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Pearl (2022)

Pearl (2022)

Pearl começa como se fosse uma versão perturbadora de um filme da Disney. Há uma fazenda isolada, uma jovem sonhando em escapar para uma vida de glamour, figurinos coloridos, animais, música, dança e uma fotografia tão exageradamente bonita que quase parece mentira. Só que, aos poucos, aquela fantasia vai apodrecendo diante dos nossos olhos. E acho que é justamente aí que o filme encontra sua força: Ti West pega a imagem clássica da garota que quer ser estrela e pergunta o que acontece quando alguém deseja desesperadamente ser especial, mas descobre que talvez não tenha absolutamente nada de especial para oferecer ao mundo.

Pearl vive em uma fazenda no Texas, em 1918, enquanto o marido está na guerra. Ela cuida do pai, que está paralisado e praticamente incapaz de se comunicar, e vive sob o controle da mãe, Ruth, uma mulher rígida, religiosa e profundamente amarga. A rotina de Pearl é miserável. Ela alimenta os animais, cuida da casa, dança sozinha, assiste a filmes e imagina que existe uma vida maravilhosa esperando por ela em algum lugar. A única coisa que parece manter Pearl funcionando é a certeza de que aquela não pode ser sua vida definitiva.

E é muito fácil entender a personagem antes de começar a julgá-la. Pearl quer sair. Quer conhecer o mundo. Quer dançar. Quer ser vista. Quer ser desejada. Quer ser alguém. O problema é que o filme vai mostrando, aos poucos, que esse desejo não é apenas uma ambição inocente. Pearl não quer simplesmente uma vida melhor. Ela quer ser a protagonista. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A relação dela com a mãe é particularmente cruel porque as duas parecem presas em um ciclo de ressentimento. Ruth olha para Pearl como uma filha ingrata, egoísta e pecadora. Pearl olha para Ruth como alguém que está impedindo sua felicidade. Nenhuma das duas parece capaz de imaginar a vida da outra. E o pai, completamente imóvel, funciona quase como uma testemunha silenciosa daquela casa apodrecendo.

A fazenda é, portanto, uma espécie de prisão, mas uma prisão bastante curiosa porque Pearl também contribui ativamente para mantê-la. Ela poderia fugir? Talvez. Poderia aceitar que sua vida não será exatamente como nos filmes? Não. Ela prefere acreditar que o destino está reservando algo grandioso para ela.

E então aparece a oportunidade.

Pearl descobre que haverá uma audição para um grupo de dança e passa a enxergar aquilo como sua grande chance. Ela se prepara, ensaia e começa a imaginar uma vida completamente diferente. O filme não precisa explicar muito sobre o mecanismo psicológico dela porque Mia Goth faz praticamente tudo sozinha. Pearl é uma personagem que parece estar sempre a um segundo de explodir. Ela sorri demais, dança demais, fala demais, olha demais. Há uma energia desconfortável em praticamente todas as cenas, como se a felicidade dela fosse sempre um pouco mais intensa do que deveria.

E é impossível falar de Pearl sem falar de Mia Goth.

A atuação dela é simplesmente absurda. Não é apenas porque ela interpreta uma personagem que enlouquece. O mais impressionante é que Goth consegue fazer Pearl parecer genuinamente infantil, carente, engraçada, sedutora, patética e aterrorizante, às vezes dentro da mesma cena. A personagem não é apresentada como um monstro desde o começo. E isso é essencial. Se Pearl fosse simplesmente uma psicopata desde o primeiro minuto, o filme seria muito menos interessante.

O que vemos é uma pessoa que vai sendo esmagada pela distância entre aquilo que imagina ser e aquilo que o mundo oferece.

Ela tem uma visão extremamente cinematográfica da própria vida. Quando dança, não está apenas dançando. Ela está imaginando a câmera. Quando se olha no espelho, não está apenas se vendo. Está ensaiando uma versão de si mesma que gostaria que existisse. Quando assiste aos filmes, não está apenas se divertindo. Está aprendendo como uma vida deveria parecer.

E essa é uma das coisas que mais gosto no filme: Pearl é tão obcecada pelo cinema que começa a transformar a própria existência em uma performance.

Ela quer ser a mocinha, mas o filme já sabe que ela será a vilã.

Isso ganha uma dimensão ainda mais interessante por causa da estética. Pearl é um filme de terror, mas parece uma fantasia em Technicolor. As cores são intensas, os cenários têm uma artificialidade deliberada e a trilha sonora frequentemente transforma situações terríveis em momentos quase encantadores. A fotografia faz com que a fazenda pareça bonita mesmo quando estamos assistindo a coisas horríveis.

É quase uma piada visual.

Quanto mais colorido o filme fica, mais Pearl se deteriora.

E isso cria uma sensação muito estranha: às vezes eu estava assistindo a uma cena completamente perturbadora e, ao mesmo tempo, pensando em como ela era bonita. Acho que esse contraste é uma das melhores escolhas de Ti West. Ele não quer que o horror pareça feio. Ele quer que o horror pareça sedutor.

Isso combina perfeitamente com a personagem porque Pearl também é sedutora. Ela não é assustadora porque parece monstruosa. Ela é assustadora porque, por alguns minutos, conseguimos entender por que alguém poderia gostar dela.

A amizade com a projeccionista, por exemplo, introduz uma possibilidade real de fuga. Ela conhece alguém que parece compreender sua paixão pelo cinema e que lhe oferece uma espécie de contato com o mundo exterior. Pearl se aproxima dela porque precisa desesperadamente de alguém que valide a fantasia que criou para si mesma. Quando percebe que talvez essa pessoa também tenha seus próprios desejos e limitações, a relação começa a desmoronar.

E aí está outra característica terrível da personagem: Pearl não suporta que as pessoas existam fora da função que ela atribuiu a elas.

A mãe deve ser a vilã que a impede de ser feliz. A projeccionista deve ser a amiga que acredita nela. O marido deve voltar para casa e transformar sua vida. O público da audição deve reconhecer imediatamente seu talento. Quando essas pessoas não correspondem ao papel que Pearl imaginou, ela não consegue simplesmente aceitar a frustração. Ela sente que foi traída.

É como se o mundo inteiro estivesse conspirando contra o roteiro que ela escreveu para si mesma.

A cena da audição é particularmente dolorosa por isso. Pearl chega acreditando que finalmente terá a oportunidade de provar quem é. Ela dança, se apresenta e espera ser escolhida. Mas a resposta que recebe não corresponde à fantasia. Ela não é a estrela. Não é especial. Não é a escolhida.

E a reação dela é devastadora porque não é simplesmente tristeza. É humilhação.

Pearl não consegue suportar a ideia de ser uma pessoa comum.

Talvez seja esse o aspecto mais cruel do filme. Existe algo muito reconhecível nessa necessidade de ser visto, especialmente em uma cultura que transforma sucesso em prova de valor pessoal. Pearl apenas leva isso até um extremo monstruoso. Ela não consegue aceitar que talvez seja apenas uma mulher insatisfeita vivendo em uma fazenda. Para ela, isso é quase uma sentença de morte.

E, de certa maneira, é.

O filme vai acumulando assassinatos e atrocidades, mas não os trata apenas como momentos de choque. Cada morte parece representar uma porta que Pearl fecha atrás de si. Quanto mais pessoas ela mata, menos possibilidades existem de voltar àquela vida anterior.

Quando chega ao confronto com a mãe, já não existe praticamente nenhuma relação possível entre as duas. Ruth revela o quanto está decepcionada com a filha e Pearl finalmente explode. O incêndio transforma a própria casa em uma espécie de purgatório. E a partir daí Pearl já não precisa mais fingir que é a garota inocente que sonha com uma vida melhor.

Ela finalmente se torna aquilo que estava escondido sob a fantasia.

O mais perturbador é que Pearl não parece sentir exatamente culpa. Ela sente frustração. Sente raiva. Sente abandono. Sente que o mundo lhe deve alguma coisa. E isso torna a personagem muito mais interessante do que uma assassina simplesmente cruel.

Ela não pensa: “Eu sou uma pessoa má.”

Ela pensa: “Por que ninguém percebe que eu mereço mais?”

É uma diferença enorme.

E então chega o final, que para mim é uma das coisas mais brilhantes do filme.

Pearl prepara um jantar para o marido, Howard, que finalmente retorna da guerra. A mesa está posta. A casa foi organizada. Ela se senta e começa a conversar com ele como se tudo estivesse perfeitamente normal. E nós sabemos que absolutamente nada está normal.

A câmera permanece nela durante aquele longo sorriso.

E Mia Goth simplesmente não abandona a expressão.

É uma cena desconfortável justamente porque Pearl parece estar tentando desesperadamente convencer a si mesma de que conseguiu. Ela tem o marido de volta. Tem uma casa. Tem uma família. Pode fingir que sua vida é normal.

Mas atrás dela está o resultado de tudo o que aconteceu.

A imagem é grotesca e, ao mesmo tempo, quase cômica.

E esse equilíbrio entre horror e humor é uma das coisas que fazem Pearl funcionar tão bem para mim. O filme não tem vergonha de ser exagerado. Ele entende que existe algo ridículo em uma pessoa que leva a própria fantasia de protagonismo tão a sério. Pearl é trágica, mas também é absurdamente patética. Ela quer desesperadamente que a vida seja um filme e, no processo, transforma tudo em uma caricatura sangrenta de si mesma.

Também acho muito interessante a maneira como o filme conversa com X. Em X, Pearl aparece como uma mulher idosa, amarga e brutal. Aqui, Ti West faz algo muito mais difícil do que simplesmente explicar sua origem: ele nos faz compreender como aquela mulher chegou até ali.

E o mais curioso é que, depois de Pearl, a personagem de X deixa de parecer apenas uma vilã excêntrica. Ela passa a carregar toda a frustração de uma mulher que passou a vida olhando para aquilo que poderia ter sido. A juventude, o desejo, a beleza, a sexualidade, a fama. Tudo aquilo que Pearl queria e que nunca conseguiu.

Por isso acho que o filme funciona muito bem mesmo isoladamente. Não é apenas uma prequela feita para explicar uma personagem secundária. É um filme que pega a origem de uma assassina e transforma essa origem em uma tragédia sobre ambição, repressão, frustração e a necessidade desesperada de ser especial. A própria A24 o apresenta como uma história de origem ambientada nesse universo, destacando justamente o choque entre as ambições de Pearl e a vida sufocante na fazenda.

E talvez o que mais me impressione seja o fato de que Pearl consegue ser muito divertido de assistir. Há cenas genuinamente engraçadas no meio do horror, não porque o filme transforme tudo em comédia, mas porque Pearl é uma personagem tão exagerada que às vezes fica impossível não rir dela. A atuação de Mia Goth também entende perfeitamente esse tom. Ela pode estar chorando, gritando, sorrindo ou fazendo uma dança absolutamente ridícula e, ainda assim, a cena continua funcionando.

A famosa sequência do monólogo final é o melhor exemplo disso. É longa, desconfortável e emocionalmente exaustiva. Pearl praticamente desmonta diante da câmera, falando sobre seus desejos, seus fracassos e aquilo que acredita que lhe foi negado. E Goth sustenta a cena inteira sem precisar de grandes movimentos ou cortes para esconder a atuação. É um daqueles momentos em que o ator parece estar realmente se colocando em risco diante da câmera.

No final, o que fica é uma personagem que queria ser protagonista e acabou se tornando vilã. E talvez essa seja a piada mais cruel de todas: Pearl consegue finalmente se tornar inesquecível. Só não da maneira como gostaria.

Ela queria uma vida de cinema. Conseguiu.

Só que o filme que ela protagoniza é um terror.

E, sinceramente, acho isso maravilhoso.

Nota: 10/10

Título: Pearl
País: Estados Unidos
Gênero: Terror, suspense, comédia
Ano: 2022
Diretor: Ti West
Roteiro: Ti West e Mia Goth
Duração: 102 minutos