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Jezebel (1938)

Jezebel (1938)

Julie Marsden é uma jovem rica e mimada de Nova Orleans que parece ter transformado a própria personalidade em uma arma. Ela é apaixonada por Preston Dillard, um banqueiro com quem mantém um relacionamento cheio de provocações, orgulho e ressentimento. O problema é que Preston é um homem muito mais preocupado com as convenções sociais do que Julie gostaria, e Julie parece determinada a testar todos os limites possíveis apenas para provar que ninguém pode lhe dizer o que fazer. Quando ele pede que ela compre um vestido branco para acompanhá-lo a um baile, ela decide aparecer de vermelho, contrariando uma tradição segundo a qual apenas mulheres solteiras poderiam usar aquela cor. É uma decisão aparentemente pequena, mas que resume perfeitamente a personalidade da personagem: Julie não precisa necessariamente desafiar uma regra; ela precisa que Preston saiba que ela é capaz de fazê-lo.

O resultado é previsivelmente desastroso. Preston fica humilhado e, em vez de discutir ou tentar compreender Julie, simplesmente termina o relacionamento e vai embora para Nova York. Um ano depois, ele retorna casado com Amy, uma mulher muito mais dócil e adequada às expectativas da sociedade. É nesse momento que Jezebel fica mais interessante, porque Julie percebe que perdeu alguma coisa que acreditava estar garantida. E ela não reage muito bem à descoberta. O filme acompanha justamente essa transformação de uma mulher acostumada a conseguir o que quer para alguém que finalmente precisa lidar com a possibilidade de não ser desejada.

Bette Davis é praticamente dona do filme. Julie poderia facilmente ser apenas uma personagem insuportável, dessas protagonistas que o roteiro insiste que devemos perdoar porque são bonitas, ricas e eventualmente demonstram algum arrependimento. Davis, porém, consegue fazer com que ela seja muito mais contraditória. Julie é cruel, infantil, apaixonada, ciumenta e orgulhosa, mas também é uma mulher presa em uma sociedade em que quase todas as possibilidades de ação estão condicionadas ao casamento e à reputação. Ela não sabe exatamente o que fazer com a própria liberdade porque, naquele mundo, a liberdade feminina parece existir principalmente como uma provocação. E o filme é muito bom quando deixa essa contradição aparecer sem precisar explicá-la.

O vestido vermelho é, evidentemente, a imagem mais famosa do filme, e funciona porque não é apenas um elemento de figurino. Julie sabe exatamente o que está fazendo. Ela sabe que vai constranger Preston e sabe que todos vão olhar para ela. O prazer dela está justamente em desafiar aquilo que esperam que uma mulher faça. Só que existe uma ironia bastante cruel nisso: Julie acredita que está demonstrando independência, mas sua rebeldia ainda está completamente organizada em torno de Preston. Ela desafia as regras para provocar o homem que ama. Sua independência, portanto, continua girando ao redor de um homem.

É aí que o título ganha força. Julie é chamada de Jezebel porque sua sensualidade e seu comportamento são vistos como uma ameaça à ordem moral daquele universo. Mas o filme não parece particularmente interessado em condená-la como uma mulher “má”. Pelo contrário, existe uma certa fascinação pela personagem. O problema é que Jezebel também não consegue escapar completamente da lógica moralista de sua época. Para que Julie possa amadurecer, ela precisa sofrer. Precisa perder Preston, perceber que não controla tudo e, principalmente, provar que é capaz de abrir mão do próprio desejo.

E isso torna o romance bastante menos romântico do que poderia parecer. Preston não é exatamente um grande prêmio. Ele é rígido, orgulhoso e frequentemente parece mais interessado em controlar Julie do que em compreendê-la. Quando retorna casado, a presença de Amy cria uma espécie de triângulo no qual Julie passa a disputar não apenas Preston, mas a imagem de mulher que Amy representa. Amy é delicada, educada e obediente; Julie é impulsiva, sexualizada e inconveniente. A comparação entre as duas é bastante óbvia, mas o filme consegue evitar que Amy seja simplesmente apresentada como a “mulher correta” e Julie como a “mulher errada”. Há algo mais melancólico acontecendo: as duas parecem representar caminhos diferentes dentro de um sistema que, no fim das contas, continua sendo construído pelos homens.

Também gostei de como o filme trabalha a humilhação de Julie. Ela está acostumada a entrar em uma sala e dominar a atenção de todos, mas depois que Preston volta casado, cada encontro entre os dois se transforma em uma espécie de duelo. Ela tenta recuperar o poder através da provocação, da sedução e do ciúme, enquanto ele responde com uma frieza que parece deixá-la ainda mais desesperada. Bette Davis entende muito bem essa personagem que prefere ser odiada a ser ignorada. Julie não sabe lidar com a indiferença porque toda a sua personalidade foi construída em torno da certeza de que consegue provocar uma reação.

E, por mais que o filme seja bastante moralista em determinados momentos, ele também é surpreendentemente ácido com essa aristocracia sulista. Todos estão preocupados com aparência, reputação, dinheiro e etiqueta enquanto ao redor deles existe uma sociedade extremamente violenta. A história se passa em Nova Orleans, às vésperas da Guerra Civil, e o filme vai introduzindo esse contexto aos poucos, como se o mundo privado dos personagens estivesse prestes a ser engolido por algo muito maior. A própria febre amarela, que aparece no último ato, rompe aquela bolha social. De repente, não importa tanto quem estava usando o vestido apropriado no baile.

É nesse ponto que Jezebel deixa de ser apenas um melodrama sobre uma mulher mimada e ganha uma dimensão mais trágica. Julie passa boa parte do filme tentando controlar o destino de Preston, mas no final se encontra diante de uma situação em que não pode controlar absolutamente nada. A epidemia coloca todos no mesmo lugar, independentemente de dinheiro ou posição social. E Julie, que passou o filme inteiro querendo provar que não precisava obedecer a ninguém, finalmente precisa tomar uma decisão que não beneficia a si mesma.

Não acho que o filme seja particularmente sutil nessa transformação. Em alguns momentos, a moral da história fica bastante evidente, quase como se o roteiro estivesse dizendo: “Veja, Julie, agora você aprendeu a lição”. E essa é provavelmente a parte que mais envelheceu mal para mim. A personagem parece precisar ser punida por sua personalidade antes de poder se tornar digna de alguma espécie de redenção. Ainda assim, Bette Davis é tão boa que consegue impedir que isso torne Julie completamente previsível. Mesmo quando o roteiro quer transformá-la em uma mulher arrependida, ela continua carregando aquela energia meio perigosa de quem poderia fazer uma péssima escolha novamente.

Também é impossível não pensar no contexto de produção. Jezebel é um filme de 1938, realizado em um período em que Hollywood tinha uma relação bastante particular com mulheres consideradas “difíceis”. A personagem de Davis ocupa exatamente esse espaço: ela é fascinante porque não é agradável. Julie não está tentando ser uma boa moça. Ela quer atenção, quer Preston e quer poder escolher o próprio comportamento. O filme eventualmente cobra um preço por isso, mas talvez seja justamente essa contradição que faça com que ele continue interessante.

O que mais gostei foi perceber que o grande conflito de Julie não é exatamente entre amor e orgulho. É entre desejo e controle. Ela quer Preston, mas quer também controlar a maneira como ele a deseja. Quer ser escolhida, mas não quer se submeter às condições da escolha. Quer desafiar as convenções, mas sofre quando essas mesmas convenções permitem que Preston simplesmente a abandone e encontre uma mulher “mais adequada”. É uma personagem presa em uma contradição que ela mesma não consegue compreender.

No fim, Jezebel é um melodrama bastante clássico, com uma protagonista que poderia facilmente cair no estereótipo da mulher fatal arrependida, mas que ganha vida graças à interpretação de Bette Davis. Não é um filme que eu ache perfeito, e algumas das soluções dramáticas são mais convencionais do que eu gostaria. Ainda assim, há uma força enorme nas cenas de confronto, na construção de Julie e principalmente na maneira como o filme transforma pequenos gestos sociais — um vestido, um baile, uma visita, um olhar — em batalhas de poder.

É também um daqueles filmes em que o figurino diz quase tanto quanto os diálogos. Julie passa o tempo inteiro tentando controlar a impressão que causa nos outros, e o filme transforma sua aparência em extensão de sua personalidade. O vestido vermelho é a síntese perfeita disso: ela sabe que está fazendo uma escolha absurda, sabe que será julgada e, mesmo assim, entra no salão como se desafiar todo mundo fosse uma questão de sobrevivência. E talvez seja mesmo.

Título: Jezebel
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Ano: 1938
Diretor: William Wyler
Duração: 103 minutos

Nota: 8/10