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Lady Bird (2017)

Lady Bird (2017)

Talvez Lady Bird (2017) não seja objetivamente tão extraordinário quanto eu o considere. Mas também sei que toda crítica traz marcas e preferências de quem a escreve. Se um dia eu escrevesse um roteiro, desconfio que ele teria uma protagonista muito parecida com Christine e conflitos semelhantes. Até as escolhas de trilha sonora, direção de arte e a maneira como Greta Gerwig observa seus personagens parecem conversar diretamente com aquilo que eu gosto de ver no cinema. Talvez seja por isso que seja tão difícil separar o filme de quem eu sou. Desde a primeira vez que assisti a Frances Ha, sinto que existe algo no olhar de Greta Gerwig que dialoga profundamente com o meu. Este texto, portanto, talvez diga tanto sobre Lady Bird quanto sobre a minha admiração por uma cineasta.

Aqui, Greta Gerwig, segue um caminho interessante, ao entender que crescer acontece justamente nos pequenos acontecimentos. Nas conversas cheias de irritação, nos silêncios frente aos sermões da mãe dentro do carro, nas amizades que acabam sem grandes explicações e naquela vontade quase desesperada de acreditar que a felicidade mora sempre em outro lugar.

A primeira vez que assisti ao filme, saí pensando que ele era sobre uma adolescente tentando descobrir quem queria ser. Revendo na última semana, acho que ele fala também sobre aprender a olhar para trás sem desprezar aquilo que nos formou.

Christine McPherson — que insiste em ser chamada de Lady Bird — está terminando o ensino médio em Sacramento e sonha em estudar na costa leste dos Estados Unidos. Ela despreza a cidade onde nasceu, reclama da escola católica, vive brigando com a mãe e acredita que sua verdadeira vida só começará quando conseguir ir embora. É uma personagem que passa boa parte do filme querendo ser outra pessoa. E talvez seja justamente por isso que seja tão fácil se identificar e gostar dela.

Greta Gerwig sabe como escrever adolescentes. Lady Bird é pretensiosa, egoísta, insegura, impulsiva e profundamente contraditória. Em um momento mente para a amiga rica, tentando parecer mais interessante; no outro demonstra uma generosidade inesperada. Às vezes magoa quem mais ama. Em outras, tenta desesperadamente consertar aquilo que estragou.

Ela não parece uma personagem, parece uma pessoa. Assim como Marion. A relação entre mãe e filha ocupa praticamente toda a narrativa e, ainda assim, Greta Gerwig evita qualquer simplificação. Marion poderia facilmente ser apresentada como uma mãe excessivamente controladora, incapaz de compreender a filha. Aos poucos, porém, percebemos que sua dureza nasce muito mais do medo do que da falta de afeto. Laurie Metcalf constrói uma personagem extraordinária. Sua atuação acontece quase sempre através da contenção. Marion raramente verbaliza carinho. Ela demonstra amor organizando contas da casa, procurando roupas em liquidação ou tentando imaginar um futuro financeiramente possível para a família. É um amor pouco cinematográfico, mas verdadeiro.

Existe uma cena dentro do carro, logo no início do filme, que resume perfeitamente essa relação. Depois de ouvirem juntas As Vinhas da Ira em audiolivro e chorarem emocionadas, mãe e filha discutem violentamente segundos depois. Lady Bird abre a porta e se joga do carro em movimento. Ela mostra como o afeto e o conflito conseguem coexistir dentro da mesma relação sem qualquer contradição.

Outro ponto que também me encantou foi a representação de Sacramento, cidade da protagonista. Durante quase toda a narrativa, Lady Bird fala da cidade com desprezo. Tudo lhe parece pequeno e provinciano. Aos poucos, porém, percebemos que a câmera de Greta Gerwig filma Sacramento com enorme generosidade. As ruas, os bairros residenciais, a escola e até os estacionamentos são discretamente belos. É como se o filme enxergasse amor justamente onde sua protagonista ainda não consegue enxergar. O filme utiliza uma fotografia quente e luminosa, sem qualquer excesso de estilização. Greta Gerwig compreende que a memória costuma suavizar aquilo que, no presente, parecia absolutamente insuportável. Sacramento nunca aparece idealizada, mas sempre carregada de uma espécie de nostalgia antecipada.

Também gosto muito de Julie, interpretada por Beanie Feldstein e de como o filme trata a amizade. Enquanto tantos filmes adolescentes transformam amizades femininas em disputas constantes, Lady Bird reconhece que crescer também significa afastar-se temporariamente de pessoas que continuam sendo fundamentais para nossa história. Os relacionamentos amorosos seguem a mesma lógica. Danny e Kyle representam experiências muito diferentes da juventude de Lady Bird, mas nenhum deles existe apenas para cumprir uma função narrativa. Greta Gerwig sabe que os primeiros amores raramente permanecem porque eram perfeitos e sim porque nos ajudam a descobrir alguma coisa sobre nós mesmos.

No fim das contas, Lady Bird não fala apenas sobre deixar a adolescência para trás. Fala sobre reconhecer que nossa identidade também é feita das cidades que criticamos, das pessoas com quem brigamos e das versões de nós mesmos que passamos anos tentando abandonar. Greta Gerwig transforma essa descoberta em um filme delicado, engraçado e profundamente sincero.

Nota: ★★★★☆½ (9/10)


Ficha técnica

Título original: Lady Bird
Título no Brasil: Lady Bird: A Hora de Voar
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Direção e roteiro: Greta Gerwig
Gênero: Comédia dramática / Coming-of-age
Duração: 94 minutos
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein e Lois Smith
Direção de fotografia: Sam Levy
Trilha sonora: Jon Brion
Montagem: Nick Houy
Distribuição: A24