×

Estou pensando em acabar com tudo: o terror de não saber o que te espera

Estou pensando em acabar com tudo: o terror de não saber o que te espera

Há diretores de quem eu assisto a um filme por curiosidade. Com Charlie Kaufman, acontece o contrário: eu assisto por confiança. Talvez esse tenha sido o único filme a que dei play sem saber absolutamente nada. Não procurei sinopse, trailer ou críticas. Nem mesmo sabia o gênero! Apareceu na Netflix, vi o nome do diretor e cliquei.

Acho que tudo começou com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Foi um daqueles filmes que mudaram a maneira como vejo o cinema. Claro que a trama é extraordinária — sempre fui fascinada por histórias que misturam ficção científica a outros gêneros —, mas o que realmente me conquistou foi perceber que Kaufman escreve a partir de uma lógica completamente diferente da maioria dos roteiristas. Desde então, fui atrás de tudo o que leva sua assinatura. Quero Ser John Malkovich continua sendo, para mim, uma das ideias mais brilhantes e absurdas que o cinema americano já produziu. Não importa quantas vezes eu pense naquele roteiro: ele continua parecendo impossível.

Quando Estou Pensando em Acabar com Tudo foi lançado, eu ainda não tinha lido o romance de Iain Reid. Fiz isso depois, e a impressão que ficou foi a de que Kaufman não adaptou o livro; ele o absorveu. O resultado é um filme que respeita a premissa original, mas a transforma em outra experiência. Se o livro flerta com o suspense psicológico, o filme mergulha de vez no terror. E, durante boa parte da sessão, fiquei me perguntando: estou assistindo a um romance ou a um filme de horror?

Não um terror de monstros, sustos ou violência explícita. É um terror construído pela absoluta ausência de estabilidade. Quase nada parece obedecer às regras do mundo real. As conversas mudam de direção sem aviso, as pessoas parecem se transformar diante dos nossos olhos, o tempo deixa de funcionar como deveria e pequenos detalhes se alteram discretamente entre um plano e outro. O filme instala uma sensação constante de que alguma coisa está errada, mas nunca nos oferece um ponto seguro de onde observar esse erro.

O efeito é perturbador porque Kaufman elimina aquilo que normalmente segura o espectador: a previsibilidade.

No cinema clássico, aprendemos rapidamente quais são as regras daquele universo. Em Estou Pensando em Acabar com Tudo, elas simplesmente não existem. Cada cena parece capaz de invalidar a anterior. É um filme que nos obriga a abandonar qualquer tentativa de antecipar acontecimentos.

Talvez essa seja a experiência mais próxima do terror que o filme oferece.

Enquanto o horror tradicional desperta medo pelo que pode aparecer na tela, Kaufman produz ansiedade pela impossibilidade de compreender a lógica da própria narrativa. Não sabemos quem são exatamente aqueles personagens, nem quanto tempo passou, nem sequer se estamos assistindo às lembranças, às fantasias ou aos arrependimentos de alguém. Essa escolha certamente afasta parte do público. Existe uma expectativa quase automática de que, no final, tudo será explicado. Kaufman parece pouco interessado em oferecer esse conforto. O mistério não é um quebra-cabeça esperando uma solução; é a própria linguagem do filme.

Também me impressiona como Jesse Plemons e Jessie Buckley conseguem manter diálogos longuíssimos que alternam filosofia, crítica de arte, poesia e banalidades cotidianas sem que pareçam artificiais. É um texto profundamente literário, mas que encontra um ritmo muito próprio na interpretação dos dois.

Visualmente, o filme reforça essa sensação de deslocamento. Os enquadramentos frequentemente isolam os personagens dentro dos espaços, enquanto a fotografia fria transforma a neve em uma espécie de prisão silenciosa. Mesmo quando nada acontece, existe um desconforto permanente ocupando a imagem.

É curioso perceber como Charlie Kaufman continua fazendo, há décadas, o mesmo tipo de filme sem jamais se repetir. Seus roteiros parecem sempre girar em torno da identidade, da memória, da culpa e da dificuldade de existir dentro da própria consciência. Mas cada obra encontra uma linguagem diferente para explorar essas obsessões.

Saí de Estou Pensando em Acabar com Tudo menos interessada em decifrar seus símbolos do que em prolongar a experiência. Revi o filme — algo que raramente faço —, fiz uma ilustração da protagonista e, claro, li o livro.

Poucos filmes conseguem transformar a incerteza em linguagem cinematográfica com tanta consistência. E talvez essa seja a maior qualidade de Charlie Kaufman. Enquanto a maioria dos cineastas tenta nos convencer de que o mundo faz sentido, ele insiste em filmar exatamente o contrário.

Ficha técnica

Título: Estou Pensando em Acabar com Tudo (I’m Thinking of Ending Things)
Ano: 2020
País: Estados Unidos
Direção e roteiro: Charlie Kaufman
Baseado no romance: I’m Thinking of Ending Things, de Iain Reid
Gênero: Suspense psicológico / Drama
Duração: 2h14 (134 min)
Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette e David Thewlis
Direção de fotografia: Łukasz Żal
Trilha sonora: Jay Wadley
Montagem: Robert Frazen
Distribuição: Netflix

Escritora, designer e apaixonada por cinema. Sou formada em Psicologia (2011) e Comunicação Social (2015) pela UFMG e pós-graduada em Cinema e Audiovisual. Criei o Paralisia por Análise para reunir as impressões que os filmes deixam em mim: os sentimentos que um filme desperta, as escolhas de linguagem e as conexões que encontro com literatura, arte e tudo aquilo que continuo pensando muito depois dos créditos finais.

1 comentário

comments user
A WordPress Commenter

Hi, this is a comment.
To get started with moderating, editing, and deleting comments, please visit the Comments screen in the dashboard.
Commenter avatars come from Gravatar.

Publicar comentário