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Alma em Suplício (1945)

Alma em Suplício (1945)

Mildred Pierce é o tipo de personagem que parece ter sido criada para provar que a ideia de “mulher forte” pode ser, às vezes, apenas outro nome para uma mulher que não consegue mais parar. No início do filme, ela aparece como uma dona de casa de classe média que se esforça para manter a família funcionando enquanto o marido, Bert, está desempregado e o casamento dos dois se desfaz. Mildred tem duas filhas, Veda e Kay, mas desde cedo fica evidente que existe uma diferença brutal na maneira como ela olha para as duas. Kay é carinhosa, espontânea e pouco interessada em dinheiro. Veda, por outro lado, é uma menina extremamente consciente da própria posição social, que olha para a vida da mãe com uma espécie de desprezo aristocrático completamente incompatível com a realidade da família. Mildred percebe isso, mas, em vez de se incomodar, transforma a filha em projeto. É aí que começa a tragédia.

Depois da separação, Mildred precisa trabalhar e começa como garçonete. O filme não trata essa transformação como uma grande vitória feminista e edificante, e acho isso uma das coisas mais interessantes nele. Mildred trabalha porque precisa de dinheiro, porque precisa sustentar as filhas e porque não tem outra alternativa. Ela é competente, aprende rapidamente, observa o funcionamento do restaurante e percebe uma oportunidade de negócio. Com a ajuda da amiga Ida, começa a construir seu próprio empreendimento até abrir uma rede de restaurantes que se torna bastante bem-sucedida. Mildred consegue exatamente aquilo que pretendia: dinheiro, independência e uma casa confortável para as filhas. O problema é que Veda continua insatisfeita. Quanto mais Mildred sobe socialmente, mais Veda parece considerar a mãe vulgar por ter trabalhado para conseguir aquilo que possui. É uma relação particularmente cruel porque Mildred acredita que todo o seu esforço está sendo feito por amor, enquanto Veda enxerga esse mesmo esforço como uma obrigação materna da qual ela é a beneficiária natural.

E é impossível não ficar irritada com Mildred. Não porque ela seja uma personagem ruim, mas porque ela passa boa parte do filme fazendo escolhas que alimentam exatamente o comportamento que a destrói. Veda é manipuladora, esnobe, ingrata e perfeitamente consciente de que a mãe fará praticamente qualquer coisa para agradá-la. Ainda assim, Mildred continua cedendo. Compra roupas, paga aulas de piano, sustenta o padrão de vida que a filha exige e chega a se casar novamente com Monty Beragon, um homem rico e decadente que pertence à classe social que Veda admira. Mildred acredita que, se conseguir oferecer à filha uma vida suficientemente elegante, talvez finalmente seja aceita por ela. Só que Veda não quer apenas o dinheiro da mãe. Ela quer a confirmação de que pertence a um mundo em que Mildred jamais poderá entrar completamente.

É nesse ponto que Alma em suplício se torna muito mais interessante do que um simples melodrama sobre uma mãe sacrificada. O dinheiro funciona quase como uma linguagem de afeto dentro daquela família. Mildred não consegue dizer à filha “eu te amo” de uma maneira que seja suficiente para Veda, então oferece vestidos, aulas, casas, festas e oportunidades. Veda, por sua vez, aprende rapidamente que pode transformar a culpa materna em moeda. A relação das duas é uma espécie de negociação permanente, só que uma das partes acredita estar negociando por amor. O resultado é perverso: Mildred passa a vida inteira tentando comprar o amor da filha sem perceber que, quanto mais compra, menos precisa ser amada.

A estrutura do filme também é muito boa. A história começa praticamente pelo fim, com Mildred sendo interrogada pela polícia depois do assassinato de Monty. Só depois vamos descobrir o que aconteceu. Essa escolha dá ao filme uma atmosfera de mistério que aproxima o melodrama do noir. A fotografia em preto e branco, os interiores carregados, as sombras e a atmosfera noturna fazem com que a história doméstica adquira uma dimensão quase policial. E existe algo muito apropriado nessa combinação: por trás daquela casa bonita, daqueles restaurantes elegantes e daquela família aparentemente respeitável existe uma quantidade impressionante de ressentimento, mentira e manipulação.

Joan Crawford está excelente como Mildred. Ela interpreta a personagem com uma intensidade que poderia facilmente se tornar exagerada, mas que funciona justamente porque Mildred é uma mulher que vive no limite. Ela está sempre tentando provar alguma coisa: que é uma boa mãe, que consegue trabalhar, que consegue ganhar dinheiro, que consegue circular entre pessoas ricas, que consegue manter a família de pé. Mesmo quando finalmente conquista o sucesso, ela não parece exatamente feliz. Parece cansada. E talvez esse seja o detalhe mais triste da personagem: Mildred alcança tudo aquilo que imaginava querer e continua procurando aprovação.

Ann Blyth, como Veda, é quase deliciosamente detestável. Há algo muito moderno na personagem porque ela não é simplesmente uma filha ingrata; ela é alguém que entende perfeitamente o funcionamento das relações sociais e sabe usar isso a seu favor. Veda sabe quando parecer frágil, quando chorar, quando demonstrar carinho e quando fazer a mãe se sentir culpada. Ela é uma pequena predadora social. E o filme não precisa transformá-la em uma vilã caricatural desde o começo. Pelo contrário, quanto mais Mildred a idealiza, mais evidente fica para nós aquilo que ela não quer enxergar.

A morte de Kay é fundamental justamente porque mostra o tamanho do desastre provocado por essa dinâmica. Mildred perde uma filha que genuinamente a ama, mas é Veda quem ocupa quase todo o espaço emocional da mãe. É como se Mildred tivesse confundido intensidade com amor. Kay não exige nada extraordinário porque gosta da mãe como ela é. Veda exige tudo porque nunca está satisfeita. E Mildred, em vez de perceber a diferença, interpreta a dificuldade de Veda como prova de que precisa se esforçar ainda mais.

Também gosto muito de como o filme trata a ascensão social de Mildred. Há uma espécie de ironia cruel no fato de ela conseguir construir um império justamente através do trabalho que Veda despreza. Mildred começa servindo mesas e termina como proprietária de restaurantes sofisticados. Ela conquista dinheiro suficiente para comprar aquilo que Veda considera símbolo de pertencimento. Só que o dinheiro não apaga a origem de ninguém. Para Veda, a mãe continua sendo a mulher que trabalhou como garçonete. E, para Mildred, Veda continua sendo a menina cuja aprovação ela precisa desesperadamente conquistar.

O romance com Monty também funciona muito bem dentro dessa lógica. Ele representa exatamente o mundo que Mildred tenta alcançar e Veda deseja desesperadamente. Monty tem dinheiro, sobrenome, aparência e uma casa enorme, mas é essencialmente inútil. Ele não constrói nada. Mildred constrói tudo. Ainda assim, ela acredita que precisa daquele homem para completar a imagem da família que deseja apresentar. É quase uma caricatura do sonho de ascensão social: a mulher trabalha para produzir a riqueza enquanto o homem aristocrático fornece a aparência de legitimidade.

O filme é particularmente cruel porque Mildred não é destruída por falta de inteligência ou capacidade. Pelo contrário: ela é extremamente inteligente para os negócios. Sabe administrar restaurantes, sabe identificar oportunidades, sabe negociar. O ponto cego dela é emocional. Ela consegue perceber imediatamente quando um negócio não funciona, mas passa anos sem perceber que sua relação com Veda é uma fraude. É como se toda a inteligência prática desaparecesse quando a filha entra em cena.

E então chegamos ao desfecho, em que todas aquelas escolhas começam a se encaixar. Mildred finalmente precisa encarar a filha sem o verniz das roupas caras, do dinheiro e das justificativas maternas. A relação que ela passou anos tentando sustentar revela aquilo que sempre foi: uma mistura de amor, ressentimento, dependência e manipulação. E, quando Mildred finalmente se aproxima novamente de Bert, existe algo quase melancólico na simplicidade daquela conclusão. Depois de construir restaurantes, casar com homens ricos, perder uma filha, idolatrar outra e atravessar um assassinato, ela volta para uma realidade muito mais modesta. Como se todo aquele espetáculo tivesse servido apenas para mostrar que ela passou anos correndo atrás de uma coisa que nunca esteve onde imaginava.

O que mais gosto em Alma em suplício é justamente essa ausência de uma moral confortável. Mildred não é apenas vítima. Veda não é apenas monstro. Bert não é simplesmente um marido fracassado. Monty não é apenas um parasita. Todos participam daquela engrenagem de desejos e expectativas que vai destruindo a família aos poucos. Mildred quer ser necessária, Veda quer ser superior, Monty quer continuar vivendo como aristocrata sem precisar trabalhar e Bert quer recuperar uma vida que já não existe. Todo mundo quer alguma coisa de alguém. E ninguém parece capaz de simplesmente gostar de quem está diante deles.

É um melodrama, mas tem uma acidez que impede que ele se transforme naquela história edificante sobre uma mãe que faz tudo pelos filhos. Mildred faz tudo por Veda, sim, mas também há muito ego nessa devoção. Ela quer ser a mãe que deu tudo, a mulher que venceu, a pessoa que conseguiu proporcionar à filha uma vida melhor do que a sua. E talvez seja justamente isso que torne sua trajetória tão amarga: ela não percebe que, em algum momento, o amor deixou de ser cuidado e virou investimento.

No fim, Alma em suplício me parece menos uma história sobre sacrifício materno do que sobre o preço de transformar o amor em uma prova que precisa ser constantemente renovada. Mildred trabalha, enriquece, sofre, perdoa e insiste, sempre acreditando que o próximo gesto finalmente fará Veda enxergá-la. Não faz. E talvez nunca pudesse fazer. O filme entende que algumas relações não são destruídas por uma grande tragédia isolada, mas por pequenas concessões repetidas durante anos. Quando a tragédia finalmente chega, ela apenas revela o que já estava apodrecendo.

Nota: 10/10

Ficha técnica
Título: Alma em suplício (Mildred Pierce)
País: Estados Unidos
Gênero: Drama / Film noir
Ano: 1945
Diretor: Michael Curtiz
Duração: 111 minutos