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Vidas Passadas (2023)

Vidas Passadas (2023)

Vidas Passadas (Past Lives, 2023) me comoveu tanto que hoje acredito que ele tenha sido a primeira fagulha de inspiração que tive para escrever meu primeiro romance, que pretendo publicar em algum momento de 2027. O filme compreende uma experiência que muita gente já viveu, mas que raramente consegue explicar: a sensação de olhar para alguém e perceber que aquela pessoa poderia ter sido a sua vida. Não necessariamente porque ainda exista amor; às vezes existe apenas a consciência de que bastou uma decisão diferente, uma mudança de cidade ou alguns quilômetros a menos para que tudo tivesse seguido outro caminho. Esse filme mostra o “e se” com uma delicadeza impressionante.

A premissa parece simples. Nora e Hae Sung são amigos de infância na Coreia do Sul até que a família dela emigra para o Canadá. Anos depois, já adultos, os dois voltam a se encontrar pela internet. A vida, porém, segue seu curso. Nora muda-se para Nova York, torna-se escritora e se casa com Arthur. Mais alguns anos se passam até que Hae Sung decide visitá-la. O que aconteceu entre eles é muito menos importante do que aquilo que permaneceu suspenso por tantos anos de separação. Não existem grandes declarações, reviravoltas improváveis ou obstáculos artificiais. O conflito nasce simplesmente do fato de que o tempo passou.

Esse filme nos mostra que maturidade também pode ser matéria-prima para o drama. Em Vidas Passadas, ninguém precisa se tornar vilão para que exista sofrimento. Arthur não representa um obstáculo ao reencontro de Nora e Hae Sung, pelo contrário. É um personagem profundamente generoso, inteligente e emocionalmente disponível. Hae Sung também nunca tenta destruir aquele casamento. O conflito não está nas pessoas e sim nas possibilidades.

Durante décadas, o cinema e a televisão acostumaram o público a acreditar que existe uma única história de amor verdadeira, destinada a vencer qualquer distância ou dificuldade. Celine Song propõe o contrário: a vida é feita de inúmeros caminhos possíveis e escolher um deles significa, inevitavelmente, abandonar todos os outros.

Existe uma palavra coreana que atravessa todo o filme: in-yun, traduzida como destino ou conexão. Segundo a tradição, duas pessoas só se encontram porque já estiveram ligadas em vidas anteriores. Cada encontro seria consequência de inúmeras existências passadas.

Gosto muito da maneira como o filme utiliza esse conceito. Ele nunca tenta convencer o espectador de que o destino existe, mas também não tenta negá-lo. O in-yun funciona muito mais como uma forma poética de pensar os encontros humanos do que como uma explicação sobrenatural ou espiritualista. Talvez algumas pessoas passem por nossa vida apenas para lembrar quem fomos antes de nos tornarmos quem somos.

Visualmente, Vidas Passadas também me chamou à atenção pela discrição. A direção é silenciosa, com enquadramentos fixos por muito tempo. Há uma cena que resume perfeitamente essa proposta. Nora e Hae Sung caminham lado a lado pelas ruas de Nova York. Quase nada acontece. Eles conversam, observam a cidade, lembram da infância. Mas, ao mesmo tempo, a diretora transforma a caminhada em um momento profundamente emocional por uma Nova York distante da que vemos em cartões-postais. Ela funciona como um espaço de deslocamento, um lugar onde diferentes culturas e identidades convivem sem jamais se fundirem completamente. Nora pertence à cidade, mas também continua pertencendo à Coreia. Hae Sung pertence à Coreia, mas durante alguns dias tenta compreender a mulher americana que aquela menina se tornou.

Greta Lee, que eu ainda não conhecia, entrega uma atuação extraordinária justamente por sua contenção. Nora quase nunca verbaliza aquilo que sente; seu conflito acontece na postura e, principalmente, no olhar. É uma interpretação que exige atenção constante do espectador. Teo Yoo faz algo semelhante com Hae Sung. Seu personagem carrega uma melancolia muito particular, não porque tenha perdido Nora, mas porque percebe que continua apaixonado por uma pessoa que deixou de existir. Mas, para mim, a atuação mais surpreendente é de John Magaro, que, por sua vez, interpreta Arthur. Seria muito fácil transformá-lo em um marido inseguro ou ciumento, mas ele compreende perfeitamente aquilo que está acontecendo. Em determinado momento, chega a admitir que talvez ele próprio seja apenas o personagem secundário dentro da história de amor de outra pessoa. É uma cena de enorme maturidade.

Claro que Vidas Passadas é um filme sobre romance, mas é também sobre identidade, imigração e as versões de nós mesmos que deixamos para trás cada vez que fazemos uma escolha importante. Talvez o momento que melhor sintetize essa ideia seja o plano final. Poucas vezes vi um encerramento dizer tanto com tão pouco. É um final que continua reverberando muito depois da sessão.

Desde Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, poucos romances contemporâneos me pareceram tão interessados na conversa quanto na própria narrativa. Em Vidas Passadas, falar é uma forma de medir a distância entre duas vidas. Talvez por isso o filme tenha me emocionado tanto: no fundo, todos nós estamos distantes de alguma vida que idealizamos e não aconteceu.

Nota: ★★★★★ (10/10)


Ficha técnica

Título original: Past Lives
Título no Brasil: Vidas Passadas
Ano: 2023
País: Estados Unidos / Coreia do Sul
Direção e roteiro: Celine Song
Gênero: Drama / Romance
Duração: 106 minutos
Elenco: Greta Lee, Teo Yoo e John Magaro
Direção de fotografia: Shabier Kirchner
Trilha sonora: Christopher Bear e Daniel Rossen
Montagem: Keith Fraase
Distribuição: A24