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Noites de Cabíria (1957)

Noites de Cabíria (1957)

Cabíria é uma prostituta que vive nos arredores de Roma e tem uma espécie de talento impressionante para continuar acreditando nas pessoas depois de todas as evidências possíveis de que não deveria. Logo no começo, seu namorado Giorgio a empurra para dentro de um rio e rouba todo o dinheiro que ela carregava. Cabíria quase morre afogada, é salva por desconhecidos e, em vez de sair daquela experiência definitivamente convencida de que o mundo é um lugar horrível, continua sonhando com a possibilidade de encontrar alguém que goste realmente dela. É uma personagem que poderia facilmente ser transformada em caricatura da mulher ingênua, mas Fellini faz algo muito mais interessante: sua ingenuidade não é simplesmente estupidez. É quase uma estratégia de sobrevivência. Cabíria precisa acreditar que a vida pode melhorar porque, se deixar de acreditar nisso, sobra muito pouco.

E é impossível falar do filme sem falar de Giulietta Masina. Cabíria parece existir inteiramente no rosto dela, nos olhos enormes, no sorriso que aparece mesmo quando não deveria, na maneira de andar e principalmente naquela mistura muito particular de malícia, vergonha, orgulho e inocência. Masina poderia facilmente transformar a personagem em uma figura excessivamente engraçadinha, mas existe sempre alguma tristeza por trás da comicidade. Cabíria faz rir, mas a gente ri com uma certa culpa, porque sabe que aquela mulher está constantemente a um passo de ser humilhada novamente. E Fellini parece saber exatamente quando deixar a cena engraçada e quando retirar o tapete debaixo dos nossos pés.

A primeira metade do filme é quase uma coleção de pequenas humilhações. Cabíria se orgulha de ter sua própria casa, ainda que seja um lugar simples e minúsculo, e não parece particularmente interessada no dinheiro ou no glamour que os homens podem oferecer. Ela quer uma coisa muito mais banal e, justamente por isso, muito mais difícil: ser amada. Quando um famoso ator a leva para sua casa luxuosa, ela acredita por alguns instantes que aquilo pode ser uma espécie de conto de fadas. O cenário é perfeito para que ela finalmente seja tratada como alguém especial. Mas a amante do ator aparece e Cabíria acaba escondida no banheiro, reduzida a um incômodo que precisa ser retirado de cena. A situação é engraçada, mas também cruel. Ela não estava procurando riqueza; estava procurando dignidade e conseguiu exatamente o contrário.

O filme é cheio dessas situações em que Cabíria parece estar prestes a alcançar alguma coisa e imediatamente descobre que entendeu tudo errado. E isso poderia se tornar repetitivo, mas Fellini consegue variar as formas da desilusão. Há o homem que tenta matá-la, o ator que a transforma em uma aventura descartável, os colegas de profissão que riem de suas esperanças e, finalmente, Oscar, o contador que aparece justamente quando ela está mais disposta a acreditar em um milagre. Depois de tudo o que aconteceu, ela ainda olha para aquele homem e pensa: talvez agora seja diferente.

E é justamente aí que o filme fica mais cruel. Porque Oscar não precisa ser particularmente sedutor ou fascinante. Ele só precisa parecer normal. Depois de tantos homens que a trataram mal, a simples possibilidade de alguém aparentemente decente já é suficiente para Cabíria projetar nele uma vida inteira. Ela começa a imaginar casamento, estabilidade e uma mudança de vida. Vai juntando suas economias e, finalmente, entrega tudo ao homem em quem acredita. O problema é que o sonho dela é tão grande que qualquer pessoa minimamente habilidosa consegue entrar dentro dele.

O que mais gosto nisso é que Fellini não trata a prostituição de Cabíria como o grande problema que precisa ser resolvido para que ela seja feliz. Ela própria não parece ter vergonha de seu trabalho. A vergonha vem muito mais da maneira como os outros a enxergam. Existe uma diferença enorme entre a profissão que ela exerce e o lugar que os outros homens reservam para ela. Cabíria sabe negociar, sabe se defender, tem personalidade e é orgulhosa de sua independência. O que ela não sabe fazer é desconfiar de alguém que demonstra carinho.

Isso torna particularmente interessante a cena da peregrinação religiosa. Cabíria vai ao santuário junto com outras mulheres e pede um milagre. Ela quer mudar de vida, mas não necessariamente porque odeia a vida que tem. Ela quer deixar de estar sozinha. A religião aparece ali como mais uma possibilidade de acreditar que alguma coisa externa poderá finalmente reorganizar sua existência. E o filme não ridiculariza sua fé, embora exista um humor evidente na maneira como aquela multidão deposita suas esperanças em uma intervenção divina. Cabíria acredita porque precisa acreditar.

Ao mesmo tempo, Noites de Cabíria é um filme profundamente romano. Fellini não está interessado apenas na personagem, mas nas ruas, nos bairros pobres, nas multidões, nos tipos humanos que aparecem pelo caminho. A cidade não é aquela Roma monumental dos cartões-postais. É uma cidade periférica, desorganizada, cheia de gente tentando sobreviver. Há uma sensação de improviso em tudo, como se os personagens estivessem sempre ocupando temporariamente os espaços que encontram. Cabíria pertence àquela cidade e, de certa maneira, a cidade pertence a ela.

Há também algo muito bonito na relação entre o filme e o neorrealismo italiano. Fellini já está se afastando daquele realismo mais direto, deixando entrar elementos de fantasia, espetáculo e absurdo, mas ainda existe uma preocupação muito forte com pessoas marginalizadas, com a pobreza e com personagens que normalmente seriam tratados como secundários. Cabíria poderia ser apenas uma prostituta que aparece em uma história de homens; Fellini coloca essa mulher no centro e faz o mundo inteiro girar ao redor de sua tentativa desesperada de continuar acreditando na felicidade.

E acho que o filme fica ainda mais bonito porque nunca transforma Cabíria em uma santa. Ela é ciumenta, orgulhosa, desconfiada, temperamental e às vezes bastante desagradável. Ela também julga os outros e tem suas próprias pequenas crueldades. Mas isso faz com que ela pareça viva. Fellini não precisa torná-la moralmente impecável para que sintamos carinho por ela. Na verdade, quanto mais ela se comporta como uma pessoa comum, mais doloroso fica vê-la sendo enganada.

A sequência final é devastadora justamente porque não termina da maneira que esperamos. Depois de perceber a verdadeira intenção de Oscar, Cabíria vaga pela floresta completamente destruída. Ela perdeu dinheiro, esperança e, provavelmente, uma das últimas ilusões que ainda tinha sobre si mesma. Durante alguns minutos, parece que Fellini vai encerrar o filme em pura miséria. E então ela encontra um grupo de jovens andando pela estrada, tocando música, rindo e olhando para ela. Aos poucos, Cabíria começa a sorrir.

É um final que poderia ser sentimental demais, mas funciona porque o sorriso dela não significa que tudo está bem. Não significa que ela esqueceu o que aconteceu, que encontrou o amor ou que sua vida magicamente mudou. Significa apenas que ela ainda está aqui. Depois de ser enganada, roubada, humilhada e quase assassinada, ela ainda consegue olhar para aquelas pessoas e sorrir. É uma vitória minúscula, mas é a única que ela realmente precisa naquele momento.

E é justamente esse sorriso que muda completamente a leitura do filme. Se Fellini terminasse com Cabíria chorando, teríamos uma história triste sobre uma mulher enganada. Ao terminar com ela sorrindo, ele transforma a tristeza em alguma coisa mais complexa. Cabíria não venceu o mundo. O mundo continua sendo cruel, os homens continuam sendo capazes de machucá-la e provavelmente ela continuará cometendo os mesmos erros. Mas existe nela alguma coisa que o mundo não conseguiu destruir.

Esse aspecto me lembra um pouco A Estrada da Vida, também de Fellini e também estrelado por Masina, mas Cabíria é uma personagem muito mais consciente de si mesma. Gelsomina parece estar descobrindo o mundo; Cabíria já conhece o mundo e mesmo assim insiste em esperar alguma coisa dele. Isso torna sua esperança menos ingênua e, paradoxalmente, muito mais comovente.

Também gosto muito do equilíbrio entre humor e tragédia. Fellini não tem medo de fazer uma cena absolutamente engraçada imediatamente antes de uma situação dolorosa. Há personagens extravagantes, situações absurdas, mágicos, atores, prostitutas, religiosos, miseráveis e ricos passando pela mesma história. O filme tem uma energia quase carnavalesca, mas por baixo dela existe uma tristeza constante. É como se Cabíria estivesse sempre tentando dançar em cima de um chão que pode desaparecer a qualquer momento.

A trilha de Nino Rota ajuda muito nessa mistura. A música acompanha Cabíria com uma espécie de ternura que nunca parece completamente melosa. Existe algo infantil nela, mas também melancólico. A música parece entender a personagem melhor do que os homens que passam pela vida dela. E no final, quando os jovens aparecem, a combinação entre a música e o rosto de Masina transforma aquele sorriso em uma das imagens mais bonitas que Fellini já filmou.

O que fica para mim depois de Noites de Cabíria é justamente essa personagem andando pelas ruas com uma esperança que parece completamente irracional. Ela sabe que já foi enganada, mas não consegue deixar de imaginar que a próxima pessoa pode ser diferente. E talvez seja muito fácil olhar para isso de fora e chamá-la de ingênua. O filme é mais generoso. Talvez acreditar seja a única maneira que Cabíria encontrou de não se tornar aquilo que o mundo espera que ela seja: uma mulher amarga, desconfiada e completamente derrotada.

Fellini poderia ter feito um filme sobre uma mulher que precisa aprender a não confiar nos homens. Em vez disso, fez um filme sobre uma mulher que continua sendo capaz de confiar apesar deles. E isso é muito mais bonito. Cabíria não termina feliz exatamente; termina viva, caminhando, olhando para a câmera e sorrindo. Depois de tudo, já é bastante coisa.

Título: Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria)
País: Itália, França
Gênero: Drama
Ano: 1957
Diretor: Federico Fellini
Duração: 110 minutos
Elenco: Giulietta Masina, François Périer, Franca Marzi, Amedeo Nazzari
Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano e Tullio Pinelli, com colaboração de Pier Paolo Pasolini nos diálogos
Música: Nino Rota
Nota: 10/10