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Menino do Rio (1982)

Menino do Rio (1982)

É difícil assistir a Menino do Rio hoje sem ter a sensação de estar olhando para uma fotografia de um Rio de Janeiro que já não existe — ou talvez de um Rio que nunca tenha existido exatamente daquela maneira. O filme de Antônio Calmon é tão impregnado de praia, sol, corpos bronzeados, pranchas de surfe, asa-delta, jipes, luais e jovens bonitos que, em determinados momentos, parece menos interessado em contar uma história do que em registrar um estilo de vida. E é justamente aí que está boa parte do seu charme. Menino do Rio é um filme profundamente ligado ao imaginário carioca do início dos anos 1980, e talvez seja impossível separar sua narrativa da cidade que ele constrói na tela: um Rio ensolarado, livre, jovem e despreocupado, onde a vida parece acontecer entre um mergulho no mar, uma festa na praia e uma aventura de última hora. Como retrato documental, evidentemente, ele é bastante limitado; como retrato de um imaginário, é fascinante.

Ricardo Valente, interpretado por André de Biase, parece ter sido criado para representar exatamente esse ideal de juventude. Surfista, praticante de asa-delta, fabricante de pranchas e dono de uma vida social movimentada, ele vive como se não houvesse nenhuma razão para pensar muito no futuro. O personagem tem uma liberdade quase absoluta e parece perfeitamente integrado ao ambiente em que vive. A câmera frequentemente o acompanha em movimento, seja sobre uma prancha, seja voando de asa-delta ou dirigindo seu jipe, e essa relação entre o corpo de Valente e a paisagem é importante para entender o filme. Ele não é apenas um personagem que mora no Rio; ele parece ser uma extensão daquela cidade idealizada. O mar, o céu e a praia funcionam quase como prolongamentos de sua personalidade. Por isso, gosto muito mais de Valente como representação de uma determinada ideia de masculinidade e juventude do que propriamente como personagem complexo. Ele é bonito, corajoso, esportista, desejado pelas mulheres e aparentemente livre de grandes preocupações materiais. É praticamente a personificação de uma fantasia de vida à beira-mar.

Essa fantasia, porém, começa a ser atravessada por responsabilidades quando Valente conhece Pepeu, um adolescente que perdeu os pais e fugiu de casa. Ao acolhê-lo e ensiná-lo a surfar em troca de trabalho na fabricação de pranchas, Valente assume pela primeira vez uma responsabilidade que vai além de si mesmo. A relação entre os dois é, para mim, uma das partes mais interessantes do filme justamente porque introduz uma dimensão de afeto e responsabilidade em uma história que poderia facilmente se limitar ao romance e à aventura. Pepeu é alguém que depende de Valente, e isso cria uma espécie de contraste entre a vida despreocupada do protagonista e a necessidade de amadurecimento que começa a surgir. O problema é que o roteiro não desenvolve essa relação tanto quanto poderia. A morte de Pepeu, depois que ele entra no mar para tentar ajudar Valente, deveria ser um acontecimento capaz de transformar completamente o protagonista, mas o filme passa relativamente rápido por suas consequências. A tragédia é forte em termos narrativos, mas senti falta de um tempo maior para que o luto tivesse peso. O romance com Patrícia volta a ocupar o centro da história pouco depois, e isso faz com que a morte de Pepeu pareça, em certa medida, uma ferramenta dramática para conduzir Valente à maturidade, em vez de uma perda verdadeiramente elaborada.

A história de amor também é onde mais sinto as limitações do filme. Patrícia, interpretada por Cláudia Magno, é apresentada como modelo, noiva de Adolfinho e antiga paixão do pai de Valente. Existe material suficiente aí para construir um melodrama bastante interessante, envolvendo diferenças de idade, ciúmes, relações familiares e escolhas afetivas, mas o roteiro prefere trabalhar essas situações de maneira relativamente superficial. Patrícia é uma personagem que poderia ter muito mais autonomia e profundidade, mas frequentemente aparece em função dos homens ao seu redor: está noiva de um, apaixonada por outro e teve um relacionamento com um terceiro. A personagem é desejada, disputada e observada, mas nem sempre temos a sensação de que estamos realmente acompanhando o que ela deseja para a própria vida. Ainda assim, existe uma química agradável entre ela e Valente, e os dois combinam perfeitamente com a atmosfera do filme. São personagens que parecem pertencer ao mesmo cartão-postal, e talvez seja justamente isso que faça o romance funcionar apesar de suas fragilidades.

O que mais me interessa em Menino do Rio, no entanto, é a maneira como Antônio Calmon transforma a cidade em uma espécie de personagem. O Rio não está apenas no cenário; está na estrutura do filme. A praia, o mar, as montanhas, as casas, os carros, as festas e os corpos são constantemente filmados como elementos de um mesmo universo visual. A fotografia valoriza os espaços abertos e a luminosidade natural, criando uma atmosfera quase permanentemente ensolarada. Existe uma sensualidade muito forte na maneira como o filme filma o corpo jovem, principalmente o corpo masculino de Valente, associado ao esporte, ao movimento e à liberdade. Ao mesmo tempo, existe algo quase publicitário nessa estética, como se estivéssemos diante de uma campanha de turismo extremamente longa sobre o Rio de Janeiro. E digo isso sem necessariamente considerar uma crítica negativa. Menino do Rio sabe exatamente qual fantasia quer vender e a sustenta com muita coerência visual.

Talvez por isso eu tenha gostado tanto de observar os detalhes de direção de arte, figurino e composição das cenas. É um filme que hoje funciona quase como uma cápsula visual de sua época. As roupas, os penteados, os carros, os objetos, os ambientes e a própria maneira como os personagens ocupam os espaços produzem uma imagem muito específica do Brasil do início dos anos 1980. Existe uma simplicidade visual que me agrada porque ela não parece excessivamente preocupada em transformar cada plano em uma composição sofisticada. A beleza vem principalmente dos próprios ambientes e da maneira como a câmera os utiliza. O mar, especialmente, ocupa um lugar central nessa estética. Ele representa liberdade, aventura e prazer, mas também perigo. Para Valente, entrar no mar é uma maneira de estar mais próximo de si mesmo; é onde ele parece realmente confortável. Mas é justamente o mar que também produz a tragédia de Pepeu. A mesma paisagem que simboliza liberdade pode se transformar, em poucos minutos, em espaço de morte.

Essa ambiguidade é interessante porque o filme passa boa parte do tempo romantizando o risco. A asa-delta, o surfe, a velocidade, as festas e as aventuras fazem parte de um universo em que a imprudência parece ser quase uma virtude. Valente é admirado justamente porque não parece ter medo. Mas a morte de Pepeu revela o lado mais sombrio dessa liberdade. Quando Valente, deprimido depois do rompimento com Patrícia, decide entrar no mar em condições perigosas, ele transforma uma característica de sua personalidade em uma ameaça para si mesmo e para quem está ao seu redor. A presença de Pepeu nessa sequência torna tudo ainda mais trágico, porque o menino morre tentando acompanhar alguém que deveria estar cuidando dele. É uma consequência bastante dura para um filme tão leve, e talvez eu tivesse gostado mais da obra se ela tivesse permitido que essa contradição permanecesse presente por mais tempo.

Também acho curioso observar a masculinidade construída pelo filme. Valente é praticamente um catálogo de atributos associados ao homem ideal daquele imaginário: é bonito, atlético, sexualmente desejável, independente, aventureiro e não parece precisar se esforçar para conquistar nada. As mulheres se interessam por ele, os amigos gostam dele e ele se movimenta pelo Rio com uma confiança absoluta. Mas existe algo de infantil nessa liberdade. Valente não parece pensar muito nas consequências de suas decisões e, quando sofre emocionalmente, sua primeira reação é se colocar em outra situação de risco. O filme admira esse comportamento, mas também acaba mostrando suas consequências. O amadurecimento do personagem, entretanto, acontece de maneira muito rápida, e talvez por isso eu não consiga enxergá-lo como um protagonista especialmente complexo. Ele funciona melhor como símbolo de uma época e de um modo de vida do que como estudo psicológico.

A trilha sonora reforça ainda mais essa sensação de cápsula temporal. As músicas não estão ali apenas para acompanhar as cenas; elas ajudam a construir o imaginário de juventude que sustenta o filme. Existe uma relação muito forte entre música, praia e movimento, e isso faz com que Menino do Rio seja uma experiência bastante sensorial. É um filme que muitas vezes me interessa mais pelo que me faz sentir do que pelo que está efetivamente contando. Em vários momentos, tenho a impressão de estar diante de um registro de uma juventude que acreditava que a vida poderia continuar indefinidamente daquela maneira. O futuro parece distante, quase inexistente. Os personagens vivem o presente porque acreditam que sempre haverá tempo para resolver os problemas depois. A tragédia de Pepeu é justamente a interrupção brutal dessa fantasia.

É também por isso que considero Menino do Rio mais interessante quando penso nele como retrato de uma ideia de juventude do que quando o analiso como romance ou drama. O filme é bastante ingênuo em algumas de suas soluções narrativas e tem personagens que poderiam ser mais bem desenvolvidos, mas existe uma identidade muito clara em sua proposta. Ele quer mostrar uma cidade desejável, uma juventude desejável e uma vida desejável. Não está tentando fazer uma análise social abrangente do Rio de Janeiro, e seria injusto cobrar dele algo que provavelmente nunca pretendeu oferecer. Ao mesmo tempo, é impossível não perceber o quanto esse retrato é restrito: quase tudo acontece dentro de uma bolha de jovens da Zona Sul, e a cidade real, com suas desigualdades e contradições, praticamente desaparece. O Rio que vemos é uma fantasia de liberdade acessível a um grupo muito específico de pessoas.

O final resume muito bem tanto o charme quanto as limitações do filme. Depois de tudo o que aconteceu, Valente aparece de asa-delta na cerimônia de casamento de Patrícia, os dois se reencontram, se beijam e correm para o jipe. É uma conclusão melodramática, improvável e quase ingênua, mas também completamente coerente com o universo que Antônio Calmon construiu. Menino do Rio não quer terminar com a realidade cobrando suas dívidas; quer terminar com uma imagem de liberdade. O céu, o mar, o carro, o casal jovem e a possibilidade de começar novamente. É como se o filme quisesse preservar aquele Rio para sempre dentro de um plano de cinema, antes que o tempo pudesse alcançá-lo.

Por isso, embora eu tenha várias ressalvas em relação ao roteiro e à construção dos personagens, não consigo negar o encanto que existe em Menino do Rio. É um filme irregular, datado em vários aspectos e bastante limitado em sua representação da cidade e das relações entre seus personagens, mas também é um filme extremamente consciente da atmosfera que deseja criar. E talvez seja justamente isso que o torne interessante tantos anos depois. Ele não me mostra necessariamente o Rio de Janeiro que existia em 1982; mostra o Rio de Janeiro que o cinema brasileiro queria guardar na memória. Um lugar de praias ensolaradas, corpos jovens, liberdade, aventura e romances que podem ser resolvidos com um beijo antes de partir em um jipe. A realidade é muito mais complicada do que isso, mas talvez a função de certos filmes seja justamente criar, por algumas horas, um lugar para onde gostaríamos de voltar.

Nota: 7/10

Ficha técnica

Título: Menino do Rio
Ano: 1982
País: Brasil
Direção: Antônio Calmon
Roteiro: Antônio Calmon
Gênero: Aventura / Romance
Duração: 96 minutos
Elenco: André de Biase, Cláudia Magno, Sérgio Mallandro, Evandro Mesquita, Sandra Bréa, Jorge Fernando e José de Abreu
Direção de fotografia: Edgar Moura
Montagem: Vera Freire
Trilha sonora: vários artistas