Um Pequeno Favor (2018)
Há filmes que eu gosto porque são grandes experiências cinematográficas, e há filmes que simplesmente me divertem muito. Um Pequeno Favor pertence definitivamente à segunda categoria, e não vejo isso como um elogio menor. Pelo contrário: acho bastante difícil fazer um suspense que consiga ser simultaneamente engraçado, absurdo, estiloso e genuinamente envolvente sem que uma dessas características acabe anulando as outras. Paul Feig consegue equilibrar tudo isso com uma segurança que talvez seja justamente a maior qualidade do filme. É uma história cheia de reviravoltas, identidades falsas, assassinatos, golpes, relações extraconjugais e segredos familiares tão absurdos que, se eu parasse para pensar demais na plausibilidade de cada acontecimento, provavelmente começaria a encontrar problemas. Mas Um Pequeno Favor não me pede esse tipo de compromisso. Ele quer que eu embarque na brincadeira, aceite suas mudanças de tom e acompanhe Stephanie e Emily até onde quer que aquela história vá.
A primeira coisa que me chama atenção é justamente a maneira como o filme apresenta suas duas protagonistas como opostos quase perfeitos. Stephanie, interpretada por Anna Kendrick, é uma mãe extremamente dedicada, organizada e aparentemente incapaz de dizer não a qualquer demanda relacionada ao filho. Ela administra um canal no YouTube, participa das atividades da escola, prepara receitas, conhece outros pais e parece estar sempre tentando ser útil. Emily, vivida por Blake Lively, é exatamente o contrário: sofisticada, segura, sexualmente confiante, misteriosa e aparentemente indiferente às convenções sociais que Stephanie segue tão religiosamente. A amizade entre as duas funciona porque existe uma espécie de fascinação mútua. Stephanie olha para Emily como alguém que possui tudo aquilo que ela não tem — confiança, elegância, dinheiro, liberdade — enquanto Emily parece se divertir com a ingenuidade e a disponibilidade de Stephanie. Desde o início, porém, fica claro que existe alguma coisa estranha naquela relação.
Gosto particularmente de como Paul Feig constrói essa diferença através da direção de arte e dos figurinos. Emily praticamente domina cada ambiente em que entra. Seus ternos, seus vestidos e principalmente sua postura fazem dela uma personagem que parece estar sempre consciente de como está sendo observada. Stephanie, por outro lado, é inicialmente apresentada através de roupas mais coloridas e uma aparência mais convencional, quase como se ainda estivesse tentando descobrir qual papel pretende desempenhar depois da morte do marido. O contraste não é apenas visual: ele organiza a própria narrativa. Stephanie representa uma ideia mais tradicional de feminilidade e maternidade, enquanto Emily parece ter construído uma identidade justamente a partir da recusa dessas expectativas.
Por isso, quando Emily desaparece depois de pedir a Stephanie aquele pequeno favor de buscar seu filho na escola, o filme começa a brincar com a transformação de sua protagonista. Stephanie inicialmente parece apenas uma amiga preocupada, mas aos poucos passa a investigar o desaparecimento, vasculhar pistas e se envolver cada vez mais com a vida de Emily. E é interessante perceber que a investigação também funciona como uma espécie de libertação. Quanto mais Stephanie entra no mundo de Emily, mais ela abandona aquela postura excessivamente certinha que tinha no começo. Ela começa a mentir, manipular, investigar pessoas e, eventualmente, se envolve com Sean, marido da amiga desaparecida.
Essa relação com Sean é uma das partes mais deliciosamente moralmente questionáveis do filme. A mulher desaparecida mal esfriou, e Stephanie já está ocupando seu lugar dentro daquela casa. Ela cozinha, cuida das crianças, reorganiza as coisas e começa a se relacionar com o marido. Existe algo quase caricaturalmente absurdo nessa situação, e o filme sabe disso. Em vez de transformar Stephanie em uma protagonista completamente virtuosa, Um Pequeno Favor deixa que ela seja ambiciosa, curiosa e até oportunista. Ela não é exatamente uma detetive amadora que busca justiça; existe também uma parte dela que parece gostar da vida que encontrou depois do desaparecimento de Emily.
É justamente essa ambiguidade que torna Anna Kendrick tão adequada ao papel. Stephanie poderia facilmente se tornar irritante, mas Kendrick encontra um equilíbrio muito bom entre ingenuidade, entusiasmo e uma espécie de malícia que vai crescendo ao longo da história. Ela é uma personagem que parece estar constantemente interpretando a si mesma. O canal no YouTube reforça isso: Stephanie transforma a própria vida em conteúdo, inclusive o desaparecimento da amiga. Ela registra informações, comenta o caso e acompanha a investigação diante de uma audiência. A câmera está sempre presente, e isso faz com que a própria Stephanie pareça saber que está vivendo uma história que pode ser contada.
Blake Lively, por outro lado, parece estar se divertindo muito com Emily. E é impossível não entender por quê. A personagem é exagerada, teatral e construída para roubar a cena. Emily é uma daquelas figuras que parecem saber muito mais do que dizem e que conseguem transformar uma conversa banal em uma ameaça. Ela não precisa levantar a voz para dominar um ambiente. Sua presença já produz desconforto. E quando descobrimos que ela nem sequer é Emily, mas Faith, e que existe uma irmã gêmea chamada Hope, o filme abraça de vez a lógica do thriller novelesco.
A partir daí, Um Pequeno Favor deixa de tentar ser um suspense particularmente realista e assume completamente sua vocação de entretenimento. Identidades falsas, irmãs gêmeas, incêndios criminosos, golpes, assassinatos e uma infância marcada por abuso entram na história em uma velocidade impressionante. É muita coisa. Talvez até coisa demais. Mas existe uma espécie de prazer justamente nesse excesso. O filme parece dizer que já que começamos uma história absurda, podemos muito bem continuar aumentando o absurdo.
O problema é que algumas dessas reviravoltas funcionam melhor do que outras. A história das irmãs Faith e Hope é interessante como explicação para o comportamento de Emily, mas acho que o filme poderia ter desenvolvido melhor esse passado. O trauma familiar aparece principalmente como uma justificativa para a construção da personagem, e não como algo que realmente precise ser explorado. O mesmo acontece com alguns dos segredos de Stephanie. A revelação de seu relacionamento incestuoso com o meio-irmão é tão absurda e inesperada que parece ter sido criada principalmente para mostrar que, por trás daquela aparência de mãe perfeita, existe também uma mulher com um passado muito mais sombrio.
E talvez seja justamente essa a brincadeira central do filme: ninguém é exatamente aquilo que parece.
Stephanie não é apenas a mãe perfeita.
Emily não é Emily.
Sean não é o marido apaixonado que parece ser.
O casal rico não é tão rico.
A amizade não é exatamente uma amizade.
A morte não é exatamente uma morte.
Até a própria narrativa está constantemente mentindo para nós.
Esse jogo de aparências funciona muito bem porque Um Pequeno Favor está profundamente interessado em performances sociais. Quase todos os personagens estão representando alguma versão de si mesmos. Emily construiu uma identidade inteira. Stephanie construiu uma persona pública de mãe perfeita. Sean tenta manter a imagem de professor e escritor respeitado enquanto enfrenta dificuldades financeiras. E o subúrbio, com suas casas bonitas e suas famílias aparentemente organizadas, vira o cenário ideal para esse desfile de mentiras.
É por isso que considero especialmente interessante a presença do YouTube na história. Stephanie não apenas observa os acontecimentos; ela os transforma em narrativa. Ela pega um desaparecimento real e o transforma em conteúdo, conquistando seguidores e reconhecimento. E, no final, utiliza justamente essa audiência para capturar Emily. O dispositivo que inicialmente parecia representar sua necessidade de atenção acaba se tornando sua principal ferramenta de investigação e poder.
O final, com Stephanie transmitindo a confissão de Emily ao vivo, é tão exagerado que chega a ser perfeito para o tom do filme. Ela transforma o confronto final em espetáculo e, de certa maneira, derrota Emily utilizando a mesma lógica de manipulação que a antagonista utilizou durante toda a história. A diferença é que Stephanie aprendeu a controlar a própria narrativa. Ela não é mais aquela mulher que ficava à margem das relações sociais observando Emily com admiração. Agora é ela quem está dirigindo a cena.
Também gosto muito de como o filme não transforma a prisão de Emily em uma punição completamente convencional. No final, ela continua manipulando as pessoas e parece perfeitamente adaptada à vida atrás das grades. Isso combina com a personagem porque Emily nunca foi exatamente alguém que dependia da liberdade física para exercer poder. Ela manipula pessoas. E uma prisão não necessariamente elimina essa capacidade.
Ao mesmo tempo, acho que Um Pequeno Favor perde um pouco de força justamente por não levar algumas de suas ideias tão longe quanto poderia. Existe uma crítica interessante à maneira como as pessoas constroem versões idealizadas de si mesmas, especialmente através das redes sociais e da aparência de perfeição das famílias suburbanas, mas o filme prefere a diversão à investigação mais profunda dessas questões. Não considero isso necessariamente um defeito, porque a proposta nunca parece ter sido fazer uma análise social particularmente rigorosa. Mas é uma daquelas situações em que consigo enxergar um filme ainda mais interessante escondido dentro do filme que assisti.
Ainda assim, eu me divirto demais com essa mistura de suspense, comédia e melodrama. Um Pequeno Favor tem uma energia muito particular e uma estética bastante consciente de seu próprio exagero. Ele sabe que suas personagens são caricaturas, sabe que suas reviravoltas são absurdas e sabe que algumas situações beiram o ridículo. Em vez de tentar esconder isso, transforma o exagero em parte do prazer de assistir.
E talvez essa seja a melhor maneira de entrar no filme: não esperando um suspense realista, mas uma espécie de novela criminal extremamente bem vestida. Uma história em que mulheres sofisticadas escondem cadáveres, mães fazem investigações pelo YouTube, maridos mentem, irmãs gêmeas trocam de identidade e todo mundo parece saber alguma coisa que o espectador ainda não sabe. A fotografia elegante e os figurinos impecáveis ajudam a manter tudo dentro de uma atmosfera de luxo, enquanto o roteiro vai acumulando absurdos até chegar a um desfecho que parece inevitavelmente maior do que tudo o que veio antes.
No fim, Um Pequeno Favor é exatamente o tipo de filme que me faz pensar que entretenimento não precisa ser uma palavra pejorativa. Não saí dele impressionada com uma grande reflexão sobre a natureza humana, nem acho que seja um suspense particularmente sofisticado. Mas passei duas horas querendo descobrir qual seria a próxima mentira, a próxima revelação e a próxima mudança de rumo. E isso, para mim, já é uma qualidade bastante considerável.
Gosto de filmes que sabem o que querem ser. Um Pequeno Favor quer ser divertido, elegante, absurdo e um pouco perverso. E consegue.
Nota: 8/10
Ficha técnica
Título: Um Pequeno Favor (A Simple Favor)
Ano: 2018
País: Estados Unidos
Direção: Paul Feig
Roteiro: Jessica Sharzer
Gênero: Suspense / Comédia / Mistério
Duração: 117 minutos
Elenco: Anna Kendrick, Blake Lively, Henry Golding, Andrew Rannells, Linda Cardellini e Jean Smart
Direção de fotografia: John Schwartzman
Montagem: Brent White
Música: Theodore Shapiro
Baseado no livro: A Simple Favor, de Darcey Bell


