Desafio do Além (1963)
Hill House é apresentada antes mesmo de vermos seus corredores, seus quartos ou suas escadas. A narração inicial conta sua história como se estivéssemos diante de uma criatura que existe há décadas, acumulando mortes, tragédias e histórias suficientemente estranhas para que ninguém queira passar uma noite ali. Uma casa construída para ser um lar, mas que parece ter se transformado em alguma outra coisa.
É uma ótima maneira de começar Desafio do Além (The Haunting, 1963), de Robert Wise.
O filme não tem pressa de nos mostrar um fantasma.
Na verdade, durante boa parte da projeção, não vemos absolutamente nada.
E talvez seja justamente aí que esteja sua maior força.
Hill House é uma daquelas construções que parecem ter sido desenhadas para produzir desconforto. Os corredores são estreitos, as portas parecem grandes demais, os ângulos são estranhos e as escadas parecem levar a lugares onde ninguém deveria estar. Robert Wise utiliza a arquitetura como elemento narrativo, criando a sensação de que existe alguma coisa errada na própria geometria daquela casa.
É um terror que começa no espaço.
E depois vai entrando nas pessoas.
A protagonista é Eleanor Lance, uma mulher que passou onze anos cuidando da mãe doente e que, depois da morte dela, se vê completamente sem direção. Sua viagem para Hill House representa muito mais do que uma investigação paranormal. Para Eleanor, é talvez a primeira oportunidade que teve de imaginar uma vida que não estivesse organizada em torno das necessidades de outra pessoa.
E é justamente por isso que sua relação com a casa me parece tão interessante.
Enquanto os outros personagens chegam a Hill House para estudá-la, Eleanor chega querendo pertencer a ela.
Existe uma fantasia muito particular na maneira como ela imagina aquela viagem. Antes mesmo de conhecer a mansão, Eleanor inventa para si mesma uma espécie de conto de fadas. Ela imagina que finalmente alguma coisa extraordinária vai acontecer em sua vida.
E acontece.
O problema é que talvez seja exatamente isso que destrói sua percepção da realidade.
Julie Harris interpreta Eleanor com uma fragilidade que funciona muito bem porque nunca sabemos exatamente onde termina a sensibilidade da personagem e começa sua instabilidade. Ela está tão emocionalmente vulnerável que qualquer fenômeno pode ser interpretado como uma mensagem dirigida especificamente a ela.
Quando Eleanor começa a acreditar que a casa a quer, eu não consigo decidir se aquilo é uma manifestação sobrenatural ou simplesmente a concretização de uma fantasia que ela carregava desde antes de chegar.
E o filme é inteligente justamente porque não tem pressa de decidir por nós.
Robert Wise constrói grande parte do horror a partir do som.
Essa talvez seja a característica que mais me impressionou em Desafio do Além. Portas são golpeadas, paredes parecem respirar, alguma coisa se movimenta do outro lado de uma porta e os personagens ficam parados, tentando descobrir de onde vem o barulho.
Não vemos a ameaça.
Ouvimos.
E nossa imaginação faz o resto.
A sequência em que Eleanor e Theodora estão no quarto talvez seja o melhor exemplo disso. A porta parece ser pressionada por alguma força do outro lado enquanto as duas permanecem apavoradas, sem saber exatamente contra o que estão se protegendo.
É uma cena que funciona porque o filme entende uma coisa muito simples sobre o terror: mostrar o monstro pode ser menos assustador do que permitir que o espectador imagine um.
A fotografia em preto e branco de Davis Boulton contribui enormemente para essa atmosfera. Os enquadramentos são frequentemente inclinados, as linhas arquitetônicas parecem distorcidas e a câmera transforma os ambientes em espaços quase claustrofóbicos.
Hill House parece estar sempre observando.
Há algo de expressionista na maneira como Wise filma a casa. Não é apenas uma construção antiga; é um espaço que parece possuir personalidade própria. Os corredores não conduzem necessariamente a algum lugar. As portas parecem esconder mais do que deveriam. A escadaria em espiral da biblioteca, especialmente, parece pertencer a um pesadelo.
É interessante perceber que o filme consegue criar essa sensação sem depender de efeitos especiais elaborados.
Aliás, talvez esse seja um dos motivos pelos quais Desafio do Além ainda funcione tão bem visualmente.
O filme confia na sugestão.
Confia no enquadramento.
Confia no som.
Confia no espectador.
Mas, ao mesmo tempo, foi justamente aí que senti algumas limitações.
Embora admire muito a atmosfera, não me envolvi com todos os personagens da mesma maneira. O grupo de pesquisadores é funcional para a narrativa, mas senti que alguns deles permanecem mais como instrumentos para observar Eleanor do que como personagens com conflitos próprios. Theodora é interessante, principalmente pela relação de intimidade e cumplicidade que desenvolve com Eleanor, mas gostaria que o roteiro tivesse explorado mais essa dinâmica.
E existe também uma certa irregularidade no ritmo.
O filme passa bastante tempo construindo uma tensão excelente e, em alguns momentos, parece não saber exatamente como transformá-la em acontecimentos. Para quem espera um terror mais convencional, isso pode ser frustrante. Para mim, algumas passagens prolongam uma atmosfera que já havia sido estabelecida de maneira muito eficiente.
Ainda assim, há uma ideia que impede que o filme seja apenas uma história de casa mal-assombrada: a possibilidade de que Eleanor seja, de alguma maneira, tão importante para Hill House quanto Hill House é para Eleanor.
Essa relação é construída aos poucos.
A casa parece chamá-la.
Eleanor quer ser chamada.
Ela passou anos sendo necessária para alguém, mas nunca realmente escolhida. Em Hill House, pela primeira vez, sente que existe alguma coisa que deseja especificamente sua presença.
É uma ideia bastante perturbadora.
Porque transforma o sobrenatural em algo quase sedutor.
Eleanor não quer necessariamente escapar.
Ela quer ficar.
Quando Markway percebe o quanto sua obsessão está crescendo e tenta convencê-la a partir, existe uma espécie de tragédia anunciada. Para os outros, Hill House é um lugar perigoso que precisa ser abandonado. Para Eleanor, é talvez o primeiro lugar onde ela sente que finalmente pertence.
Por isso, o desfecho me parece menos uma simples morte causada por um fantasma e mais a conclusão de um processo de dissolução da personagem.
E é importante que o filme mantenha essa ambiguidade até o fim.
Ela realmente perdeu o controle do carro?
A casa a matou?
Eleanor se matou?
Robert Wise não oferece uma resposta confortável.
A última tomada da casa, acompanhada pela repetição da narração inicial, reforça essa sensação de circularidade. Hill House continuará ali. As pessoas vão embora, morrem ou enlouquecem, mas a casa permanece.
É quase como se a verdadeira protagonista nunca tivesse sido Eleanor.
Fosse a própria casa.
Desafio do Além não é o tipo de terror que eu assistiria buscando sustos ou uma história particularmente complexa. Seu grande mérito está na construção de uma atmosfera que permanece desconfortável mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.
Talvez eu esperasse um pouco mais do desenvolvimento da história e dos personagens, e por isso não consigo colocá-lo entre os meus filmes de terror favoritos. Mas é impossível negar sua importância e, principalmente, sua influência sobre a maneira como o cinema passou a representar casas assombradas.
Robert Wise entendeu que uma casa pode ser assustadora sem mostrar absolutamente nada.
Basta uma porta.
Uma escada.
Um ruído no escuro.
E alguém vulnerável o suficiente para acreditar que, finalmente, alguma coisa está chamando por ela.
Nota: 7/10
Ficha técnica
Título original: The Haunting
Título no Brasil: Desafio do Além
Ano: 1963
País: Reino Unido
Direção: Robert Wise
Roteiro: Nelson Gidding, baseado no romance The Haunting of Hill House, de Shirley Jackson
Gênero: Terror / Horror psicológico
Duração: 114 minutos
Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Lois Maxwell e Richard Wordsworth
Direção de fotografia: Davis Boulton
Trilha sonora: Muir Mathieson
Montagem: Ernest Walter
Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer


