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Nós (2019)

Nós (2019)

Adelaide vai passar alguns dias na casa de praia com o marido, Gabe, e os dois filhos, Zora e Jason. A viagem deveria ser uma espécie de retorno a um lugar traumático de sua infância: anos antes, quando ainda era criança, Adelaide se perdeu dos pais durante um passeio e entrou sozinha em uma casa de espelhos. Lá, encontrou uma menina idêntica a ela. O acontecimento a marcou profundamente, embora ninguém ao seu redor pareça compreender exatamente o que aconteceu naquela noite.

No presente, Adelaide continua sendo uma mulher aparentemente funcional, mas existe nela uma inquietação que nunca desapareceu. Ela não quer voltar à praia, teme que alguma coisa aconteça e parece especialmente preocupada com Jason. Gabe, por outro lado, está muito mais interessado em aproveitar as férias, exibir o barco que comprou e competir silenciosamente com os amigos ricos que também estão passando o verão na região. É uma família perfeitamente reconhecível, com pequenas implicâncias, constrangimentos e brigas que parecem muito mais importantes para eles do que qualquer ameaça sobrenatural.

Até que, durante a noite, quatro pessoas aparecem na entrada da casa.

São quatro figuras vestidas de vermelho, paradas no escuro, em silêncio. Adelaide reconhece imediatamente o que os outros ainda não sabem: cada integrante da família possui um duplo. Eles são fisicamente idênticos, mas parecem versões deformadas e violentas de seus respectivos originais. A partir daí, Nós abandona a estrutura de invasão domiciliar relativamente convencional e começa a construir uma espécie de pesadelo sobre a ideia de que existe alguém exatamente igual a nós vivendo em algum lugar, mas que teve uma vida completamente diferente.

É uma premissa excelente. E Jordan Peele sabe explorar muito bem o desconforto produzido por algo que deveria ser familiar, mas não é. Em Corra!, o horror vinha de descobrir que pessoas aparentemente civilizadas escondiam algo monstruoso. Aqui, o horror está no reflexo. É o nosso rosto olhando de volta para nós com ódio.

A primeira grande sequência de perseguição funciona muito bem porque Peele entende que uma família presa dentro de casa já é, por si só, uma situação cinematograficamente eficiente. Gabe tenta bancar o corajoso e, naturalmente, consegue ser muito mais engraçado do que útil. Zora reage com agressividade, Jason observa tudo com uma atenção desconcertante e Adelaide é claramente a única que entende a dimensão do que está acontecendo. A violência é brutal, mas o filme não abandona o humor. Essa mistura é uma das características mais interessantes de Peele: ele consegue colocar uma piada imediatamente antes de uma cena desagradável sem destruir completamente a tensão.

E Lupita Nyong’o é simplesmente absurda no filme. Adelaide e Red são duas personagens completamente diferentes, embora tenham o mesmo rosto. Enquanto Adelaide fala, grita, chora e tenta proteger os filhos, Red se comunica principalmente através de uma voz rouca e estranha, quase como se tivesse esquecido como falar. A maneira como Lupita constrói as duas é provavelmente a melhor coisa de Nós. Mesmo quando a explicação do filme começa a ficar complicada, é impossível não ficar olhando para ela.

Os duplos, chamados de Tethered, são apresentados como pessoas que vivem em uma espécie de mundo subterrâneo e que foram condenadas a imitar, sem qualquer controle sobre suas próprias vidas, os movimentos daqueles que vivem na superfície. Quando seus correspondentes comem, eles comem. Quando dançam, eles repetem os movimentos. Quando vivem, eles apenas observam.

A ideia é muito boa porque transforma o conceito de “duplo” em uma metáfora bastante óbvia, mas poderosa: há pessoas vivendo uma vida confortável enquanto outras existem nas condições mais miseráveis possíveis, condenadas a assistir àquilo que nunca poderão ter.

O filme, então, começa a funcionar como uma alegoria sobre desigualdade. A família de Adelaide está literalmente sendo perseguida por uma população que vive embaixo dela. Os Tethered são aquilo que foi escondido para que a superfície pudesse continuar funcionando normalmente. E quando eles finalmente aparecem, não querem simplesmente matar seus correspondentes: querem ocupar seu lugar.

É uma imagem forte, principalmente porque os invasores usam roupas vermelhas e tesouras douradas. O visual é marcante e extremamente calculado. Peele cria uma iconografia que funciona quase instantaneamente: os macacões vermelhos, as tesouras, as mãos dadas, as filas intermináveis de pessoas formando uma corrente humana. É uma imagem bonita e assustadora ao mesmo tempo, e talvez seja uma das coisas que mais ficou na minha cabeça depois do filme.

O problema é que Nós tem uma ideia melhor do que a explicação que oferece para ela.

Quanto mais a história avança, mais Peele tenta explicar o funcionamento daquele universo. Descobrimos que os Tethered são resultado de uma experiência do governo para tentar controlar as pessoas da superfície. O experimento fracassou porque os duplicados não conseguiam controlar as pessoas que deveriam controlar, mas continuaram existindo subterraneamente. O problema é que essa explicação, quando pensada por alguns minutos, começa a criar mais perguntas do que respostas.

E eu gosto de filmes que deixam perguntas. O problema é quando a própria lógica interna do filme começa a depender de respostas que não parecem suficientes.

A famosa revelação final é a melhor prova disso. Descobrimos que Adelaide e Red trocaram de lugar quando eram crianças. A Adelaide que acompanhamos durante todo o filme é, na verdade, a antiga menina subterrânea. A verdadeira Adelaide ficou presa no subterrâneo e cresceu como Red. Ou seja, aquela mulher que passou o filme inteiro tentando proteger a família e sendo apresentada como vítima é também alguém que roubou a vida de outra pessoa.

É uma ótima reviravolta. E, ao mesmo tempo, muda completamente a leitura da história.

De repente, a protagonista não é exatamente a vítima inocente que imaginávamos. Ela também é parte daquilo que está acontecendo. Sua culpa, seu medo e seu desconforto desde o início deixam de parecer apenas traumas de infância e passam a carregar outra dimensão. Ela sabe, ainda que de maneira inconsciente, que aquele passado pode voltar para buscá-la.

O mais interessante é que Peele não entrega essa revelação simplesmente como um “plot twist”. Ele espalha pistas pelo filme inteiro. A forma como Adelaide se comporta, o conhecimento que ela demonstra sobre os Tethered, a relação peculiar entre Red e ela e até alguns detalhes da infância começam a fazer sentido depois da revelação.

É uma daquelas reviravoltas que melhoram algumas cenas anteriores, embora eu não ache que resolvam todos os problemas do filme.

E talvez seja essa a minha principal questão com Nós: eu gosto muito mais de pensar sobre ele do que da maneira como algumas coisas efetivamente funcionam dentro da história.

A metáfora da desigualdade é interessante, mas não é exatamente sutil. A ideia de pessoas privilegiadas sendo confrontadas pelas pessoas invisíveis que sustentam ou acompanham suas vidas é bastante clara. A sequência final, com a enorme corrente humana atravessando os Estados Unidos, remete diretamente à campanha Hands Across America, realizada em 1986 para arrecadar dinheiro contra a fome e a pobreza. É uma imagem perfeita para o filme: milhões de pessoas de mãos dadas, aparentemente celebrando solidariedade, enquanto abaixo da superfície existe uma população esquecida.

E é justamente aí que o título Nós fica particularmente interessante. “Nós” significa “us”, mas também pode ser lido como “nós” enquanto coletivo. Quem somos nós? Quem pertence a esse “nós”? Quem fica de fora? Quem precisa ser invisível para que determinado grupo possa viver confortavelmente?

Também gosto de como o filme trabalha a ideia de que o monstro não é necessariamente algo completamente diferente de nós. O monstro tem nosso rosto. Ele quer aquilo que temos. Ele talvez seja nós mesmos em circunstâncias diferentes.

Por outro lado, achei algumas escolhas excessivamente explicativas. Nós quer ser uma alegoria, um filme de invasão domiciliar, uma história de doppelgängers, um comentário social, uma ficção científica e um filme de terror. Ele consegue ser todas essas coisas, mas nem sempre consegue fazer com que elas se encaixem perfeitamente.

Ainda assim, é uma experiência muito criativa. Jordan Peele tem uma imaginação visual e temática muito acima da média dentro do terror comercial. Ele não está simplesmente tentando assustar. Está procurando uma imagem que permaneça depois que o susto passa. E aqui ele encontra várias: Red atravessando a casa, os Tethered caminhando em silêncio, a família cercada pelos próprios duplicados, a tesoura, a corrente humana e, principalmente, aquele rosto que deveria ser familiar, mas parece absolutamente errado.

Talvez eu goste de Nós justamente porque ele é um filme que não se encerra completamente quando termina. Dá vontade de voltar às cenas e tentar entender o que Peele estava fazendo. Algumas coisas ficam mais interessantes; outras, quando pensamos demais, ficam mais frágeis. Mas prefiro um filme que me faça questionar suas escolhas a um filme que não me dê nada para questionar.

No fim, Nós não me parece tão redondo quanto Corra!. Corra! tinha uma premissa mais simples e uma alegoria muito mais diretamente ligada à história que contava. Aqui, Peele aumenta bastante a ambição e, em alguns momentos, parece não conseguir controlar tudo o que colocou dentro do próprio filme. Mas também é justamente essa ambição que torna Nós tão interessante. É estranho, inventivo, visualmente marcante e tem uma das melhores atuações de terror dos últimos anos em Lupita Nyong’o.

E ainda tem aquela sensação incômoda de que, talvez, o monstro esteja certo.

Título: Nós (Us)
País: Estados Unidos
Gênero: Terror, suspense
Ano: 2019
Diretor: Jordan Peele
Duração: 116 minutos

Nota: 10/10