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Os Fuzis (1964)

Os Fuzis (1964)

Um grupo de soldados chega a uma pequena cidade do sertão nordestino para proteger os armazéns de alimentos de uma população faminta. É uma situação tão absurda que quase parece uma piada de mau gosto: existe comida, mas ela não pertence a quem está morrendo de fome. Então o Estado manda homens armados para garantir que os famintos não cheguem até ela. A premissa de Os Fuzis é simples, mas Ruy Guerra consegue extrair dela uma das imagens mais violentas que o cinema brasileiro produziu sobre a desigualdade: diante da fome, a resposta oficial não é alimentar, é apontar um fuzil. O filme foi realizado em 1964, no momento decisivo do Cinema Novo, e recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim.

O que mais me impressiona é que Guerra não transforma essa situação em um discurso fácil sobre bons e maus. Os soldados não são simplesmente monstros, e os sertanejos não são apresentados como personagens individuais cuidadosamente desenvolvidos. Há uma distância incômoda entre esses dois grupos, e é justamente essa distância que torna o filme tão cruel. Os militares têm nome, personalidade, conflitos, desejo, tédio. Eles conversam, bebem, fazem piadas, flertam, reclamam do calor. São pessoas. Do outro lado, existe uma multidão faminta, quase indistinta, que aparece como uma massa humana diante dos armazéns. Essa escolha pode incomodar — e acho que deve — porque o filme não está tentando nos oferecer uma identificação confortável. Ele está mostrando a dificuldade de enxergar como gente aquilo que a própria estrutura social transformou em massa, número e problema.

O personagem que mais funciona como ponte entre esses mundos é Gaúcho, o motorista de caminhão interpretado por Átila Iório. Ele não pertence completamente a nenhum dos lados. Tem proximidade com os soldados, mas não consegue simplesmente aceitar aquilo que está acontecendo. Observa a miséria ao redor e percebe a brutalidade da situação. É através dele que o filme consegue colocar em cena uma espécie de consciência moral que não chega a ser heroica. E acho isso muito mais interessante do que seria colocar ali um personagem revolucionário pronto para fazer discursos. Gaúcho hesita, observa, se irrita, participa e se distancia. Ele está tão preso àquela realidade quanto todo mundo.

E essa é uma das coisas que mais gosto em Ruy Guerra: seus personagens parecem estar sempre um pouco desconfortáveis dentro do próprio papel. Em Os Cafajestes, que também achei excelente, ele já trabalhava com personagens moralmente apodrecidos, incapazes de encontrar um sentido para aquilo que estavam fazendo. Aqui, a podridão deixa de ser apenas individual e passa a ser estrutural. Não são apenas os homens que estão errados. É o mundo ao redor deles que parece organizado para produzir aquela situação.

A fome, no filme, não é apenas uma condição física. Ela altera o comportamento, produz delírio, fé, violência e submissão. A população espera por um boi considerado sagrado, acredita nas previsões de um beato e deposita naquele animal uma esperança quase desesperada de que a chuva finalmente venha. O messianismo aparece como uma espécie de resposta à ausência de qualquer resposta concreta. Se ninguém vai resolver o problema da fome, talvez um milagre resolva.

E Guerra não trata essa religiosidade simplesmente como burrice. Há algo muito mais trágico nisso. Quando a realidade oferece absolutamente nenhuma perspectiva, acreditar em alguma coisa talvez seja uma das poucas formas de continuar suportando a realidade. O beato não é apenas um charlatão; ele também é produto daquele ambiente. A fé cresce exatamente onde a política falha.

Por isso, o filme me parece muito menos interessado em “explicar” a miséria do que em colocá-la diante de nós de maneira quase física. A fotografia de Ricardo Aronovich é fundamental para isso. O preto e branco, a aridez e a textura das imagens tornam o sertão quase sufocante. Não existe o Nordeste turístico, bonito, exótico, transformado em paisagem. Existe um lugar seco, hostil, onde a poeira parece entrar em tudo. A fotografia ganhou o prêmio de melhor fotografia no Festival de Pesaro, e é fácil entender por quê.

Mas o que realmente me pegou foi a maneira como Ruy Guerra filma a violência. Ele não precisa transformar cada morte em espetáculo. Muitas vezes, a câmera se mantém distante. O cadáver não é necessariamente aquilo que ocupa o centro da imagem; o que interessa é o efeito da violência sobre quem permanece vivo. Há uma frieza muito perturbadora nisso. A morte não é apresentada como um acontecimento extraordinário. É quase uma consequência administrativa.

E talvez seja justamente aí que esteja o significado do título.

Os Fuzis não se chama “Os Soldados”, nem “A Seca”, nem “A Fome”. O título escolhe a arma. O objeto que representa a autoridade. O instrumento utilizado para garantir que a ordem seja preservada mesmo quando essa ordem é completamente desumana. O fuzil não resolve a fome, não produz chuva, não cria trabalho, não distribui comida. Ele simplesmente impede que o faminto pegue aquilo de que precisa.

É uma imagem política extremamente direta, mas que o filme consegue tornar cinematográfica.

Acho também muito interessante que Os Fuzis não seja um filme particularmente interessado em oferecer catarse. Eu não terminei pensando que determinado personagem tinha vencido ou que uma injustiça tinha sido corrigida. Pelo contrário: a sensação é de que aquela máquina continuará funcionando depois que os personagens forem embora. E talvez essa seja a parte mais amarga do filme. Não há um vilão que possa ser derrotado para que tudo fique bem.

Há uma estrutura.

E estruturas são muito mais difíceis de matar.

O filme pertence ao momento de consolidação do Cinema Novo e costuma ser associado, ao lado de Vidas Secas e Deus e o Diabo na Terra do Sol, ao grande ciclo de filmes brasileiros dos anos 1960 voltados para o sertão, a miséria, o messianismo e os conflitos sociais. Mas acho que Os Fuzis se diferencia justamente por sua abordagem. Um estudo da USP sobre o filme destaca como Ruy Guerra aborda a relação com as camadas populares por um ângulo diferente, construindo uma tensão entre a complexidade dos soldados e a representação mais distante dos retirantes.

Essa distância pode ser desconfortável para um espectador contemporâneo. Eu mesma fiquei pensando em como o filme olha para aquela população e em como os próprios sertanejos são muitas vezes transformados em imagem coletiva. Mas acho que seria um erro simplesmente descartar essa escolha como uma falha sem considerar o que ela produz. Os Fuzis não está tentando fazer um retrato sociológico minucioso daquela população. Ele está criando uma espécie de paisagem humana da desigualdade. Os homens armados de um lado; os famintos do outro. Entre eles, praticamente nada.

E isso é aterrorizante.

Talvez por isso eu tenha sentido que o filme conversa muito com coisas que continuam absolutamente reconhecíveis no Brasil. É claro que a situação histórica é outra, e seria simplista dizer que nada mudou. Mas a lógica de tratar a pobreza como um problema de segurança, em vez de tratá-la como um problema social, continua sendo uma das nossas velhas especialidades. O filme é de 1964, mas sua imagem central continua desconfortavelmente atual: quando alguém tem fome e o Estado aparece, de que lado está a arma?

E há uma ironia particularmente cruel em assistir a Os Fuzis sabendo que ele foi concluído justamente no ano do golpe militar de 1964. A obra não é simplesmente uma profecia sobre o que aconteceria politicamente, mas sua representação da força estatal, da repressão e da impossibilidade de resolver conflitos sociais apenas pela violência ganha uma dimensão histórica inevitável.

Não acho que isso diminua o filme transformá-lo em “filme sobre a ditadura”. Na verdade, acho muito mais interessante enxergá-lo como um filme sobre um Brasil que já estava profundamente doente antes do golpe. A ditadura não inventou aquela violência. Ela encontrou uma sociedade onde desigualdade, autoritarismo e abandono já estavam perfeitamente estabelecidos.

E talvez seja por isso que Os Fuzis me impressione tanto. Ele não parece estar tentando prever o futuro. Parece estar olhando para o presente e dizendo: vocês estão vendo isso?

A direção de Ruy Guerra é seca, nervosa e pouco interessada em embelezar o sofrimento. Há uma tensão permanente entre o movimento dos soldados e a imobilidade daquela população. Os homens chegam de fora, ocupam o espaço, fazem seu trabalho e depois vão embora. Para eles, aquela cidade é uma missão. Para quem vive ali, é a vida inteira.

E essa diferença é devastadora.

Também gosto muito da maneira como o filme mistura o político e o absurdo. Existe algo quase surreal na situação: soldados armados protegendo comida enquanto pessoas famintas esperam por um milagre. Mas o filme nunca transforma esse absurdo em comédia. O absurdo é justamente a realidade.

Se Os Cafajestes me pareceu um filme sobre pessoas que perderam qualquer referência moral, Os Fuzis é um filme sobre uma sociedade que transformou a violência em procedimento. E talvez seja por isso que eu tenha gostado ainda mais dele. No primeiro, os personagens parecem apodrecer por dentro. Aqui, eles estão inseridos em uma máquina que já estava funcionando antes deles e continuará funcionando depois.

É um filme duro, político e extremamente bonito sem ser bonito no sentido confortável da palavra. Algumas imagens são difíceis de esquecer, principalmente porque Guerra não parece interessado em nos dizer exatamente o que devemos sentir. Ele simplesmente coloca aquela realidade diante da câmera e deixa que a contradição faça o trabalho.

Para mim, é um daqueles filmes em que a importância histórica não precisa ser usada como desculpa para gostar dele. Os Fuzis funciona como cinema antes de funcionar como documento. Tem uma direção rigorosa, uma fotografia extraordinária, uma atmosfera sufocante e uma ideia central que continua brutalmente eficaz. É cinema político sem precisar transformar cada personagem em porta-voz de uma tese.

E, talvez por isso, é um dos filmes de Ruy Guerra que mais me impressionaram até agora. Se em Os Cafajestes eu via um diretor interessado em personagens moralmente repulsivos e em relações contaminadas por desejo e poder, aqui vejo alguém ampliando esse olhar para uma escala muito maior: não são apenas indivíduos que estão destruídos. É o país inteiro que parece preso numa situação em que a única coisa que funciona perfeitamente são os fuzis.

Título: Os Fuzis
País: Brasil/Argentina
Gênero: Drama
Ano: 1964
Diretor: Ruy Guerra
Duração: 110 minutos

Nota: 10/10