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Saltburn (2023)

Saltburn (2023)

Saltburn (2023)

Saltburn (2023)

Eu tenho uma certa dificuldade com filmes que parecem muito conscientes de que são interessantes. Saltburn é exatamente assim. Ele entra em cena com a mansão, os personagens lindos, ricos e infelizes, a fotografia impecável, a música escolhida para causar impacto e uma sucessão de situações cada vez mais absurdas. Tudo parece cuidadosamente calculado para produzir aquela reação de “meu Deus, eu não acredito que eles fizeram isso”. E fizeram. Muitas vezes. Eu gostei? Gostei. Fiquei chocada? Algumas vezes. Achei tudo isso tão brilhante quanto o filme parece acreditar que é? Não. Para mim, Saltburn é um filme muito bom, muito divertido e visualmente delicioso, mas também um pouco apaixonado demais pela própria capacidade de provocar. No fim, fiquei com um 7/10.

O que mais me interessa no filme é Oliver Quick, porque acho que ele representa uma espécie de obsessão que vai muito além da ambição social. Ele não quer apenas ser rico. Ele não quer apenas ser bonito, popular ou desejado. Ele quer entrar naquele universo. Quer ser aceito por aquelas pessoas, quer compreender como elas funcionam e, principalmente, quer ter aquilo que elas têm com uma naturalidade que provavelmente o incomoda profundamente. Felix não precisa fazer absolutamente nada para ser fascinante. Ele simplesmente existe e as pessoas gostam dele. Oliver, ao contrário, precisa construir uma personalidade inteira para conseguir permanecer ao lado dele. E é justamente essa diferença que torna a relação entre os dois tão interessante.

Felix é aquele tipo de pessoa que provavelmente me irritaria na vida real, mas que eu também entenderia perfeitamente por que todo mundo quer ter por perto. Ele é bonito, rico, carismático e aparentemente generoso. Não precisa se esforçar para ser o centro de uma sala. Oliver observa tudo isso com uma atenção quase assustadora. E o que eu gosto na atuação de Barry Keoghan é que ele consegue fazer com que Oliver pareça, ao mesmo tempo, genuinamente encantado e profundamente calculista. Às vezes eu não sabia se ele queria beijar Felix ou ser Felix. E acho que essa dúvida é muito mais interessante do que simplesmente dizer que Oliver estava apaixonado por ele.

Quando ele chega a Saltburn, a família Catton parece saída de uma caricatura de aristocracia inglesa. E aqui está uma das coisas que mais me divertem no filme: aquelas pessoas são tão absurdamente ricas que parecem ter perdido completamente a capacidade de perceber o ridículo de suas próprias vidas. Elspeth fala sobre tragédias como quem comenta a decoração de uma festa. James tem aquela expressão permanente de quem acabou de descobrir que alguém da classe trabalhadora entrou na sala. Venetia está constantemente à beira de um colapso emocional, mas continua andando pela casa como se estivesse em um editorial de moda. E Farleigh, que é provavelmente o único que entende minimamente o jogo social que está acontecendo, percebe imediatamente que Oliver não está ali apenas para passar as férias.

Rosamund Pike é maravilhosa como Elspeth porque consegue fazer uma personagem completamente insuportável ser engraçada sem precisar transformá-la em uma caricatura completa. Ela tem aquele tipo de crueldade que não nasce exatamente da maldade, mas da incapacidade de imaginar que outras pessoas possam existir de maneira diferente da sua. É uma personagem que consegue falar sobre sofrimento alheio e, em poucos segundos, transformar a conversa em alguma coisa sobre si mesma. E o filme sabe que isso é engraçado. Aliás, Saltburn sabe muito bem quando quer ser engraçado. Talvez seja uma das coisas que mais gosto nele: mesmo quando está sendo grotesco, existe uma certa leveza perversa.

Mas também acho que o filme exagera um pouco na própria necessidade de ser chocante. Em determinado momento, comecei a ter a sensação de que Fennell estava colocando uma cena atrás da outra pensando: “essa aqui vai fazer as pessoas falarem”. E, infelizmente, funcionou. Eu mesma estou aqui falando sobre elas. A cena do ralo, a banheira, o cemitério, o final… Saltburn constrói algumas imagens que são difíceis de esquecer. Mas uma imagem inesquecível não é necessariamente uma grande ideia. Às vezes é apenas uma imagem inesquecível.

E isso é o que me impede de dar uma nota maior. Eu gosto de filmes que provocam, mas gosto ainda mais quando a provocação parece nascer organicamente da história. Em Saltburn, algumas vezes senti que a história estava sendo construída para chegar à próxima cena que causaria uma reação. O filme parece saber que vai virar assunto nas redes sociais e, em alguns momentos, quase dá para sentir a piscadinha para o espectador. É como se ele dissesse: “espera só até você ver o que vem agora”. Eu acho divertido, mas não necessariamente profundo.

Por outro lado, visualmente, tenho muito pouco a reclamar. A mansão é maravilhosa. É aquele tipo de cenário que imediatamente me faz entender por que alguém poderia ficar completamente obcecado por ele. Fennell filma Saltburn como um lugar de sonho, mas um sonho bastante desagradável. Os corredores parecem intermináveis, os quartos são grandes demais, os jardins parecem esconder alguma coisa e existe sempre a sensação de que estamos olhando para um espaço onde alguma coisa terrível pode acontecer a qualquer momento. A casa vai deixando de ser apenas o lugar onde a família mora e passa a representar aquilo que Oliver deseja possuir.

Também gosto muito da maneira como o filme utiliza os corpos dentro desses espaços. Quase todo mundo em Saltburn parece estar performando alguma coisa. Eles performam riqueza, sensualidade, indiferença, inteligência, poder. Oliver talvez seja apenas a pessoa que leva essa performance às últimas consequências. Ele observa os outros e aprende a fazer exatamente o que precisa para conseguir alguma coisa deles. Nesse sentido, ele é talvez o personagem mais parecido com aquela família. A diferença é que eles nasceram dentro do teatro e ele precisou aprender a atuar.

A questão da classe social é, para mim, o tema mais interessante do filme, embora também seja justamente onde ele se torna mais óbvio. Oliver entra naquele universo como alguém de fora e passa a estudar seus habitantes como se estivesse fazendo uma pesquisa. Ele descobre que a riqueza não torna aquelas pessoas necessariamente mais inteligentes, mais interessantes ou mais felizes. Na verdade, muitas vezes acontece o contrário. Elas são tão protegidas das consequências de seus atos que desenvolveram uma espécie de inocência moral bastante assustadora.

E aí existe uma ironia que considero ótima: Oliver passa boa parte do filme acreditando que os Catton têm alguma coisa que ele não tem. No final, ele consegue destruir a família inteira e ficar com aquilo que desejava. Mas não tenho certeza de que isso seja uma vitória. Porque, depois de tudo, o que ele tem? Uma casa vazia. Uma fortuna. Um monte de quartos enormes. Nenhuma das pessoas que ele passou o filme inteiro tentando impressionar. É uma conquista que parece quase uma piada.

A última cena, com Oliver dançando nu pela mansão, é provavelmente a imagem mais famosa do filme e também aquela que melhor resume sua proposta. É ridícula, exagerada e, ao mesmo tempo, perfeita. Ele finalmente não precisa mais fingir. Não precisa ser o garoto pobre, o amigo tímido, o estudante deslocado ou o rapaz apaixonado. Não precisa agradar ninguém. A casa é dele. E ele pode correr nu pelos corredores porque não existe mais ninguém para julgá-lo.

É uma imagem de triunfo, mas eu também enxergo nela alguma coisa bastante triste. Oliver passou tanto tempo querendo entrar naquela casa que parece não ter percebido que, quando finalmente conseguiu, não havia mais ninguém lá dentro. E talvez essa seja a parte de Saltburn que mais me interessa: o desejo de pertencer pode ser tão poderoso que, depois de algum tempo, já não importa mais pertencer a quê.

Também gosto de que o filme não tente transformar Oliver em uma espécie de justiceiro social. Ele não destrói os Catton porque quer corrigir uma injustiça. Ele não quer redistribuir riqueza. Ele não tem um projeto político. Ele simplesmente quer aquela vida. E isso torna tudo muito mais desagradável. Não existe uma grande causa por trás de suas ações. Existe desejo. Talvez até inveja. E acho muito mais interessante quando um personagem é motivado por sentimentos mesquinhos do que quando o roteiro tenta justificar suas ações com uma grande questão moral.

O problema é que o filme acaba explicando demais. A revelação de que Oliver planejou praticamente tudo desde o primeiro encontro com Felix é satisfatória, mas também diminui um pouco o personagem para mim. Eu gostava mais da ideia de que ele fosse alguém oportunista, que percebesse as fragilidades daquela família e fosse se aproveitando delas conforme surgiam as oportunidades. Quando descobrimos que tudo foi planejado, desde a bicicleta de Felix até as mortes, sinto que o filme fecha uma porta que poderia permanecer aberta. A ambiguidade me interessava mais do que a explicação.

Ainda assim, é impossível negar que Emerald Fennell sabe fazer cinema. Saltburn tem personalidade visual, tem ritmo, tem humor, tem excelentes atuações e, principalmente, tem imagens que ficam na cabeça. Talvez eu esteja sendo um pouco injusta com ele por esperar que por trás de toda aquela extravagância houvesse uma crítica social mais complexa. Mas, para mim, existe uma diferença entre um filme ser provocador e ser realmente subversivo. Saltburn é muito provocador. Não sei se é tão subversivo quanto gostaria de ser.

No final, acho que minha relação com o filme se resume a isso: eu me diverti muito assistindo, gostei de pensar sobre ele depois e provavelmente vou lembrar de algumas de suas cenas por bastante tempo. Mas não consigo deixar de sentir que existe uma distância entre a inteligência que Saltburn demonstra ter e a inteligência que ele acredita que o espectador precisa reconhecer o tempo inteiro. Ele é um filme sobre pessoas que querem desesperadamente alguma coisa e fazem coisas terríveis para consegui-la. E talvez seja também um filme feito por alguém que quer desesperadamente que nós achemos tudo aquilo genial.

Eu achei muito bom. Só não achei genial.

Nota: 7/10

Ficha técnica

Título: Saltburn
País: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: Suspense / Comédia ácida
Ano: 2023
Direção: Emerald Fennell
Roteiro: Emerald Fennell
Duração: 131 minutos
Elenco: Barry Keoghan, Jacob Elordi, Rosamund Pike, Richard E. Grant, Alison Oliver, Archie Madekwe, Carey Mulligan
Fotografia: Linus Sandgren
Montagem: Victoria Boydell
Música: Anthony Willis
Produção: LuckyChap Entertainment, Metro-Goldwyn-Mayer
Distribuição: Warner Bros. Pictures