Os Cafajestes (1962)
Vavá é um playboy carioca cujo pai está à beira da falência e que parece ter desenvolvido uma relação bastante confortável com a ideia de que tudo pode ser resolvido com dinheiro, chantagem ou algum tipo de violência. Junto de Jandir, ele decide fotografar Leda, amante de seu tio, nua, para usar as imagens como instrumento de chantagem. O plano já é repulsivo desde o começo, mas Os Cafajestes não parece interessado em construir personagens moralmente aceitáveis para depois colocá-los em situações difíceis. Pelo contrário: Ruy Guerra apresenta uma turma de gente profundamente desagradável e deixa que o próprio comportamento deles revele um ambiente em que desejo, dinheiro, sexo, poder e humilhação estão sempre misturados.
A sequência da praia é provavelmente a que melhor resume o filme. Leda é convencida a entrar no mar, enquanto Vavá e Jandir escondem suas roupas e a fotografam correndo nua atrás do carro. A situação tem uma crueldade quase infantil, como se os dois estivessem brincando de fazer maldade sem pensar muito nas consequências. Quando Leda sugere que Vilma, filha de seu antigo amante, pode ser uma vítima ainda melhor para o golpe, eles repetem a estratégia. Só que Vavá começa a demonstrar atração por Vilma e passa a hesitar. Jandir, por outro lado, não parece ter o mesmo limite e parte para a agressão. A diferença entre os dois é interessante justamente porque Vavá não se transforma subitamente em uma pessoa boa: ele continua participando da situação, mas começa a perceber que talvez esteja indo longe demais.
O filme fica ainda mais interessante quando abandona momentaneamente a ação e deixa os personagens simplesmente conversarem. Há algo bastante estranho nesses diálogos, que vão de religião a sexo, dinheiro, família, honestidade e planos para o futuro, como se aquelas pessoas estivessem tentando encontrar algum sentido para suas vidas enquanto fazem coisas absolutamente indefensáveis. É aí que o filme ganha uma dimensão que vai muito além da história de uma chantagem. O título Os Cafajestes não se refere apenas aos dois protagonistas. É quase uma descrição de um mundo inteiro em que os personagens parecem incapazes de estabelecer relações que não envolvam alguma forma de exploração. Até quando tentam falar sobre amor, desejo ou futuro, existe sempre alguma coisa apodrecida por baixo.
Também gosto muito de como Ruy Guerra filma esses personagens. A praia não aparece como um lugar paradisíaco, mas como um espaço quase deserto e hostil, onde os corpos são transformados em objetos e a câmera acompanha situações de desconforto sem tentar torná-las bonitas. A nudez de Leda não é tratada como uma oportunidade para simplesmente erotizar a personagem; ela é parte da violência da situação. Existe uma diferença enorme entre mostrar um corpo e mostrar alguém sendo despido de sua dignidade, e o filme está muito mais interessado na segunda coisa. A câmera participa daquele universo de voyeurismo, mas também parece nos obrigar a perceber o quanto existe de perverso no olhar dos próprios personagens.
A noite torna tudo ainda mais claustrofóbico. Os quatro personagens permanecem juntos, as relações se misturam, os casais são trocados e as conversas ficam cada vez mais existenciais. Jandir tenta se relacionar com Leda, mas a situação é marcada por uma estranheza que impede qualquer romantização. Vavá, enquanto isso, chega ao ponto de apontar um revólver para a própria cabeça e desistir de puxar o gatilho. É uma cena que combina muito com o personagem: até quando tenta desaparecer, ele parece incapaz de tomar uma decisão definitiva. O filme não oferece uma redenção clara para ninguém. As pessoas continuam presas naquele espaço, repetindo seus desejos, suas crueldades e suas frustrações.
E o final é excelente. Depois que o carro finalmente volta a funcionar, Jandir segue dirigindo enquanto um noticiário começa a transmitir informações sobre política internacional, Cuba, os Estados Unidos e ameaças militares. Ele permanece completamente impassível, enquanto o mundo externo fala sobre guerra, poder e violência. Aos poucos, o carro volta a engasgar até parar definitivamente. Jandir desce e começa a caminhar pela estrada, cada vez mais distante do veículo, enquanto a voz do rádio continua sendo ouvida. É uma escolha muito boa porque amplia o filme: aquela pequena história de quatro pessoas miseráveis não está acontecendo em um vácuo. Ela pertence a um mundo igualmente obcecado por poder, violência e dominação. Jandir toma alguns comprimidos, olha para a câmera por alguns segundos e a imagem congela. FIM aparece ao lado dele. É seco, estranho e bastante pessimista.
O que mais me impressionou em Os Cafajestes foi perceber como um filme de 1962 consegue ser tão desagradável sem precisar transformar isso em espetáculo. Não acho que todos os diálogos funcionem da mesma maneira e algumas passagens são deliberadamente lentas, mas existe uma atmosfera muito particular ali. O filme tem uma sujeira moral que permanece até o último minuto, e acho interessante como Ruy Guerra evita oferecer ao espectador uma saída confortável. Ninguém aprende uma grande lição, ninguém se torna uma pessoa melhor e nenhuma relação é realmente consertada. O que sobra é aquele carro parado na estrada, Jandir caminhando sem destino e o rádio falando sobre um mundo que parece tão absurdo quanto os próprios personagens.
Também é um filme que me parece muito mais moderno do que a idade sugere. A relação entre voyeurismo, exposição do corpo, violência e poder poderia facilmente ser transportada para outra época. Hoje, provavelmente, trocaríamos a câmera fotográfica por um celular e a chantagem por alguma forma de exposição na internet, mas a lógica continuaria bastante parecida: alguém transforma a intimidade de outra pessoa em mercadoria e encontra prazer no poder de controlá-la. É justamente por isso que, apesar de ser um filme bastante ligado ao seu momento histórico, Os Cafajestes não me parece datado. Ele continua desconfortável, e acho que esse desconforto é uma das suas maiores qualidades. 9/10.
Título: Os Cafajestes
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1962
Diretor: Ruy Guerra
Duração: 100 minutos
Nota: 9/10


