O Baile (1983)
O Baile é um filme curioso porque, à primeira vista, parece não ter praticamente nada para contar. Um salão de dança, algumas mesas, uma pista, músicos tocando e pessoas chegando, dançando e indo embora. Não há diálogos, não há um protagonista propriamente dito e não existe uma história convencional conduzindo tudo. Ainda assim, Scola consegue transformar aquele salão em uma espécie de pequena maquete do século XX. As pessoas mudam, as roupas mudam, as músicas mudam, os comportamentos mudam e a história entra naquele espaço sem nunca precisar ser anunciada. É quase como assistir ao tempo passar através dos corpos.
O filme começa na França dos anos 1930 e acompanha diferentes grupos de pessoas ao longo das décadas. O salão permanece praticamente o mesmo, mas os frequentadores são outros. O que inicialmente parece apenas uma noite de diversão vai ganhando um peso histórico conforme percebemos que cada dança pertence a uma época específica. O amor, a guerra, a ocupação alemã, a resistência, a libertação, a juventude rebelde, os movimentos políticos e as mudanças culturais aparecem não através de discursos, mas da maneira como as pessoas se comportam dentro daquele espaço.
A escolha de eliminar completamente os diálogos é talvez a coisa mais interessante do filme. Scola nos obriga a prestar atenção naquilo que normalmente fica em segundo plano: os gestos, as expressões, a postura, a roupa, a distância entre duas pessoas. Uma mulher que entra sozinha e olha para os homens ao redor já está contando uma história. Um homem que tenta chamar a atenção de uma mulher e é ignorado também. Um casal que dança apaixonadamente pode parecer feliz, mas alguns minutos depois percebemos que aquela felicidade talvez não seja tão sólida assim. O corpo fala o tempo inteiro, e Scola confia nele.
Também é muito interessante perceber como as regras sociais mudam ao longo do tempo. Nos primeiros anos, os homens parecem ocupar um espaço muito mais dominante na pista. Eles convidam, conduzem, escolhem. As mulheres esperam, recusam ou aceitam. Aos poucos, porém, as coisas mudam. A dança deixa de parecer uma atividade rigidamente organizada e passa a incorporar movimentos mais livres, mais sensuais e mais individuais. A transformação da dança acompanha a transformação da própria sociedade.
E Scola faz isso sem transformar o filme em uma aula de história. Não há alguém explicando: “agora estamos nos anos 1940” ou “agora estamos nos anos 1960”. Você simplesmente percebe. O figurino muda, a música muda, o jeito de fumar muda, o cabelo muda, a maneira de paquerar muda. É uma forma extremamente cinematográfica de contar história, porque tudo está na imagem. O filme não precisa nos dizer que o mundo mudou; basta mostrar que aquelas pessoas já não se movimentam da mesma maneira.
A Segunda Guerra Mundial é um dos momentos em que essa estratégia fica particularmente forte. A pista de dança, que antes parecia um espaço de diversão, passa a carregar uma tensão completamente diferente. A música continua, as pessoas continuam dançando, mas a realidade do lado de fora invade aquele ambiente. A ocupação nazista aparece através dos comportamentos e das relações entre os personagens. Não é necessário mostrar batalhas ou cadáveres para lembrar que existe uma guerra acontecendo. Basta perceber que o mundo que aquelas pessoas conheciam deixou de existir.
Há algo quase melancólico na ideia de que as pessoas continuam dançando enquanto a história acontece. E talvez essa seja uma das coisas que mais gosto no filme: ele não coloca a grande História acima da vida cotidiana. Para quem está dentro daquele salão, o que importa naquele momento pode ser uma paquera, uma rejeição, um ciúme ou simplesmente encontrar alguém com quem dançar. Enquanto governos caem e regimes surgem, alguém continua preocupado porque a pessoa de quem gosta não o chamou para dançar. A história também é feita dessas pequenas coisas.
O humor também ajuda muito. Scola não transforma o século XX em uma sucessão solene de tragédias. Há momentos bastante engraçados, personagens caricatos e situações que parecem quase uma sátira dos comportamentos sociais. As pessoas se exibem, competem, fazem pose, tentam parecer interessantes. Há algo de ridículo em praticamente todo mundo, e o filme parece gostar disso. Afinal, somos seres humanos atravessando acontecimentos históricos gigantescos enquanto continuamos preocupados com a própria aparência e com quem está olhando para nós.
A música é, naturalmente, fundamental. Como o filme praticamente não possui palavras, ela assume o papel que normalmente seria desempenhado pelos diálogos. E não é apenas uma trilha sonora: a música determina a maneira como os personagens se relacionam. Cada época tem seu ritmo, e cada ritmo produz uma determinada forma de corpo. Dançar é uma forma de comportamento social. Quando o ritmo muda, as pessoas mudam junto.
Isso fica especialmente evidente quando chegamos às décadas mais recentes. O espaço começa a ser ocupado por uma juventude diferente, com novas roupas, novos gestos e uma atitude mais irreverente. A pista que antes parecia organizada e previsível começa a ficar mais caótica. As pessoas dançam umas com as outras de maneira diferente. Existe uma sensação de liberdade, mas também de perda. Aquilo que era familiar desapareceu.
E o mais bonito é que Scola não trata nenhuma dessas épocas como necessariamente superior às outras. O filme não diz que antes era melhor ou que a modernidade libertou todo mundo. Ele simplesmente observa. Há coisas encantadoras e coisas ridículas em cada período. Há repressão, mas também há elegância. Há liberdade, mas também há solidão. Há juventude, mas também há uma enorme vontade de ser reconhecido. O salão muda porque as pessoas mudam, mas algumas necessidades continuam exatamente iguais.
Por isso, apesar de ser um filme tão preocupado com a passagem do tempo, O Baile também é surpreendentemente universal. As roupas envelhecem, as músicas envelhecem, os penteados envelhecem, mas o desejo de ser desejado não envelhece. A vontade de encontrar alguém, de impressionar alguém, de ser escolhido, de não ser ignorado continua existindo. A pessoa que está sozinha no canto do salão em 1930 não é tão diferente da pessoa sozinha em 1980.
A ausência de diálogos também impede que saibamos exatamente quem essas pessoas são. E isso é importante. Elas não precisam ter biografias completas porque representam algo maior. São tipos humanos, mas não são personagens vazios. Um olhar, uma dança ou uma pequena humilhação pode ser suficiente para criar uma história inteira na nossa cabeça. Scola deixa espaços para que o espectador complete aquilo que não é mostrado.
O salão também acaba funcionando quase como um palco teatral. As pessoas entram, desempenham seus papéis e saem. Algumas retornam em diferentes momentos da história, envelhecidas ou transformadas. O espaço parece congelado enquanto o mundo exterior avança. É uma imagem muito bonita da memória: podemos voltar ao mesmo lugar anos depois, mas nunca encontramos exatamente as mesmas pessoas.
E existe uma tristeza inevitável nessa repetição. Cada nova geração acredita estar inventando alguma coisa completamente nova, mas está, de certa maneira, repetindo os mesmos movimentos. As pessoas continuam procurando amor, reconhecimento e diversão. Continuam se aproximando e se afastando. Continuam dançando. A história muda o cenário, mas não elimina nossas pequenas obsessões.
No final, o filme deixa uma impressão curiosa. Não é exatamente uma grande narrativa histórica e também não é apenas um musical. É uma espécie de álbum de fotografias em movimento. Uma coleção de momentos que, isoladamente, parecem pequenos, mas que juntos formam uma história enorme. E talvez seja justamente por isso que a ausência de diálogos funcione tão bem: quando ninguém explica o que está acontecendo, somos obrigados a observar.
Gostei muito da maneira como O Baile consegue ser ao mesmo tempo leve e melancólico. Há uma enorme diversão em observar aquelas pessoas, suas roupas, suas poses, seus fracassos amorosos e suas tentativas de parecer interessantes. Mas existe também uma consciência constante de que tudo aquilo vai passar. A música acaba, a pista esvazia e outra geração chega. A pessoa que estava dançando alguns minutos atrás já não está mais ali.
Scola faz um filme sobre a história sem colocar a História no centro. O que permanece é o indivíduo, com suas vaidades, seus desejos e suas pequenas tragédias. E talvez essa seja a grande graça de O Baile: perceber que, enquanto o mundo inteiro muda, algumas coisas continuam absurdamente iguais. No fim, continuamos entrando em salões, procurando alguém para dançar e tentando descobrir se alguém está olhando para nós.
Título: O Baile (Le Bal)
País: França, Itália, Argélia
Gênero: Drama, musical
Ano: 1983
Diretor: Ettore Scola
Duração: 112 minutos
Nota: 10/10

