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Crepúsculo dos Deuses (1950)

Crepúsculo dos Deuses (1950)

Alguns filmes permanecem vivos porque parecem falar de qualquer época. Para mim, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) pertence a essa categoria. Quanto mais penso nele, mais tenho a impressão de que Billy Wilder realizou um daqueles filmes impossíveis de envelhecer. Não porque seu tema seja universal — essa palavra costuma ser usada com muita facilidade —, mas porque ele fala de um mecanismo que continua funcionando exatamente da mesma maneira: a indústria do entretenimento cria mitos, lucra com eles e, quando deixam de ser úteis, os abandona sem qualquer cerimônia.

É curioso que um filme de 1950 pareça compreender tão bem um mundo dominado por redes sociais, algoritmos e influenciadores. Mudaram os meios. A lógica continua a mesma.

Wilder escolhe começar sua história pelo fim. Antes mesmo de conhecermos Joe Gillis, sabemos que ele está morto. Seu corpo flutua na piscina de uma mansão enquanto fotógrafos, policiais e jornalistas transformam uma tragédia em espetáculo. É uma das aberturas mais famosas da história do cinema e continua impressionante justamente porque elimina aquilo que normalmente move um suspense: a dúvida sobre o destino do protagonista.

Aqui, o destino já está dado.

O interesse passa a ser outro. Não queremos descobrir quem matou Joe Gillis. Queremos entender como alguém chega a esse ponto.

Essa decisão muda completamente a experiência do espectador. O filme inteiro passa a carregar um sentimento de fatalidade. Cada escolha do personagem parece inevitavelmente conduzi-lo ao lugar onde já o encontramos nos primeiros minutos. É quase uma tragédia grega disfarçada de filme noir.

Sempre gostei da maneira como Billy Wilder escrevia. Seus roteiros parecem conversar diretamente com o espectador sem nunca subestimá-lo. Existe inteligência, ironia e um humor tão seco que muitas vezes só percebemos a piada alguns segundos depois. Em Crepúsculo dos Deuses, esse cinismo encontra talvez seu terreno mais fértil.

Joe Gillis é um roteirista fracassado tentando sobreviver em Hollywood. Não há glamour em sua profissão. Ele vive fugindo de credores, tenta vender histórias que ninguém quer comprar e aceita praticamente qualquer trabalho para continuar pagando as contas. Gosto muito dessa escolha de transformar justamente um roteirista no narrador da história. Hollywood costuma celebrar atores, diretores e produtores; Wilder coloca um escritor no centro da narrativa.

Não parece uma decisão inocente.

O próprio Wilder era, antes de tudo, um roteirista brilhante. Em muitos momentos tenho a impressão de que Joe funciona como um porta-voz das frustrações de quem escreve para uma indústria que frequentemente trata histórias como produtos descartáveis. Há um desencanto permanente na maneira como ele observa aquele universo.

Mas o filme pertence a Norma Desmond.

É difícil pensar em outra personagem que sintetize tão bem a relação entre o cinema e a passagem do tempo. Gloria Swanson entrega uma das maiores interpretações que já vi. Norma poderia facilmente se tornar uma caricatura: uma atriz envelhecida incapaz de aceitar o fim da fama. No entanto, Swanson faz exatamente o contrário. Ela transforma o exagero em tragédia.

A primeira vez que a vemos, a impressão é quase fantasmagórica. Sua mansão parece abandonada pelo tempo, coberta por cortinas pesadas, móveis antigos e retratos que insistem em lembrar quem ela foi. Não demora para percebermos que Norma não mora naquela casa. Ela mora em sua própria memória.

Billy Wilder compreende perfeitamente que cenários também contam histórias. A mansão é uma extensão psicológica da personagem. Cada ambiente parece congelado em uma época que já terminou. O excesso de ornamentos, os lustres, as tapeçarias e a poeira acumulada transformam o espaço em um mausoléu dedicado ao cinema mudo.

É impossível não pensar que aquela casa funciona como uma metáfora da própria Hollywood: um lugar construído para preservar a ilusão enquanto esconde cuidadosamente tudo aquilo que envelheceu.

A fotografia de John F. Seitz reforça essa sensação em cada enquadramento. O preto e branco raramente busca apenas o contraste estético. As sombras parecem engolir os personagens, enquanto a luz frequentemente destaca rostos como se ainda estivessem diante das câmeras de um estúdio. Existe algo profundamente teatral na forma como Norma é filmada. Ela nunca deixa de atuar, mesmo quando acredita estar vivendo.

Talvez seja justamente isso que torne sua história tão triste.

Norma não consegue distinguir sua identidade da imagem que Hollywood construiu para ela.

A metalinguagem torna tudo ainda mais fascinante. Gloria Swanson realmente foi uma das maiores estrelas do cinema mudo. Erich von Stroheim, que interpreta Max, também foi um dos grandes diretores daquela época — e dirigiu a própria Swanson em Queen Kelly, cujos trechos aparecem no filme. Cecil B. DeMille interpreta a si mesmo. Buster Keaton surge discretamente entre os antigos colegas de Norma.

Essas escolhas produzem um efeito curioso: em diversos momentos, parece que Crepúsculo dos Deuses deixa de ser ficção para se tornar um documentário melancólico sobre uma geração inteira de artistas esquecidos pela chegada do cinema sonoro.

Billy Wilder não está apenas contando uma história.

Está filmando os escombros de uma era.

Também me chama atenção a maneira como o filme trata a fama. Em obras mais recentes, costuma-se discutir a celebridade como um desejo. Aqui, ela aparece quase como uma doença. Norma não quer apenas voltar a trabalhar. Ela precisa ser vista. Precisa acreditar que ainda ocupa o centro do mundo. Quando recebe pequenas demonstrações de atenção dos antigos funcionários da Paramount, interpreta tudo como confirmação de que Hollywood ainda a espera.

É devastador assistir a essas cenas porque nós sabemos aquilo que ela não sabe.

Ou talvez saiba e simplesmente não consiga aceitar.

O roteiro jamais transforma Norma em uma vilã. Ela manipula Joe, controla seus movimentos e invade completamente sua vida. Ainda assim, Wilder nunca permite que esqueçamos sua condição de vítima. Não apenas vítima da própria obsessão, mas de uma indústria que durante décadas alimentou essa obsessão para depois descartá-la sem qualquer cuidado.

É impossível assistir ao filme hoje sem pensar em quantos artistas continuam vivendo ciclos parecidos. Mudaram as plataformas, os contratos e a velocidade da fama, mas permanece a ideia de que o sucesso precisa ser eterno. Quando ele acaba, sobra um silêncio difícil de suportar.

Há algo de cruel nessa lógica.

E Wilder parece conhecê-la profundamente.

Outro aspecto que admiro é como Crepúsculo dos Deuses utiliza a linguagem do film noir sem se prender completamente ao gênero. Todos os elementos estão ali: a narração em off, o protagonista moralmente ambíguo, a sensação de fatalidade, a fotografia contrastada. Mas a verdadeira femme fatale não seduz pelo desejo. Seduz pela nostalgia.

Norma Desmond representa um passado do qual ninguém consegue escapar.

Poucos finais conseguem sintetizar tão bem tudo o que veio antes. Quando Norma desce lentamente a escada acreditando estar cercada pelas câmeras de um estúdio e pronuncia “Tudo bem, Sr. DeMille. Estou pronta para o meu close-up”, Billy Wilder encerra sua história sem oferecer qualquer conforto ao espectador. Não existe redenção, justiça ou aprendizado.

Existe apenas uma mulher incapaz de abandonar o único papel que realmente soube interpretar.

E talvez seja justamente por isso que essa cena tenha atravessado décadas e se tornado uma das imagens mais conhecidas da história do cinema. Ela resume não apenas o destino de Norma Desmond, mas a própria natureza de Hollywood: um lugar onde a ficção é tão poderosa que, às vezes, continua existindo mesmo quando todas as câmeras já foram desligadas.

Saio de Crepúsculo dos Deuses com a mesma sensação toda vez que o revejo: a de ter assistido não apenas a um grande filme, mas a uma das reflexões mais inteligentes que o cinema já fez sobre si mesmo. Billy Wilder teve a coragem de apontar a câmera para a indústria que o consagrava e revelar aquilo que ela fazia questão de esconder.

Poucos diretores foram tão implacáveis.

Menos ainda conseguiram fazer isso com tanto humor, tanta elegância e tamanho domínio da linguagem cinematográfica.

Nota: ★★★★★ (10/10)

Ficha técnica

Título original: Sunset Boulevard
Título no Brasil: Crepúsculo dos Deuses
Ano: 1950
País: Estados Unidos
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett e D. M. Marshman Jr.
Gênero: Film noir / Drama
Duração: 110 minutos
Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich von Stroheim, Nancy Olson
Direção de fotografia: John F. Seitz
Trilha sonora: Franz Waxman
Montagem: Arthur P. Schmidt e Doane Harrison
Distribuição original: Paramount Pictures