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O Joelho de Claire (1970)

O Joelho de Claire (1970)

Jérôme está prestes a se casar. É um diplomata francês, adulto, aparentemente seguro de si e convencido de que já passou da fase das grandes confusões sentimentais. Durante o verão, enquanto aguarda o casamento, ele reencontra Aurora, uma antiga amiga escritora, e conhece Laura, uma adolescente de 16 anos que passa as férias na região. A relação entre os dois se desenvolve através de conversas sobre amor, ciúme e relacionamentos, até que aparece Claire, a irmã mais nova de Laura. E então Jérôme vê o joelho dela.

É isso. Um joelho.

E é absolutamente maravilhoso que Éric Rohmer consiga fazer um filme inteiro sobre um homem adulto transformando a vontade de tocar o joelho de uma adolescente em uma questão quase metafísica. O mais engraçado é que Jérôme se recusa terminantemente a enxergar aquilo como desejo. Ele precisa encontrar uma explicação mais elegante, mais sofisticada, mais aceitável para si mesmo. Não é atração, é curiosidade. Não é obsessão, é uma necessidade. Não é simplesmente um joelho, é o Joelho de Claire. E quanto mais ele explica, mais ridículo e fascinante fica.

Esse é um daqueles filmes em que praticamente nada acontece e, ainda assim, eu fiquei completamente presa ao que estava acontecendo. Rohmer pega uma situação mínima e consegue extrair dela uma quantidade absurda de coisas sobre desejo, vaidade, autoengano e, principalmente, sobre a nossa necessidade de criar histórias para justificar aquilo que sentimos. Jérôme não quer apenas Claire. Ele quer compreender por que quer Claire. E essa necessidade de compreender acaba sendo quase tão importante quanto o próprio desejo.

O que mais me encanta é que Rohmer não transforma isso em um grande drama. Não existe aquela solenidade típica de filmes que querem nos ensinar alguma coisa sobre o amor. As pessoas simplesmente conversam. Caminham. Tomam banho. Ficam sentadas olhando o lago. Falam sobre seus relacionamentos. E, no meio dessas atividades absolutamente banais, surgem pequenas obsessões que ganham proporções enormes.

É justamente aí que o filme se torna tão engraçado.

Jérôme é um homem que parece ter uma opinião sobre tudo, inclusive sobre si mesmo. Ele acredita conhecer suas próprias motivações e passa boa parte do filme tentando explicar para Aurora o que está acontecendo dentro dele. Só que Aurora é escritora e tem um olhar muito mais malicioso. Ela percebe que ele está criando uma narrativa para si mesmo e, em vez de impedi-lo, incentiva. Faz perguntas. Sugere situações. Observa. Jérôme vira personagem de uma história que Aurora está escrevendo quase sem precisar colocar uma palavra no papel.

Essa relação entre os dois é uma das coisas mais interessantes do filme. Aurora não é exatamente uma confidente. Ela é quase uma diretora. Existe uma espécie de experimento acontecendo, e Jérôme não percebe completamente que está participando dele. Ela quer descobrir até onde vai a obsessão dele, e ele acredita que está apenas tentando resolver um pequeno problema pessoal antes de se casar.

A situação fica ainda mais divertida porque Jérôme insiste que não existe nada de sexual em seu interesse por Claire. E Rohmer nunca precisa contradizê-lo diretamente. Basta acompanhar suas ações. Quanto mais ele tenta separar o desejo do desejo, mais evidente fica o esforço de racionalização.

O joelho funciona perfeitamente porque é um objeto de desejo completamente arbitrário. Rohmer poderia ter escolhido qualquer outra coisa, mas escolhe justamente uma parte do corpo que parece banal demais para justificar tamanho fascínio. E é exatamente isso que torna a ideia tão boa. O desejo não precisa ser racional. Nós é que somos desesperados por racionalizá-lo depois.

Jérôme transforma o joelho de Claire em símbolo, e essa transformação diz muito mais sobre ele do que sobre ela.

Claire, aliás, é uma personagem particularmente interessante justamente porque o filme não precisa transformá-la em uma femme fatale adolescente. Ela está vivendo sua vida. Está apaixonada, está envolvida em seus próprios problemas e não passa o tempo inteiro calculando o efeito que provoca em Jérôme. O peso da obsessão está na cabeça dele. Isso deixa tudo mais delicado e também mais desconfortável, especialmente para um espectador contemporâneo, porque a diferença de idade é evidente e Rohmer não apresenta a situação através de uma moralização explícita.

O filme é de 1970, e essa distância histórica importa. Rohmer está interessado menos em condenar o desejo do que em observar como ele funciona. E talvez por isso O Joelho de Claire seja tão bom: ele não precisa dizer ao espectador o que pensar sobre Jérôme. Ele simplesmente o deixa falar.

E falar é o que esses personagens fazem melhor.

Rohmer constrói o filme praticamente inteiro através de conversas. Mas são conversas que nunca parecem existir apenas para transmitir informações ao espectador. As pessoas falam porque estão tentando convencer umas às outras e, principalmente, convencer a si mesmas. É um cinema em que o diálogo é ação. Uma conversa muda uma relação. Uma frase provoca ciúme. Uma explicação revela uma mentira. Uma tentativa de justificar alguma coisa acaba revelando exatamente o contrário.

Isso é muito mais sofisticado do que parece.

Laura também funciona como uma espécie de espelho para Jérôme. Ela é jovem, está tentando entender o próprio relacionamento e procura nele uma pessoa mais experiente capaz de ajudá-la a interpretar seus sentimentos. Jérôme gosta desse papel. É confortável para ele se colocar como o homem racional que compreende o amor melhor do que uma adolescente. Só que, enquanto aconselha Laura, ele está fazendo exatamente aquilo que supostamente sabe evitar: projetando desejos, criando teorias e tentando controlar emoções que não obedecem à lógica.

O filme inteiro parece uma brincadeira sobre a distância entre aquilo que dizemos que estamos fazendo e aquilo que estamos realmente fazendo.

E isso se aplica também ao casamento de Jérôme. Ele está prestes a se casar e faz questão de afirmar que está apaixonado por Lucinde. Sua obsessão por Claire, portanto, precisa caber dentro da narrativa que ele construiu sobre si mesmo como homem fiel, maduro e racional. Ele não pode simplesmente admitir que alguma coisa o desestabilizou. Então inventa uma categoria especial para aquele desejo.

É quase uma burocracia emocional.

“Isso não é desejo. É o joelho.”

E eu adoro que o filme leve essa bobagem a sério o suficiente para transformá-la em uma obra-prima.

A paisagem também é fundamental. O lago de Annecy, as montanhas, o verão, as casas de férias e aquela luz natural criam um ambiente extremamente bonito, mas também quase suspenso do mundo. Os personagens parecem viver durante algumas semanas em um espaço onde o tempo passa mais devagar. É justamente por não haver grandes acontecimentos externos que os pequenos acontecimentos psicológicos ocupam tanto espaço.

Uma mão que toca outra mão pode virar um acontecimento. Um olhar pode durar alguns segundos a mais do que deveria. Um joelho pode destruir a estabilidade emocional de um homem que acreditava estar completamente resolvido.

Rohmer entende que a vida é frequentemente assim. Não precisamos de tragédias para entrar em crise. Às vezes basta uma pessoa aparecer no lugar errado, na hora errada, e alguma coisa dentro de nós começa a se reorganizar.

Também gosto muito do humor do filme porque ele nunca é escancarado. Rohmer não parece estar dizendo “olhem como esse homem é ridículo”. Ele simplesmente coloca Jérôme diante da câmera e deixa que ele explique a própria lógica. O espectador percebe a contradição e começa a rir sozinho.

É um humor muito mais cruel por isso.

Jérôme não é uma caricatura. Ele é inteligente. É educado. É articulado. E justamente por isso é tão engraçado vê-lo tentando construir uma justificativa intelectual para algo que provavelmente não precisa de nenhuma explicação. Ele é vítima da própria inteligência. Pensa demais sobre o que sente e, ao fazer isso, consegue complicar uma coisa simples até transformá-la em uma pequena filosofia particular.

Aurora percebe tudo.

E talvez seja ela quem torne o filme ainda mais divertido. Existe uma cumplicidade enorme entre a personagem e o diretor. Ela parece estar sempre dois passos à frente de Jérôme. Enquanto ele acredita estar vivendo uma situação, ela está observando uma história. Enquanto ele tenta controlar os acontecimentos, ela cria pequenas circunstâncias para ver o que ele fará.

É quase como se Rohmer estivesse fazendo um filme sobre a própria construção de um filme.

Os personagens são observados. Os desejos são testados. As situações são encenadas. E, no final, não sabemos exatamente onde termina a vida e começa a narrativa que eles inventaram sobre ela.

Por isso, acho que O Joelho de Claire é muito mais do que um filme sobre um homem obcecado pelo corpo de uma jovem. É um filme sobre a maneira como transformamos nossos desejos em histórias para conseguir conviver com eles. Jérôme precisa acreditar que existe uma diferença fundamental entre desejar Claire e desejar tocar seu joelho. Talvez porque, se admitir a primeira coisa, terá que admitir algo sobre si mesmo que não combina com a imagem que construiu.

E isso me parece extremamente humano.

Todo mundo faz alguma versão disso. Inventamos justificativas, criamos explicações, mudamos palavras, encontramos motivos nobres para coisas que talvez sejam muito mais simples. Dizemos que fizemos algo por preocupação quando também havia ciúme. Dizemos que foi curiosidade quando havia desejo. Dizemos que não nos importamos enquanto pensamos obsessivamente naquilo.

Rohmer transforma esse mecanismo psicológico em uma história absolutamente encantadora.

E o mais impressionante é que o filme não envelheceu como uma peça de museu. Pelo contrário. A forma como ele observa as pessoas tentando explicar os próprios sentimentos continua muito atual. Talvez hoje tenhamos ainda mais ferramentas para racionalizar o desejo, dar nomes a ele, transformá-lo em discurso e construir narrativas sobre nós mesmos.

Jérôme provavelmente teria uma ótima conta nas redes sociais.

No fim, o que fica para mim é a sensação de ter assistido a algo muito simples e muito inteligente ao mesmo tempo. O Joelho de Claire não precisa de grandes acontecimentos porque sua matéria-prima é justamente aquilo que normalmente ignoramos: os pensamentos pequenos, as hesitações, as justificativas, os desejos que parecem absurdos quando colocados em voz alta.

E talvez a maior qualidade de Rohmer seja confiar que isso é suficiente.

É suficiente acompanhar pessoas conversando. É suficiente observar um homem se enrolando cada vez mais em suas próprias explicações. É suficiente um verão, um lago, algumas relações amorosas e um joelho.

Porque, no fundo, nunca foi sobre o joelho.

Foi sobre tudo aquilo que Jérôme precisava inventar para explicar por que ele não conseguia parar de olhar para ele.

Título: O Joelho de Claire (Le Genou de Claire)
País: França
Gênero: Drama, Romance
Ano: 1970
Diretor: Éric Rohmer
Duração: 105 minutos

Nota: 10/10