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A Princesinha (1995)

A Princesinha (1995)

A Princesinha (A Little Princess, 1995), de Alfonso Cuarón, costuma ser lembrado como um clássico da infância, daqueles que passam anos sendo redescobertos por diferentes gerações. Durante muito tempo, foi exatamente assim que eu o enxerguei: uma adaptação delicada do romance de Frances Hodgson Burnett sobre uma menina rica que perde tudo e encontra na imaginação uma forma de suportar o sofrimento.

Revisitá-lo adulta, porém, foi perceber que havia um filme muito mais sofisticado escondido sob essa aparência de conto de fadas.

Hoje, o que mais me impressiona não é a história de Sara Crewe, mas a maneira como Alfonso Cuarón a conta. É curioso pensar que esse foi apenas seu segundo longa em Hollywood e, ainda assim, já seja possível reconhecer quase todas as marcas que definiriam sua carreira. Antes de E Sua Mãe Também, Filhos da Esperança, Gravidade e Roma, Cuarón já demonstrava um interesse muito particular pela relação entre personagens e espaço, pela fluidez da câmera e pela construção de atmosferas através da imagem.

Talvez seja por isso que A Princesinha continue parecendo tão diferente da maioria dos filmes infantis produzidos na década de 1990.

Enquanto muitos apostavam em diálogos expositivos e em um sentimentalismo bastante evidente, Cuarón parecia confiar que a imagem era capaz de contar boa parte da história sozinha. Seu cinema já demonstrava uma rara consciência de que o enquadramento, a luz e o movimento da câmera também narram. Isso fica evidente desde os primeiros minutos.

A chegada de Sara ao internato administrado por Miss Minchin não é apenas a apresentação de um novo cenário. Aos poucos, o edifício passa a determinar o próprio estado emocional da protagonista. Os corredores longos, as escadas, as portas e o sótão deixam de ser simples elementos de ambientação para se tornarem parte da narrativa. Conforme Sara perde seus privilégios, o espaço ao seu redor também se transforma. Os ambientes parecem menores, mais escuros e opressivos. É como se a arquitetura passasse a refletir aquilo que a personagem ainda não consegue verbalizar. Sempre gosto quando um diretor entende que um cenário nunca é apenas um cenário.

Essa percepção ganha ainda mais força graças ao trabalho de Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia que iniciava ali sua longa parceria com Cuarón. Anos depois, os dois desenvolveriam uma das colaborações mais importantes do cinema contemporâneo, mas já é possível perceber, em A Princesinha, a sensibilidade que caracteriza o olhar de Lubezki. A luz parece atravessar o filme como se viesse de uma lembrança.

Os interiores são banhados por tons dourados que conferem uma sensação quase tátil às imagens, enquanto as sequências mais duras assumem uma fotografia fria, sem jamais perder a delicadeza. Não há excesso de contraste entre fantasia e realidade. Ao contrário: Cuarón faz questão de que ambas coexistam dentro da mesma linguagem visual.

No romance de Frances Hodgson Burnett, a imaginação ocupa um papel central. Seria muito fácil transformar esses momentos em grandes sequências fantasiosas, separadas do restante da narrativa por efeitos visuais chamativos. Cuarón escolhe outro caminho. As histórias contadas por Sara parecem brotar naturalmente do mundo ao seu redor, como se a imaginação não representasse uma fuga da realidade, mas uma maneira diferente de enxergá-la.

Essa escolha impede que o filme se torne excessivamente sentimental.

Na verdade, A Princesinha nunca romantiza o sofrimento de sua protagonista. O contraste entre riqueza e pobreza é tratado com enorme cuidado. Quando Sara passa a trabalhar como criada dentro da própria escola, o filme não transforma sua condição em uma lição moral simplista. Pelo contrário. Cuarón evidencia constantemente as relações de poder que organizam aquele espaço. Miss Minchin não é cruel apenas porque precisa de uma antagonista; ela representa uma estrutura social baseada em hierarquia, disciplina e privilégio.

É interessante perceber como essa dimensão política aparece sem nunca sufocar a delicadeza da narrativa. Ao mesmo tempo, o diretor parece profundamente interessado em filmar a infância a partir do olhar das próprias crianças. Os adultos frequentemente aparecem distantes, ocupando enquadramentos mais altos ou impondo regras incompreensíveis. Já entre Sara e Becky, ou entre Sara e as demais meninas, existe uma cumplicidade construída por pequenos gestos, olhares e silêncios.

O filme compreende algo que poucas produções infantis conseguem captar: crianças não vivem emoções menores que as dos adultos. Apenas as experimentam de outra maneira.

Também me impressiona como a direção de arte contribui para a construção desse universo. O internato parece existir em algum lugar entre o real e o imaginário. Cada objeto, cada tecido e cada móvel ajudam a contar quem são aqueles personagens e qual posição ocupam dentro daquele mundo. Não existe excesso decorativo. Existe intenção.

É impossível falar do filme sem mencionar Eleanor Bron, cuja Miss Minchin evita a caricatura em vários momentos. Embora represente a rigidez daquela sociedade, sua interpretação nunca abandona completamente a dimensão humana da personagem. Ela é autoritária, egoísta e profundamente amarga, mas jamais se torna uma vilã de desenho animado.

E então existe Sara.

Liesel Matthews interpreta a protagonista com uma serenidade impressionante para alguém tão jovem. Sua força nunca é apresentada através de grandes discursos ou explosões emocionais. Ela permanece quase sempre contida, sustentando uma esperança que parece desafiar todas as circunstâncias ao seu redor. É justamente essa contenção que torna sua atuação tão comovente.

Talvez seja por isso que A Princesinha continue emocionando tantos espectadores décadas depois. Rever esse filme hoje também é testemunhar o nascimento de um grande cineasta. Ainda faltavam anos para Alfonso Cuarón conquistar Oscars e realizar algumas das obras mais importantes do cinema contemporâneo, mas seu olhar já estava completamente formado. A câmera inquieta, o interesse pelos espaços, a precisão dos movimentos e a confiança absoluta na força da imagem já estavam todos ali.

É raro encontrar um filme infantil que trate seu público com tanta inteligência. Mais raro ainda é perceber que, por trás dessa delicadeza, existe uma obra profundamente cinematográfica, que utiliza todos os recursos da linguagem para construir emoção sem recorrer a excessos.

A Princesinha continua sendo um dos filmes mais bonitos dos anos 1990 não apenas porque emociona, mas porque demonstra que o encantamento também pode nascer da forma como uma história é filmada.

Nota: ★★★★★ (10/10)


Ficha técnica

Título original: A Little Princess
Título no Brasil: A Princesinha
Ano: 1995
País: Estados Unidos
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Richard LaGravenese, Elizabeth Chandler e Mark Mueller, baseado no romance de Frances Hodgson Burnett
Gênero: Drama / Fantasia
Duração: 97 minutos
Elenco: Liesel Matthews, Eleanor Bron, Liam Cunningham, Rusty Schwimmer, Vanessa Lee Chester
Direção de fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha sonora: Patrick Doyle
Direção de arte: Bo Welch
Distribuição: Warner Bros. Pictures