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Com a Maldade na Alma (1964)

Com a Maldade na Alma (1964)

Depois de assistir a O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, era inevitável criar expectativas para Hush… Hush, Sweet Charlotte (1964). Robert Aldrich voltava ao suspense psicológico, novamente com Bette Davis no papel principal, novamente explorando o isolamento, o envelhecimento e a deterioração da mente. A diferença é que, desta vez, o filme troca a Hollywood decadente por uma velha mansão no sul dos Estados Unidos e mergulha no gótico sulista. O resultado não é tão bom quanto Baby Jane, mas continua sendo um suspense extraordinário, que também transforma a casa em uma presença ameaçadora.

A história acompanha Charlotte Hollis, uma mulher que vive reclusa há décadas na propriedade de sua família desde o assassinato brutal de seu amante, John Mayhew. O crime jamais foi completamente esclarecido e, para os moradores da pequena cidade, Charlotte permanece associada à tragédia. Quando a desapropriação da mansão parece inevitável, sua prima Miriam chega para ajudá-la, mas a presença da visitante acaba tornando ainda mais nebulosa a fronteira entre lembranças, culpa e paranoia. O que mais gostei no filme é que Robert Aldrich nunca entrega cedo demais qual história está contando.

Durante boa parte da narrativa, somos levados a questionar constantemente a sanidade de Charlotte. Ela realmente está sendo perseguida? Está enlouquecendo? Ela parece louca, age e se veste como uma. Além disso, é velha, no sentido hollywoodiano dos anos 60.

Ou existe alguém manipulando sua percepção da realidade? Essa estratégia funciona porque Aldrich constrói uma atmosfera sufocante desde o início. A mansão parece congelada no tempo, como se cada cômodo preservasse um pedaço daquela noite em que tudo mudou. Os corredores vazios, as escadas intermináveis, os retratos antigos e os quartos escuros fazem da casa muito mais do que um cenário. Ela é o passado materializado. Aldrich filma a mansão como se ela observasse Charlotte o tempo inteiro. Em diversos momentos, a câmera permanece distante, enquadrando portas, corredores ou janelas antes mesmo que algum personagem apareça. É como se o próprio ambiente respirasse.

Essa sensação é intensificada pela fotografia em preto e branco. Mesmo lançado numa época em que Hollywood já produzia grande parte de seus filmes em cores, Hush… Hush, Sweet Charlotte parece ganhar força justamente por permanecer no preto e branco. As sombras ocupam cada canto da casa, enquanto a luz recorta os rostos de maneira quase expressionista. Há planos que remetem diretamente ao horror clássico da Universal e ao cinema noir, mas sem jamais parecerem apenas uma homenagem.Tudo contribui para produzir uma permanente sensação de instabilidade.

Também há um bom controle de ritmo. Hoje talvez alguns espectadores o considerem lento, mas essa lentidão faz parte da experiência. Aldrich permite que a tensão cresça aos poucos, sem depender de sustos constantes. O medo nasce da repetição, da espera. Cada ruído parece anunciar alguma coisa. É um tipo de suspense que exige paciência, mas recompensa quem aceita entrar nesse universo.

Bette Davis, mais uma vez, demonstra por que foi uma das maiores atrizes da história do cinema americano. Sua Charlotte é profundamente diferente de Baby Jane Hudson, embora ambas compartilhem a fragilidade produzida pelo isolamento e pela passagem do tempo. Jane reagia ao abandono com agressividade quase infantil. Charlotte parece viver em estado permanente de luto, como alguém incapaz de abandonar uma ferida aberta quarenta anos antes. Sua interpretação oscila constantemente entre vulnerabilidade e descontrole. Nunca sabemos exatamente o quanto podemos confiar nela. E isso é fundamental para o funcionamento do filme.

Olivia de Havilland, que substituiu Joan Crawford após o início das filmagens, oferece um contraponto elegante. Sua Miriam parece tranquila, racional e acolhedora, a Melanie Wilkes dos anos 60. É uma atuação construída sobre pequenos gestos e discretas mudanças de expressão, suficientes para fazer o espectador desconfiar de praticamente todas as suas intenções.

É curioso pensar que a rivalidade lendária entre Bette Davis e Joan Crawford quase deu origem a um reencontro depois de Baby Jane. Crawford chegou a iniciar o projeto, mas abandonou a produção por motivos de saúde, sendo substituída por Olivia de Havilland. É difícil não imaginar que tipo de energia o filme teria adquirido caso o confronto entre as duas atrizes tivesse acontecido novamente. Ainda assim, a escolha de Havilland acaba produzindo um efeito interessante: enquanto Crawford provavelmente reforçaria a tensão desde o início, Havilland aposta na delicadeza, tornando a desconfiança muito mais gradual. Gosto demais da atuação das duas.

Outro aspecto que me chamou atenção foi a trilha sonora. A canção “Hush… Hush, Sweet Charlotte”, repetida ao longo do filme, funciona quase como uma cantiga de ninar macabra e condensa bem a atmosfera da narrativa. Sempre que ela retorna, parece trazer consigo todas as lembranças que Charlotte tenta manter enterradas.

Também admiro como Aldrich brincou com elementos típicos do horror sem jamais abandonar completamente o realismo. Há fantasmas? Alucinações? Conspirações? O diretor nunca tem pressa em responder. Durante grande parte da projeção, todas as possibilidades permanecem abertas. Essa ambiguidade torna o filme muito mais interessante do que um simples mistério.

No fundo, Hush… Hush, Sweet Charlotte fala sobre como um acontecimento traumático pode aprisionar alguém por décadas, transformando uma casa inteira em monumento à culpa. Os personagens vivem cercados por lembranças que nunca foram elaboradas, e cada tentativa de seguir em frente parece apenas aprofundar esse aprisionamento. O filme dialoga tão bem com outras obras do período que exploravam mulheres isoladas em grandes casarões, entre elas Rebecca, de Alfred Hitchcock, e o próprio O Que Terá Acontecido a Baby Jane? Mas Aldrich acrescenta um elemento muito particular: o sul dos Estados Unidos, com suas famílias tradicionais, suas propriedades decadentes e seus segredos preservados. Enquanto Baby Jane é um filme sobre a crueldade da fama, Com a Maldade na Alma parece mais interessado naquilo que o tempo faz com as lembranças.

Em alguns momentos, o roteiro prolonga situações que poderiam ser resolvidas com maior concisão, e o desfecho talvez explique um pouco mais do que o necessário. Ainda assim, essas pequenas irregularidades não diminuem a força da experiência. Hush… Hush, Sweet Charlotte talvez não alcance a perfeição de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, mas permanece como um dos grandes suspenses psicológicos dos anos 1960. Um filme elegante, inquietante e profundamente melancólico, em que cada corredor parece guardar um segredo e cada lembrança insiste em voltar quando acreditamos tê-la esquecido.

Nota: ★★★★☆ (8/10)


Ficha técnica

Título original: Hush… Hush, Sweet Charlotte
Título no Brasil: Com a Maldade na Alma (também conhecido pelo título original)
Ano: 1964
País: Estados Unidos
Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Henry Farrell e Lukas Heller
Gênero: Suspense psicológico / Horror gótico / Drama
Duração: 133 minutos
Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Cecil Kellaway, Mary Astor
Direção de fotografia: Joseph Biroc
Trilha sonora: Frank De Vol
Montagem: Michael Luciano
Distribuição: 20th Century Fox