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Pérfida (1941)

Pérfida (1941)

Regina Giddens não precisa levantar a voz para ser cruel. Ela entra em uma sala, senta-se, observa os irmãos e espera. Enquanto os outros discutem, negociam e fazem planos, Regina fica calculado. E é por isso que, para mim, Bette Davis está tão assustadora em Pérfida (The Little Foxes, 1941).

Eu já vinha reassistindo a alguns filmes de Bette Davis que vi na adolescência e começava a perceber uma coisa curiosa: por mais diferentes que sejam suas personagens, existe nela uma capacidade extraordinária de tornar uma mulher desagradável com facetas distintas — indo da louca infantil à cínica cruel. Regina é a mais novelesca, no sentido brasileiro mesmo, e uma das mais difíceis de gostar. Ela é manipuladora, ambiciosa, classista e disposta a usar a própria família como instrumento para conseguir aquilo que deseja.

E, ainda assim, Pérfida é um dos meus filmes preferidos com a atriz, perdendo só para “O que terá acontecido à Baby Jane?”. O longa acompanha a família Hubbard, no sul dos Estados Unidos do início do século XX, enquanto Regina e seus irmãos, Ben e Oscar, tentam viabilizar a construção de uma fábrica de algodão. O empreendimento pode transformar a família em uma potência econômica, mas existe um problema: o dinheiro necessário está nas mãos de Horace, marido de Regina, que está gravemente doente e não demonstra qualquer interesse em participar dos negócios.

A partir daí, Pérfida se transforma em uma história sobre dinheiro e sobre o que as pessoas são capazes de fazer quando associal riqueza à liberdade. Regina não quer apenas ser rica, ela quer deixar de depender dos homens ao seu redor. Seus irmãos têm o capital, os negócios e a liberdade para circular pelo mundo dos homens. Regina tem a capacidade de manipular as relações familiares. Existe uma contradição na protagonista: ela é vítima de uma sociedade que limita suas possibilidades, mas também reproduz com enorme violência as mesmas estruturas que a oprimem. Quer conquistar autonomia, mas não hesita em destruir outras pessoas para consegui-la.

William Wyler não justifica as atitude dela, mas também não precisa transformá-la em uma vilã absoluta. O que ele faz é simplesmente mostrar uma mulher que aprendeu a sobreviver dentro de um sistema cruel e decidiu tornar-se tão cruel quanto ele. Essa crueldade fica evidente na maneira como ela trata Horace. Herbert Marshall interpreta um personagem fisicamente fragilizado, mas moralmente muito mais íntegro do que aqueles que o cercam. Sua doença faz com que a violência de Regina se torne ainda mais evidente: ele tenta recuperar algum controle sobre a própria vida enquanto Regina já está planejando o que fazer com o dinheiro depois de sua morte.

Já Teresa Wright interpreta Alexandra, a filha de Regina com uma delicadeza que funciona como contraponto perfeito à mãe. Alexandra ainda não compreende completamente o mundo dos adultos, mas percebe que existe alguma coisa profundamente errada naquela casa. Regina quer ensinar Alexandra a ser como ela: forte e incapaz de depender de alguém. Alexandra, no entanto, começa a perceber que existe uma diferença enorme entre ser forte e simplesmente deixar de se importar com os outros.

A mais dolorosa de todas as relações, porém, é a de Birdie Hubbard, interpretada por Patricia Collinge. Birdie é uma mulher destruída pela própria família, pelo casamento e pelo alcoolismo, e sua presença torna impossível enxergar os Hubbard apenas como uma caricatura de família gananciosa.

Visualmente, Pérfida também me chamou atenção pela maneira como William Wyler transforma a casa em um espaço de poder. Quase toda a narrativa acontece dentro daquele ambiente, e os personagens estão constantemente entrando e saindo dos cômodos, subindo escadas, observando uns aos outros de longe. Wyler também utiliza a profundidade de campo de maneira particularmente interessante. Muitas vezes, personagens permanecem ao fundo enquanto uma conversa acontece em primeiro plano. Isso cria a sensação de que ninguém está realmente sozinho. Sempre existe alguém observando, escutando ou esperando uma oportunidade. Na segunda vez que assisti, ficou claro pra mim que Pérfida é um filme sobre vigilância e sobre saber que qualquer palavra pode ser usada contra você.

A fotografia em preto e branco reforça essa atmosfera. As sombras são duras, os interiores parecem pesados e a iluminação frequentemente destaca os rostos como se estivéssemos observando atores diante de um palco.
E então chegamos à cena mais famosa do filme. Horace tenta subir as escadas e Regina decide não ajudar. O que vemos é apenas uma mulher parada diante de um homem que precisa dela, sem qualquer malícia ou brilho no olhar, sem meio sorriso ou esfregar de mãos. Bette Davis é extraordinária nesse momento porque não precisa demonstrar prazer com a situação. Regina simplesmente observa.

Também acho interessante como o título brasileiro acaba sendo bastante direto. Regina é, de fato, pérfida. Mas o título original, The Little Foxes, me parece ainda mais interessante. As “pequenas raposas” são aqueles personagens que vivem farejando oportunidades, esperando a hora certa para atacar e acumulando pequenas traições até que a família inteira se torne irreconhecível.

Regina Giddens não é uma mulher que eu gostaria de conhecer, mas é uma personagem que eu poderia assistir por horas.

Nota: ★★★★☆ (9/10)


Ficha técnica

Título original: The Little Foxes
Título no Brasil: Pérfida
Ano: 1941
País: Estados Unidos
Direção: William Wyler
Roteiro: Lillian Hellman, baseado em sua própria peça teatral The Little Foxes
Gênero: Drama / Melodrama
Duração: 116 minutos
Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, Teresa Wright, Richard Carlson, Dan Duryea, Patricia Collinge e Charles Dingle
Direção de fotografia: Gregg Toland
Trilha sonora: Meredith Willson
Montagem: Daniel Mandell
Distribuição: Samuel Goldwyn Productions / RKO Radio Pictures

O filme recebeu nove indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz para Bette Davis e indicações para Teresa Wright e Patricia Collinge.