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Mães Paralelas (2021)

Mães Paralelas (2021)

Sempre entro em um filme de Pedro Almodóvar com uma expectativa muito alta. Não apenas porque é meu diretor preferido, mas porque poucos diretores têm uma identidade visual e narrativa tão reconhecível. Basta um enquadramento, uma combinação de cores ou um apartamento cuidadosamente decorado para sabermos que estamos em um universo almodovariano. Talvez por isso Mães Paralelas (Madres Paralelas, 2021) tenha me deixado uma sensação estranha.

Não acho que seja um filme ruim, sou, em geral, condescendente e tendo a defender seus filmes, como fiz ferrenhamente com Amantes Passageiros. Neste, há momentos de enorme sensibilidade, uma direção elegante e uma atuação excelente de Penélope Cruz. Ainda assim, tive a impressão de assistir a duas histórias diferentes tentando ocupar o mesmo espaço. Separadamente, ambas funcionam. Juntas, nunca encontrei o equilíbrio que esperava.

A premissa é a seguinte: Janis, uma fotógrafa, conhece Ana, uma jovem prestes a dar à luz. As duas dividem o mesmo quarto na maternidade e desenvolvem uma relação que continuará depois do nascimento das crianças. Paralelamente, Janis tenta levar adiante um antigo projeto familiar: localizar uma vala comum onde seu bisavô e outros homens foram executados durante a Guerra Civil Espanhola. São duas narrativas conectadas pela ideia de maternidade, mas também pela memória.

E talvez seja justamente aí que o filme encontre sua ambição. Almodóvar parece interessado em estabelecer um paralelo entre as histórias individuais das personagens e a memória coletiva da Espanha. Assim como uma família precisa conhecer seu passado para compreender quem é, um país também precisa enfrentar seus traumas históricos.

É uma ideia poderosa. O problema, para mim, está na maneira como essas duas dimensões se articulam. Durante boa parte do filme, a trama íntima ocupa completamente a narrativa. A relação entre Janis, Ana e suas filhas é construída com calma, permitindo que o espectador acompanhe as ambiguidades morais da protagonista. Quando a questão da memória histórica retorna com mais força, especialmente no último ato, senti que ela reaparece mais como uma necessidade temática do que como consequência natural daquilo que vinha sendo desenvolvido. Eu nunca tive a impressão de que dependessem um do outro para existir.

Ainda assim, há muito o que admirar. Penélope Cruz entrega uma atuação impressionantemente contida. Diferentemente de outras personagens marcantes de sua parceria com Almodóvar, Janis quase nunca explode emocionalmente. Sua interpretação acontece nos pequenos gestos, nas hesitações. É uma personagem constantemente dividida entre aquilo que deseja fazer e aquilo que acredita ser moralmente correto. Essa contenção combina muito com a maturidade do próprio diretor.

Ao longo das últimas décadas, Almodóvar foi abandonando parte do excesso melodramático que caracterizava seus primeiros filmes. Ainda existe melodrama em Mães Paralelas, evidentemente, mas ele surge de maneira muito mais discreta. O filme parece confiar menos nos grandes acontecimentos e mais nas consequências emocionais que eles provocam.

Visualmente, ainda reconhecemos a assinatura do diretor. As cores continuam ocupando um papel narrativo importante. Vermelhos intensos, azuis profundos e amarelos vibrantes aparecem cuidadosamente distribuídos pelos cenários, figurinos e objetos. Seus apartamentos parecem sempre habitados, organizados por pessoas reais, mas ao mesmo tempo carregam uma composição quase pictórica.

Há enquadramentos que poderiam facilmente ser fotografias. Mesmo quando trata de temas dolorosos, o filme nunca abandona sua beleza visual. Em alguns momentos, porém, tive a impressão de que essa elegância trabalha contra a própria narrativa. Existe tanto controle estético que determinadas cenas acabam parecendo excessivamente calculadas. O sofrimento permanece bonito demais.

Talvez essa seja uma das poucas vezes em que senti certa distância emocional em um filme de Almodóvar. Outro aspecto que me chamou atenção foi a maneira como o diretor trata a maternidade. Ele evita qualquer idealização. Ser mãe, aqui, não aparece como destino natural nem como realização absoluta. O filme insiste em mostrar que a maternidade também envolve medo, culpa, escolhas moralmente difíceis e relações profundamente contraditórias.

Nesse sentido, Mães Paralelas permanece coerente com uma característica constante da filmografia de Almodóvar: seu interesse por personagens femininas complexas, que nunca podem ser reduzidas a arquétipos. Ainda assim, não consegui deixar de pensar que a força política do filme aparece apenas de maneira intermitente.

A decisão de abordar os desaparecidos da Guerra Civil Espanhola é extremamente importante. Durante décadas, esse foi um tema tratado com enorme silêncio dentro da própria Espanha. Almodóvar procura romper esse silêncio e afirmar a necessidade da memória.

A questão é que, para mim, essa discussão chega tarde. Isso não diminui o talento de Almodóvar. Mesmo um filme que considero menor dentro de sua carreira continua sendo dirigido com enorme elegância, interpretado por grandes atrizes e repleto de soluções visuais que muitos cineastas passariam uma vida tentando alcançar.

Mas também é inevitável comparar Mães Paralelas com obras como Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Volver ou Carne Trêmula. Nesses filmes, forma e conteúdo parecem caminhar exatamente na mesma direção. Saí da experiência ainda admirando muito o cineasta, mas menos emocionada do que esperava.

Nota: ★★★☆☆ (6/10)


Ficha técnica

Título original: Madres Paralelas
Título no Brasil: Mães Paralelas
Ano: 2021
País: Espanha
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Gênero: Drama
Duração: 123 minutos
Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón e Rossy de Palma
Direção de fotografia: José Luis Alcaine
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Montagem: Teresa Font
Distribuição: Sony Pictures Classics (internacional)