MaXXXine (2024)
Depois de X e Pearl, Ti West encerra a trilogia com MaXXXine, levando sua protagonista para a Los Angeles de 1985, no auge da cultura dos videoclipes, do cinema de terror e da pornografia. Maxine Minx sobreviveu aos acontecimentos de X e agora está decidida a deixar o passado para trás. Ela quer ser uma estrela de cinema de verdade, não apenas mais uma atriz de filmes adultos. O problema é que Los Angeles é justamente o tipo de lugar em que todo mundo está disposto a vender uma fantasia de sucesso, mas quase ninguém está disposto a admitir o preço cobrado por ela.
Maxine consegue uma oportunidade em um filme de terror dirigido por Elizabeth Bender, uma cineasta que pretende transformar o gênero em algo mais sofisticado e artístico. Ao mesmo tempo, uma série de assassinatos cometidos por um criminoso conhecido como Night Stalker começa a aterrorizar a cidade. Maxine passa a ser perseguida por um investigador particular misterioso, enquanto pessoas relacionadas à sua vida começam a morrer. O passado que ela tanto queria esconder parece estar voltando para cobrar alguma coisa.
A premissa é ótima. O problema é que, para mim, MaXXXine nunca consegue ser tão interessante quanto a ideia de MaXXXine.
A personagem já era fascinante em X. Ela tinha aquela combinação de ambição, pragmatismo e brutalidade que fazia dela uma protagonista diferente dentro do terror. Em Pearl, Ti West foi ainda mais longe ao mostrar o que existe por trás da necessidade desesperada de ser vista. Em MaXXXine, a proposta parece ser transformar essa personagem em uma espécie de heroína noir dos anos 80, atravessando uma Los Angeles decadente cheia de assassinos, produtores inescrupulosos, policiais, atores, cineastas e pessoas suspeitas demais para serem confiáveis.
E eu gosto bastante dessa ideia. O problema é que o filme parece mais interessado em parecer um filme dos anos 80 do que em construir uma história realmente boa dentro desse universo.
Visualmente, porém, é muito fácil comprar a proposta. Ti West transforma Los Angeles em um grande cenário de neon, sujeira, letreiros luminosos, estúdios decadentes e salas de cinema. Há uma obsessão evidente pela estética da época, e Mia Goth combina perfeitamente com ela. Maxine parece ter saído diretamente de uma capa de revista ou de um videoclipe, sempre com roupas, maquiagem e penteados que reforçam a imagem de uma mulher tentando construir uma persona.
E essa é uma das coisas que mais gosto na trilogia: as protagonistas nunca estão apenas vivendo. Elas estão performando quem gostariam de ser.
Pearl queria ser uma estrela. Maxine já sabe que quer ser uma estrela e está disposta a fazer praticamente qualquer coisa para chegar lá. A diferença é que Maxine não parece mais interessada em pedir permissão. Ela sabe o que quer e, quando alguém tenta atravessar seu caminho, sua reação costuma ser bastante simples: eliminar o problema.
Isso poderia fazer dela uma personagem completamente desagradável, mas Mia Goth tem uma presença tão forte que é impossível não torcer um pouco por ela. Maxine é arrogante, agressiva, egoísta e muitas vezes parece ter prazer em intimidar os outros. Mas existe alguma coisa muito divertida em assistir a uma mulher que simplesmente se recusa a ser vítima.
O problema é que o roteiro não parece saber exatamente o que fazer com essa personagem.
Em X, Maxine estava tentando escapar de uma vida que considerava pequena. Em Pearl, vimos a origem desse desejo. Em MaXXXine, ela já conseguiu construir uma identidade. A questão deveria ser: o que acontece quando uma pessoa consegue aquilo que sempre quis e descobre que ainda não está satisfeita?
Mas o filme acaba desviando boa parte da atenção para a investigação dos assassinatos.
E o mistério simplesmente não me interessou tanto quanto deveria.
A estrutura de thriller funciona, mas a investigação parece existir principalmente para permitir que Ti West coloque seus personagens em cenários interessantes. Há uma sucessão de mortes, pistas e suspeitos, mas a sensação é de que o filme está muito mais preocupado com a atmosfera do que com o suspense. Eu até gosto da ideia de misturar o Night Stalker real com uma história fictícia sobre uma atriz de filmes adultos tentando entrar em Hollywood, mas a trama criminal nunca alcança a mesma força visual da ambientação.
Isso fica ainda mais evidente porque o filme tem uma quantidade enorme de personagens interessantes que poderiam render muito mais. Elizabeth Bender, interpretada por Elizabeth Debicki, é uma diretora tentando fazer um filme de terror considerado sério. Ela quer transformar o gênero em alguma coisa respeitável, enquanto Maxine está tentando provar que pode ser uma atriz respeitável.
As duas poderiam formar um conflito excelente.
De um lado, uma mulher que quer ser reconhecida como artista. Do outro, uma mulher que quer ser reconhecida como atriz. Ambas estão tentando escapar da maneira como Hollywood as enxerga.
E o filme toca nessa ideia, mas não desenvolve tanto quanto eu gostaria.
Hollywood aparece como uma máquina que transforma pessoas em produtos, mas MaXXXine não parece tão interessado em aprofundar essa crítica quanto Pearl estava interessado em falar sobre a obsessão por fama. O filme prefere fazer referência a gêneros, épocas e estilos. É quase como se Ti West estivesse brincando de montar uma enorme colagem cinematográfica.
E, como colagem, funciona muito bem.
Como história, nem tanto.
Isso não significa que o filme seja chato. Pelo contrário. A experiência é bastante divertida, especialmente para quem gosta de terror e cinema dos anos 70 e 80. Tem algo muito prazeroso em acompanhar Maxine atravessando aquele universo, entrando em estúdios, conhecendo atores, produtores e investigadores, enquanto a cidade parece cada vez mais perigosa.
Só que eu estava sempre esperando o filme chegar em algum lugar.
E, quando finalmente chega, a resolução me pareceu menos impactante do que a construção prometia.
A violência também é curiosa. Depois da brutalidade de X e principalmente do horror psicológico de Pearl, eu esperava que MaXXXine fosse mais agressivo. Há mortes interessantes e algumas imagens bastante desagradáveis, mas o filme me pareceu menos visceral do que eu imaginava. Talvez porque Maxine já seja uma personagem tão endurecida que o terror tenha dificuldade de realmente ameaçá-la.
E isso é um problema narrativo interessante: como fazer suspense com uma protagonista que parece capaz de lidar com qualquer coisa?
Maxine não é uma personagem que passa o filme tentando sobreviver. Ela passa boa parte dele tentando sobreviver enquanto intimida todo mundo ao redor. É divertido, mas reduz um pouco a sensação de vulnerabilidade.
Por isso, para mim, MaXXXine funciona melhor como um filme sobre imagem do que como um filme sobre medo.
Maxine quer controlar a própria imagem. Hollywood quer controlar a imagem dela. O cinema quer transformar pessoas em personagens. O público quer consumir essas personagens. E Ti West faz exatamente a mesma coisa conosco: pega uma personagem que já conhecemos e coloca-a dentro de uma estética que imediatamente reconhecemos.
Existe uma ironia aí que eu acho interessante.
Maxine passou a vida tentando escapar do rótulo de atriz pornô. Mas o próprio filme está constantemente lembrando que ela é justamente essa personagem. Ela quer ser vista de outra maneira, enquanto nós continuamos olhando para ela através de tudo o que aconteceu antes.
E isso conecta muito bem os três filmes. Pearl queria ser vista. Maxine quer controlar como é vista. E MaXXXine transforma esse desejo em espetáculo.
O problema é que, enquanto Pearl tinha uma protagonista psicologicamente muito rica e X tinha uma tensão bastante eficiente, MaXXXine às vezes parece satisfeito demais em fazer referências. É um filme que sabe que é estiloso. E sabe que nós sabemos.
Tem momentos em que eu quase conseguia ouvir Ti West dizendo: “Olha essa referência. Olha esse cenário. Olha esse enquadramento. Olha esse personagem.” E, depois de um tempo, comecei a querer que o filme simplesmente parasse de me mostrar como ele é inteligente e contasse uma história um pouco mais interessante.
Ainda assim, não consigo dizer que não gostei.
Mia Goth continua excelente. Maxine é uma protagonista carismática e completamente desequilibrada, e acompanhar sua trajetória até o fim da trilogia é recompensador. O filme também tem uma personalidade visual muito forte, e isso já é mais do que se pode dizer de boa parte dos thrillers contemporâneos. Ti West claramente tem uma paixão enorme pelo cinema e não tenta esconder isso.
Só que paixão por cinema não substitui roteiro.
No fim, MaXXXine é um encerramento que eu achei mais divertido do que realmente bom. É estiloso, cheio de referências, tem uma protagonista excelente e uma ambientação deliciosa, mas a história não me pegou da mesma maneira que X e, principalmente, Pearl. Senti que havia um filme muito melhor escondido dentro daquele monte de ideias: um filme sobre uma mulher tentando controlar a própria imagem em uma indústria que transforma ambição em mercadoria.
Talvez eu tenha gostado mais da personagem do que do filme.
E isso é um pouco frustrante, porque Maxine merecia um encerramento tão memorável quanto sua origem.
Ainda assim, gosto da trilogia como conjunto. Pearl continua sendo, para mim, o ponto alto, X tem a melhor mistura de terror e exploitation, e MaXXXine fecha a história com uma experiência mais leve, estilizada e assumidamente cinematográfica.
Não é um desastre. Longe disso.
Só é um filme que parece muito mais interessado em ser visto do que em ser sentido.
Nota: 6/10
Título: MaXXXine
País: Estados Unidos
Gênero: Terror, suspense
Ano: 2024
Diretor: Ti West
Duração: 103 minutos


