Pânico (1996)
Pânico: Wes Craven reinventou o slasher fazendo o público rir das regras que ainda funcionavam
Antes de assistir a Pânico (Scream, 1996) pela primeira vez, eu já conhecia sua fama. Sabia que era “o slasher que reinventou o slasher”, o filme que salvou um gênero considerado esgotado nos anos 1990. O que eu não esperava era descobrir que Wes Craven fez algo ainda mais interessante: um filme que ama profundamente o terror justamente porque conhece todas as suas regras. É difícil imaginar o impacto do longa sem voltar ao contexto em que ele foi lançado. No início dos anos 1990, o slasher parecia um gênero condenado a repetir fórmulas. Depois do sucesso de franquias como Halloween, Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo, os assassinos mascarados já não causavam o mesmo efeito. O público conhecia as regras de cor, e os filmes pareciam presos à obrigação de repeti-las.
Foi justamente nesse momento que Wes Craven decidiu fazer um slasher sobre pessoas que também conheciam essas regras. A ideia era brilhante, mas ela dificilmente teria funcionado nas mãos de outro diretor. Pânico não satiriza o terror porque o considera um gênero menor. Pelo contrário. O filme funciona porque parte de um profundo respeito por tudo aquilo que veio antes. Seus personagens assistem a filmes de horror, discutem clichês, conhecem os assassinos clássicos e acreditam saber exatamente como sobreviver.
O problema é que conhecer as regras não impede ninguém de morrer. A sequência de abertura continua sendo a minha preferida do cinema de terror. Wes Craven escala Drew Barrymore — na época, a maior estrela do elenco —, faz toda a campanha de divulgação parecer indicar que ela será a protagonista e, poucos minutos depois, a mata de forma brutal. O gesto é quase uma declaração de intenções: ninguém está seguro, nem mesmo quem parece ocupar o centro da narrativa.
Mais do que um choque, essa cena estabelece aquilo que considero o maior mérito do filme: sua capacidade de brincar com as expectativas do espectador.
oda vez que acreditamos reconhecer um clichê, Pânico encontra uma maneira de deslocá-lo. Wes Craven e Kevin Williamson entendem que o suspense depende da previsibilidade apenas até certo ponto. Depois que aprendemos a antecipar cada movimento da narrativa, o medo desaparece. O filme recupera essa sensação de perigo justamente ao tornar imprevisíveis regras que pareciam consolidadas.
É curioso perceber como Ghostface também representa uma ruptura em relação aos grandes assassinos do slasher. Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger adquiriram, ao longo de suas franquias, uma dimensão quase sobrenatural. Ghostface não. Ele tropeça, leva socos, cai da escada, erra golpes e improvisa. Em muitos momentos, parece um assassino desajeitado.
Existe algo profundamente humano em Ghostface. A violência deixa de parecer inevitável e passa a carregar um componente caótico. O assassino pode errar. As vítimas também podem reagir. O resultado é uma tensão muito mais física do que aquela produzida pelos slashers dos anos 1980. Outro aspecto que sempre me chama atenção é a inteligência do roteiro. Williamson constrói um verdadeiro jogo de suspeitas. Todos os personagens parecem esconder alguma coisa, e o filme nunca permite que o espectador permaneça confortável por muito tempo. A narrativa se aproxima de um whodunit, transformando o mistério sobre a identidade do assassino em parte essencial da experiência.
Ao mesmo tempo, Pânico nunca abandona o humor. Mas esse humor merece um comentário. Ele não serve para aliviar a tensão. Serve para aumentá-la. Quando Randy enumera as famosas “regras para sobreviver a um filme de terror” — não fazer sexo, não consumir drogas e nunca dizer “já volto” —, a cena poderia funcionar apenas como uma piada metalinguística. No entanto, ela também prepara o espectador para observar o próprio filme sob uma nova perspectiva. Passamos a procurar essas regras em cada sequência, tentando descobrir quando elas serão obedecidas ou subvertidas.
O resultado é curioso: Pânico nos transforma em participantes do jogo. Sempre admirei a forma como Wes Craven compreendia o horror. Seus filmes nunca utilizaram o medo apenas como entretenimento. Desde A Hora do Pesadelo, ele parecia interessado em investigar por que gostamos tanto de sentir medo. Em Pânico, essa reflexão se torna explícita. O assassino pergunta repetidamente: “Qual é o seu filme de terror favorito?”. A pergunta parece banal, mas define toda a proposta do longa.
Este é um filme sobre espectadores. Sobre pessoas que cresceram consumindo imagens de violência e acreditam conhecer perfeitamente sua linguagem. Visualmente, talvez Pânico pareça mais discreto do que outros clássicos do gênero. Wes Craven evita grandes movimentos de câmera ou enquadramentos excessivamente estilizados. Sua direção é quase invisível. Mas justamente aí reside sua força. A câmera nunca chama atenção para si. Toda a energia da mise-en-scène está voltada para a construção da tensão, do ritmo e da geografia dos espaços.
Sabemos exatamente onde cada personagem está, para onde pode correr e quais caminhos permanecem bloqueados. Parece um detalhe, mas essa organização espacial faz toda a diferença para o suspense. O medo nasce porque compreendemos perfeitamente o perigo.
Também gosto muito de como o filme transforma a televisão, os telefones e o próprio cinema em elementos narrativos. A violência quase sempre chega mediada por alguma tela ou por alguma voz. Ghostface invade a intimidade das vítimas através do telefone antes mesmo de aparecer fisicamente. Hoje, quando vivemos permanentemente conectados, esse recurso parece ainda mais atual do que em 1996.
Naturalmente, Pânico gerou uma onda de imitadores. Filmes como Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana e tantos outros tentaram reproduzir sua mistura de suspense, humor e autoconsciência. Pouquíssimos conseguiram entender o que realmente fazia o original funcionar: conhecer profundamente esses clichês antes de desconstruí-los.
Rever Pânico quase trinta anos depois também é perceber como ele envelheceu melhor do que muitos filmes que tentaram parecer modernos e melhor que suas continuações. Sua metalinguagem continua divertida porque não depende de referências passageiras. Ela nasce de um amor genuíno pelo próprio cinema de terror.
No fundo, Wes Craven realizou algo difícil: um filme que funciona simultaneamente como slasher, comédia, mistério e ensaio sobre a história do horror. Uma obra que conversa com décadas de cinema sem jamais perder sua identidade.
Talvez seja por isso que Ghostface continue voltando.
Nota: ★★★★★ (10/10)
Ficha técnica
Título original: Scream
Título no Brasil: Pânico
Ano: 1996
País: Estados Unidos
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Gênero: Terror / Slasher / Mistério
Duração: 111 minutos
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich, Matthew Lillard, Drew Barrymore, Rose McGowan e Jamie Kennedy
Direção de fotografia: Mark Irwin
Trilha sonora: Marco Beltrami
Montagem: Patrick Lussier
Distribuição: Dimension Films


