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Um lugar ao sol (1951)

Um lugar ao sol (1951)

Um Lugar ao Sol é um daqueles filmes que parecem ter sido construídos para provocar uma pergunta bastante simples: até onde alguém é capaz de ir quando percebe que a vida que deseja está do outro lado de tudo aquilo que possui? George Eastman não começa a história como um assassino. Ele começa como um rapaz pobre, inseguro e ambicioso, que chega à Califórnia carregando a promessa de uma vida melhor e a certeza de que, se trabalhar o suficiente, talvez consiga finalmente pertencer ao mundo do qual sempre esteve excluído. O problema é que George não quer apenas melhorar de vida. Ele quer desesperadamente ser aceito por uma classe social que o observa de cima, e quando finalmente consegue se aproximar dela, descobre que não é tão fácil abrir mão do lugar de onde veio. É dessa contradição que o filme tira seu drama, embora eu ache que ele seja muito mais interessante quando observa o desejo e a desigualdade do que quando se transforma propriamente em um thriller moral.

Montgomery Clift é perfeito para esse papel justamente porque George parece estar sempre desconfortável dentro do próprio corpo. Ele tem aquele rosto bonito e melancólico de alguém que parece estar pensando demais, mas nunca sabe exatamente o que fazer com aquilo que pensa. George é ambicioso, mas não é particularmente corajoso. É inteligente, mas não o suficiente para compreender as consequências das próprias decisões. É apaixonado por Angela, mas continua preso a Alice. E talvez o mais interessante seja que ele não parece amar nenhuma das duas exatamente da mesma maneira. Alice representa a vida que ele quer abandonar; Angela, a vida que ele acredita finalmente merecer. Uma é a lembrança de sua condição social e a outra é a fantasia de ascensão.

O filme acerta muito ao colocar as duas mulheres em posições tão diferentes. Alice, interpretada por Shelley Winters, não é exatamente uma personagem fácil de suportar. Ela pressiona George, insiste no casamento e parece incapaz de compreender que ele está cada vez mais interessado em outra mulher. Mas existe uma crueldade particular em perceber que ela também está encurralada. Grávida e solteira em uma sociedade extremamente moralista, Alice sabe que suas possibilidades são muito menores do que as de George. Ele pode simplesmente desaparecer, mudar de cidade, conseguir um emprego melhor e tentar recomeçar. Ela não. O desespero dela não surge apenas de uma personalidade inconveniente, mas de uma situação em que praticamente todas as alternativas são ruins.

E é justamente aí que Um Lugar ao Sol me parece mais interessante do que em sua trama policial. O filme está constantemente falando sobre classe social, mas faz isso através do desejo. George não olha para Angela apenas porque ela é bonita. Ele olha para tudo aquilo que ela representa. As roupas, as festas, a casa, os amigos, o lago, o modo como as pessoas conversam e até a maneira como ela parece ocupar os espaços. Ele percebe que existe um mundo ao qual nunca teve acesso e, quando Angela finalmente demonstra interesse por ele, aquilo funciona quase como uma autorização para que ele imagine que pode pertencer àquele lugar.

A sequência do aniversário de George é ótima justamente porque mostra isso sem precisar explicar demais. Alice prepara um jantar simples para os dois, esperando comemorar o aniversário do namorado, enquanto George está na festa da família rica, completamente deslocado. Ele chega até a se esconder em um cômodo para jogar sinuca sozinho. É uma imagem bastante eficiente: ele está fisicamente dentro daquele ambiente, mas socialmente continua do lado de fora. Quando Angela aparece e começa a conversar com ele, George finalmente encontra alguém que o faz sentir que pertence àquele mundo. Enquanto isso, Alice está em casa esperando por ele com a comida esfriando.

O anúncio da gravidez muda tudo porque, de repente, o passado de George volta para cobrar seu preço. Até aquele momento, ele conseguia manter os dois mundos separados. Durante o dia, era o trabalhador pobre tentando crescer dentro da empresa do tio. À noite, podia imaginar que era o homem que frequentava festas e se apaixonava por uma socialite. A gravidez torna essa fantasia impossível. Alice passa a exigir uma decisão e George percebe que escolher significa perder alguma coisa.

A partir daí, o filme vai ficando cada vez mais sufocante. George não quer matar Alice porque a odeia. Ele quer eliminá-la porque não consegue imaginar uma vida em que precise abrir mão de Angela. Isso torna sua decisão ainda mais repulsiva. Não existe uma grande vingança, não existe uma justificativa extraordinária, não existe sequer uma paixão avassaladora que explique o crime. Existe apenas um homem fraco diante da possibilidade de perder aquilo que finalmente acredita ter conquistado.

A cena da canoa é, naturalmente, o centro do filme. E gosto bastante de como George inicialmente parece realmente disposto a desistir. Ele leva Alice até o lago, mas o nervosismo toma conta dele. Por alguns instantes, parece que talvez ainda exista uma possibilidade de retorno. Talvez ele possa admitir o que fez, casar-se com Alice, aceitar a criança e abandonar aquela fantasia de ascensão social. Só que então Alice se levanta, o barco vira e tudo acontece rápido demais. O que poderia ter sido um acidente passa a carregar o peso de uma intenção que George já havia formulado.

É uma situação particularmente cruel porque o filme não precisa transformar George em um assassino frio. Ele é muito mais assustador justamente por ser covarde. Ele não tem a coragem de matar Alice diretamente, mas teve coragem suficiente para colocá-la em uma situação na qual ela poderia morrer. Depois, quando está sendo julgado, insiste que não a matou porque não teve coragem de concluir o plano. É quase uma tentativa infantil de separar intenção e responsabilidade: como ele não a empurrou para a água, então talvez não seja realmente culpado. O filme, obviamente, não aceita essa lógica.

Ainda assim, confesso que a segunda metade me interessa menos do que a primeira. Depois que Alice morre, Um Lugar ao Sol se transforma em um drama judicial e moral mais convencional. George é investigado, preso, julgado e condenado, e a narrativa começa a caminhar inevitavelmente para a execução. A tensão existe, mas eu senti falta da complexidade que havia na construção do personagem antes do crime. O filme é muito mais fascinante quando mostra George desejando uma vida que não pode ter do que quando precisa decidir o destino dele.

Também acho que Angela funciona melhor como símbolo do que como personagem. Elizabeth Taylor está lindíssima e a relação entre os dois tem uma força romântica evidente, mas Angela é tão associada ao mundo privilegiado que George deseja que às vezes parece menos uma pessoa e mais uma representação de tudo aquilo que ele acredita que o dinheiro pode oferecer. Talvez seja justamente essa a intenção, mas isso faz com que eu tenha dificuldade de me envolver emocionalmente com o romance na mesma proporção em que o filme espera.

A fotografia, por outro lado, é belíssima. Há uma atmosfera quase irreal em várias cenas, principalmente nas sequências junto ao lago, e isso combina muito com a maneira como George enxerga aquela vida. O mundo de Angela parece bonito demais para ser verdadeiro porque, para ele, é literalmente uma fantasia. O contraste entre os ambientes da fábrica, da casa simples de Alice e das festas da elite também reforça visualmente a distância entre essas duas vidas. George está sempre tentando atravessar essa fronteira, e o filme parece interessado em mostrar que talvez ele nunca pudesse atravessá-la completamente.

O que mais gosto em Um Lugar ao Sol é que ele não apresenta a ambição de George como algo necessariamente ruim. Querer uma vida melhor não é um defeito. Querer dinheiro, reconhecimento, amor e conforto não deveria transformar ninguém em vilão. O problema aparece quando George começa a acreditar que algumas pessoas precisam desaparecer para que ele possa ocupar o lugar que deseja. E talvez exista algo bastante contemporâneo nisso: a ideia de que nossa felicidade depende de eliminar tudo aquilo que nos lembra da pessoa que fomos.

O final, com George caminhando para a cadeira elétrica enquanto se lembra de Angela, é bastante cruel porque a última coisa que permanece para ele não é exatamente Alice. É a vida que ele imaginou ter. Ele morre olhando para uma fantasia, e isso talvez seja mais adequado do que qualquer outra conclusão. George não conseguiu chegar ao lugar ao sol. Passou o filme inteiro tentando alcançá-lo e, no fim, descobriu que a distância até lá era muito maior do que imaginava.

Eu gosto bastante de Um Lugar ao Sol, principalmente pela primeira metade e pela maneira como George é construído como alguém dividido entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser. Mas não consigo dizer que o filme me atingiu com a mesma força do que outras obras do período. A parte moral e judicial acaba sendo mais previsível, e algumas relações parecem funcionar melhor como ideias do que como vínculos humanos realmente complexos. Ainda assim, Montgomery Clift sustenta o filme com uma atuação excelente, e a tragédia de George permanece bastante poderosa justamente porque ela nasce de algo tão banal e reconhecível: o desejo de ter uma vida melhor e o medo de perder aquilo que finalmente parece estar ao alcance das mãos.

Ficha técnica

Título: Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun)
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Ano: 1951
Diretor: George Stevens
Duração: 122 minutos

Nota: 7/10