes e Arthur da Costa Florenzano
Direção de fotografia: Bruno Polidoro
Montagem: Ricardo Largman
Direção de arte: Gabriela Gasparin
Trilha sonora: Breno Silveira
Produção: Amado Arte e Filme
Lançamento: 2021


