Tempo (2021)
Tempo é um daqueles filmes que têm uma premissa tão boa que quase conseguem fazer a gente esquecer o quanto o roteiro parece empenhado em estragá-la. A ideia de uma praia onde o tempo passa em uma velocidade absurda é excelente: pessoas envelhecendo décadas em poucas horas, crianças se tornando adolescentes, doenças avançando rapidamente e a própria morte acontecendo diante dos nossos olhos. É um conceito perfeito para um suspense claustrofóbico, porque o verdadeiro inimigo não precisa nem aparecer — é o tempo, que normalmente já é uma coisa suficientemente assustadora. O problema é que M. Night Shyamalan parece não confiar na própria ideia e passa boa parte do filme tentando explicar, justificar e amarrar tudo em uma grande conspiração científica que é bem menos interessante do que a situação que estamos assistindo.
Guy e Prisca chegam ao resort com os filhos, Maddox e Trent, enquanto o casamento dos dois está praticamente acabado. Prisca tem um tumor e os dois já conversam sobre divórcio, mas decidem fazer uma última viagem em família. O resort oferece uma experiência exclusiva em uma praia isolada, para onde eles são levados junto com outros hóspedes: um médico, sua esposa muito mais jovem, a mãe dele, uma criança, um enfermeiro, sua esposa e um rapper acompanhado de uma mulher. A praia parece paradisíaca, mas logo surge o primeiro cadáver. A partir daí, o filme começa a revelar sua ideia central: alguma coisa naquele lugar está acelerando o tempo. O cachorro morre, a senhora idosa morre, o corpo começa a se decompor em velocidade absurda e, principalmente, as crianças começam a crescer. A sensação de assistir Trent e Maddox envelhecendo enquanto os adultos tentam desesperadamente encontrar uma saída é genuinamente angustiante. Pena que o filme frequentemente interrompa essa angústia para que algum personagem diga em voz alta exatamente aquilo que acabamos de perceber.
E é justamente aí que Tempo começa a me perder. Shyamalan tem uma tendência muito particular de transformar situações potencialmente perturbadoras em pequenas experiências de laboratório para testar até onde uma ideia consegue ser levada. Algumas funcionam muito bem. A cirurgia improvisada de Prisca, por exemplo, é uma das melhores cenas do filme. O tumor cresce tão rapidamente que ela precisa ser operada ali mesmo, enquanto todos seguram a abertura da cirurgia para impedir que a pele se feche. É grotesco, desesperador e, ao mesmo tempo, fascinante. A gravidez de Kara também é uma boa demonstração do absurdo daquela praia: ela engravida, passa pela gestação e dá à luz em questão de minutos. O bebê, por não receber os cuidados necessários, morre quase imediatamente. É uma sequência cruel justamente porque não há tempo nem para compreender o que aconteceu. A vida inteira de alguém acontece diante dos personagens e desaparece antes que eles consigam reagir.
O problema é que o filme não sabe muito bem o que fazer com esse material depois de estabelecer a premissa. As mortes começam a se acumular como etapas de uma gincana macabra. O rapper é assassinado pelo médico, que entra em um surto psicótico. Kara tenta escalar o penhasco e morre. Jarin tenta escapar pelo mar e se afoga. Patricia, que sofre de epilepsia, tem uma sequência de convulsões e morre. Chrystal, desesperada com o próprio envelhecimento, entra em uma caverna e começa a sofrer uma sucessão de fraturas por causa da deficiência de cálcio. Essa última talvez seja a morte mais visualmente perturbadora do filme, mas também resume um dos problemas de Tempo: em determinado momento, parece que os personagens existem apenas para demonstrar uma nova maneira de morrer naquela praia.
Chrystal é particularmente interessante porque o envelhecimento destrói exatamente aquilo que ela mais valoriza: a própria aparência. Ela passa boa parte do filme tentando preservar a beleza, recusando-se a aceitar que está envelhecendo, enquanto o corpo literalmente deixa de obedecer. Existe aí uma ideia bastante cruel sobre a maneira como nossa sociedade transforma juventude em valor, principalmente para as mulheres. Só que o filme não desenvolve isso muito além do choque visual. A mesma coisa acontece com Guy e Prisca. O casal começa a história prestes a se separar e termina envelhecendo junto, depois de finalmente admitir que ainda se ama. É uma conclusão bonita, mas também bastante conveniente. O tempo acelerado obriga os dois a resolver em algumas horas problemas que provavelmente levariam anos para enfrentar.
E então vem a explicação. Os personagens não estão em uma praia amaldiçoada, em uma dimensão alternativa ou em algum fenômeno sobrenatural. Eles são cobaias de uma empresa farmacêutica. O resort está conduzindo experimentos com medicamentos e utiliza a praia porque, por algum motivo, aquele ambiente acelera o envelhecimento. Os hóspedes receberam medicamentos para suas doenças e estão sendo observados até morrer para que os pesquisadores possam avaliar a eficácia dos tratamentos. Maddox e Trent conseguem escapar e descobrem que aquele era o experimento número 73.
Confesso que, quando a explicação chegou, minha reação foi muito mais próxima de um “ah, tá” do que de qualquer surpresa. Não porque a ideia de uma experiência científica seja ruim, mas porque ela diminui o mistério em vez de ampliá-lo. A parte mais interessante do filme era justamente não saber por que aquilo estava acontecendo. Quando descobrimos que existe um grupo de pessoas em um laboratório acompanhando tudo como se estivessem assistindo a um reality show particularmente cruel, a história fica menor. A praia deixa de ser uma ameaça inexplicável e passa a ser apenas o cenário de um experimento farmacêutico absurdamente elaborado.
Ainda assim, não consigo dizer que Tempo seja um filme ruim. Ele tem uma premissa excelente, algumas imagens realmente perturbadoras e uma capacidade muito eficiente de transformar uma coisa abstrata como o envelhecimento em horror físico. O envelhecimento geralmente é tratado no cinema de maneira sentimental, quase sempre como uma questão de memória, família ou passagem da vida. Aqui ele é uma coisa brutal, rápida e inevitável. A pessoa olha para o próprio corpo e percebe que ele está mudando diante dos seus olhos. Não há tempo para se acostumar com a nova idade, muito menos para lamentá-la.
Também gostei da maneira como o filme coloca crianças e adultos na mesma situação, mas em posições completamente diferentes. Trent e Maddox não deveriam estar preocupados com casamento, doença, gravidez ou morte. Eles deveriam estar preocupados com escola, brincadeiras e férias. Só que, naquela praia, a infância desaparece em minutos. O filme tem algo particularmente triste nisso: os personagens adultos sabem o que estão perdendo porque já viveram aquelas fases, enquanto as crianças simplesmente atravessam todas elas sem conseguir compreendê-las. Quando Trent e Kara se apaixonam e começam a construir uma vida juntos, é quase uma paródia cruel da vida adulta acontecendo em velocidade acelerada.
O final, porém, é o tipo de conclusão que me faz gostar menos do filme quando penso nele depois. Os meninos conseguem escapar nadando pelos corais, retornam ao resort e denunciam o experimento. A polícia chega e tudo termina de maneira relativamente simples. Depois de passar quase duas horas vendo pessoas morrerem em uma praia onde aparentemente ninguém consegue escapar, a solução acaba sendo basicamente: eles encontraram a saída. E pronto. A grande conspiração científica é descoberta e os meninos são resgatados.
Talvez Tempo funcionasse melhor se tivesse coragem de permanecer inexplicável. Não precisava responder tudo. Aliás, talvez a melhor versão desse filme fosse aquela em que ninguém descobre exatamente por que o tempo passa daquele jeito. Porque o que realmente assusta na história não é a existência de um laboratório. É perceber que não existe nada que possamos fazer contra o tempo. Em algum momento, todos nós vamos envelhecer, perder pessoas, adoecer e morrer. O filme transforma isso em uma situação literal e bastante eficiente, mas depois sente necessidade de colocar uma explicação científica em cima de algo que já era assustador por si só.
No fim, fiquei com a sensação de que Tempo tinha material para ser um filme muito melhor do que é. Há cenas excelentes escondidas dentro de um roteiro que parece estar sempre a um passo de se tornar muito mais interessante. Gosto da premissa, gosto de algumas das imagens, gosto da crueldade com que ele representa o envelhecimento e acho que algumas mortes são genuinamente incômodas. Mas a explicação final, os diálogos excessivamente expositivos e a sensação de que cada personagem existe para cumprir uma função dentro do experimento acabam tirando força da história. É um filme que me fez pensar bastante durante a sessão, mas que me convenceu bem menos quando terminou.
Ficha técnica
Título: Tempo (Old)
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense
Ano: 2021
Diretor: M. Night Shyamalan
Duração: 109 minutos
Nota: 6/10


