O sacrifício do cervo sagrado (2021)
Yorgos Lanthimos tem uma habilidade especial para criar situações em que todo mundo parece estar se comportando de maneira completamente absurda e, ainda assim, ninguém dentro da história parece perceber o absurdo. O Sacrifício do Cervo Sagrado é exatamente esse tipo de filme. A família de Steven parece perfeita, a casa é bonita, os filhos são educados, ele é um cirurgião respeitado e Anna também tem uma carreira bem-sucedida. Só que existe alguma coisa estranha naquela família desde o primeiro minuto. Os diálogos são artificiais, os gestos são frios e as pessoas falam sobre coisas terríveis com uma tranquilidade quase burocrática. É desconfortável, engraçado de um jeito muito errado e, principalmente, bastante esquisito.
Steven é um cirurgião cardíaco que mantém uma relação misteriosa com Martin, um adolescente de 16 anos. Ele dá presentes caros ao garoto, leva-o para passear e passa um tempo considerável com ele, mas não explica para a família quem Martin realmente é. Quando o menino aparece no hospital para agradecer o relógio que ganhou, Steven fica claramente incomodado e mente para um colega, dizendo que ele é amigo de Kim. Aos poucos descobrimos que Martin é filho de um homem que morreu durante uma cirurgia realizada por Steven. Para Martin, portanto, aquilo não foi simplesmente uma morte durante um procedimento médico. Steven matou seu pai. E agora precisa pagar por isso.
A partir daí, o filme entra em um território que eu acho muito interessante: o de uma espécie de maldição absolutamente absurda tratada com a maior seriedade possível. Martin diz a Steven que primeiro as pernas dos filhos vão parar de funcionar, depois eles deixarão de comer e, finalmente, começarão a sangrar pelos olhos. A única maneira de interromper tudo é sacrificando um membro da família. É uma premissa completamente insana, mas Lanthimos nunca tenta torná-la particularmente explicável. Martin simplesmente apresenta as regras e Steven precisa lidar com elas. O que torna tudo ainda mais desconfortável é justamente a falta de reação adequada dos personagens. Ninguém parece perguntar “mas que porra é essa?”. Eles simplesmente começam a considerar seriamente quem deveria morrer.
E essa frieza é, para mim, a melhor coisa do filme e também aquilo que mais me afasta dele. Lanthimos constrói uma família tão emocionalmente estranha que é difícil criar qualquer identificação com aquelas pessoas. Steven, Anna, Kim e Bob parecem conversar como se estivessem lendo as falas de um manual de comportamento humano. Isso dá ao filme uma atmosfera muito particular, mas também faz com que algumas situações pareçam mais exercícios de estilo do que acontecimentos envolvendo pessoas de verdade. A sexualidade é tratada da mesma maneira. Anna pedir ao marido que escolha uma posição para fazer sexo enquanto ela permanece deitada, imóvel, como se estivesse sob anestesia, é uma das cenas que imediatamente estabelece que aquela não é uma família normal. E quando Anna troca informações sobre o caso com o anestesista em troca de masturbá-lo no carro, o filme simplesmente segue em frente como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Martin é provavelmente o personagem mais interessante porque nunca sabemos exatamente até onde vai sua capacidade de manipulação. Ele parece educado, gentil e até inocente, mas existe alguma coisa ameaçadora nele desde o começo. Quando conta a Steven que ele precisa sacrificar alguém, não parece estar fazendo uma ameaça impulsiva. Parece estar apresentando uma regra que considera perfeitamente razoável. E talvez seja isso que torne o personagem tão perturbador. Ele não precisa gritar, correr ou fazer grandes demonstrações de violência. Basta olhar para Steven e explicar calmamente que sua família vai morrer se ele não escolher alguém.
Steven, por outro lado, passa boa parte do filme tentando encontrar uma saída racional para uma situação que não tem nenhuma. Primeiro procura explicações médicas. Depois tenta descobrir se existe alguma relação entre a morte do pai de Martin e o problema dos filhos. Quando percebe que não consegue resolver aquilo racionalmente, parte para a violência e sequestra o garoto, mantendo-o preso no porão. É uma reação completamente desesperada, mas nem isso resolve. Anna, inclusive, acaba sendo uma das personagens mais frias da história. Quando solta Martin, sua justificativa é praticamente administrativa: mantê-lo preso não está resolvendo o problema. Então eles precisam voltar à questão principal: quem vai morrer?
A conversa sobre qual dos filhos deveria ser sacrificado é talvez o momento em que o filme mais claramente revela sua crueldade. Steven chega a perguntar ao diretor da escola qual dos dois é melhor academicamente. Anna considera que eles podem ter outro filho. É uma situação horrível, mas a maneira como os dois discutem a possibilidade de sacrificar uma criança é tão seca que existe quase um humor negro involuntário. É difícil não rir de nervoso. Ao mesmo tempo, existe uma ideia interessante por trás disso: quando colocados diante de uma escolha impossível, até pessoas aparentemente amorosas podem começar a racionalizar o valor dos próprios filhos.
O problema é que O Sacrifício do Cervo Sagrado exige bastante paciência. A repetição dos diálogos, a atuação deliberadamente artificial e o comportamento estranho dos personagens são interessantes no começo, mas em alguns momentos senti que o filme estava insistindo demais na própria fórmula. Lanthimos parece tão interessado em manter seus personagens emocionalmente distantes que acaba dificultando minha relação com o que está acontecendo. Eu entendo a proposta, acho a atmosfera ótima, mas nem sempre me importo com o destino daquelas pessoas.
Também acho que a referência ao mito de Ifigênia e ao sacrifício do cervo funciona melhor como uma camada temática do que como algo que precise ser compreendido literalmente. Steven matou o pai de Martin durante uma cirurgia e agora precisa fazer um sacrifício para compensar aquela morte. É uma espécie de justiça mitológica aplicada a uma família moderna, com um cirurgião arrogante no lugar do herói trágico. A profissão de Steven também não parece escolhida por acaso: ele é justamente alguém acostumado a decidir quem pode ser salvo e quem pode morrer. De repente, ele é colocado na posição de ter que fazer a escolha mais terrível possível.
O final é ótimo justamente porque é seco. Steven coloca a família na sala, cobre os olhos de todos e começa a girar com uma arma na mão. Ele atira até acertar Bob. Não existe uma grande catarse, nenhum discurso emocionante, nenhuma reconciliação familiar. Depois, Steven, Anna e Kim estão em um restaurante e Martin aparece no balcão. Os três simplesmente se levantam e vão embora. É uma conclusão quase anticlimática, mas combina muito com o filme. A vida continua. Steven fez sua escolha e agora precisa conviver com ela.
Minha maior dificuldade com O Sacrifício do Cervo Sagrado é justamente essa distância emocional. Eu admiro muito mais o filme do que gosto dele. A direção é excelente, a fotografia cria uma atmosfera fria e opressiva e Lanthimos consegue transformar situações banais em algo profundamente desconfortável. A história também tem uma premissa muito boa e algumas cenas ficam na cabeça justamente porque são absurdas e perturbadoras. Mas em vários momentos tive a sensação de que estava assistindo a um experimento de estilo, e não necessariamente a uma história que eu precisava acompanhar até o fim.
Ainda assim, é uma experiência interessante. É estranho, cruel, engraçado e desconfortável na medida certa para quem gosta desse tipo de cinema. E gosto especialmente da maneira como o filme nunca tenta facilitar as coisas para o espectador. Não há uma explicação conveniente para Martin, não sabemos exatamente quais são os limites dos poderes dele e não temos certeza se estamos diante de uma maldição real ou de alguma outra coisa. A única certeza é que Steven está preso em uma situação em que qualquer decisão será horrível.
No fim, fiquei com a impressão de que O Sacrifício do Cervo Sagrado é um filme muito bom, mas que exige que eu entre completamente no jogo de Lanthimos. Quando entro, funciona muito bem. Quando saio um pouco dessa lógica, começo a enxergar a repetição, a artificialidade e a distância emocional. Gosto da ideia mais do que da execução em alguns momentos, mas não dá para negar que é uma experiência muito particular. E talvez seja justamente isso que eu mais gosto em Lanthimos: mesmo quando o filme não me conquista completamente, dificilmente parece com qualquer outra coisa que eu poderia ter colocado para assistir naquela noite.
Ficha técnica
Título: O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer)
País: Irlanda, Reino Unido, França
Gênero: Terror
Ano: 2017
Diretor: Yorgos Lanthimos
Duração: 121 minutos
Nota: 7/10


