Aconteceu naquela noite (1934)
Ellie Andrews é uma jovem rica, mimada e acostumada a conseguir exatamente aquilo que quer. Filha de um milionário, ela acaba de se casar escondida com King Westley, um homem que o pai considera inadequado e, por isso, mantém a filha praticamente presa em seu iate. Ellie consegue escapar e decide viajar sozinha para Nova York, onde pretende reencontrar o marido. No caminho, conhece Peter Warne, um jornalista desempregado que percebe imediatamente quem ela é. Ele sabe que a história de uma herdeira desaparecida renderia uma ótima matéria e, quando Ellie tenta seguir viagem, decide acompanhá-la. O que começa como uma negociação bastante interesseira vai se transformar, aos poucos, em uma das melhores histórias de amor que Hollywood já produziu.
O mais divertido em Aconteceu Naquela Noite é que Ellie e Peter passam uma quantidade impressionante de tempo irritando um ao outro. Ela é arrogante, impulsiva e completamente despreparada para a vida fora do luxo. Ele é cínico, mandão e tem prazer em lembrá-la de que, sem dinheiro, ela não sabe fazer praticamente nada. Os dois discutem, provocam-se, mentem um para o outro e competem o tempo inteiro. E é justamente por isso que o romance funciona tão bem. Frank Capra não precisa convencer ninguém de que eles são almas gêmeas; basta colocar os dois juntos e observar a química surgir da implicância.
Existe uma coisa muito gostosa na maneira como o filme trata Ellie. Ela começa como uma típica herdeira mimada, mas Capra não parece interessado em puni-la por ser rica. O que acontece é mais interessante: ao tirá-la de seu ambiente habitual, ele finalmente permite que ela descubra quem é quando não existe ninguém para resolver seus problemas. Ellie precisa aprender a pegar ônibus, dividir quarto, esconder-se da polícia, negociar preços e até tomar banho em condições completamente diferentes das que conhecia. Peter, por outro lado, começa a perceber que por trás da garota mimada existe alguém inteligente, engraçada e muito mais independente do que ele imaginava.
E é justamente nessa viagem que o filme constrói o romance. Não através de grandes declarações, mas através da convivência. Peter ensina Ellie a atravessar situações que ela nunca enfrentou e, em troca, ela começa a desmontar a arrogância dele. Aos poucos, eles desenvolvem uma intimidade que parece muito mais convincente do que aquela que Ellie tinha com King Westley. O marido rico aparece como uma escolha feita no impulso, quase como mais uma coisa que Ellie decidiu possuir. Peter, ao contrário, é alguém que ela passa a escolher depois de realmente conhecê-lo.
A diferença de classe poderia fazer o filme cair facilmente em uma fantasia ingênua sobre a riqueza. Mas Aconteceu Naquela Noite é surpreendentemente atento às desigualdades sociais. Ellie passa a viajar de ônibus e conviver com pessoas comuns, e Peter conhece muito bem as dificuldades econômicas que ela nunca precisou enfrentar. O filme encontra humor nessas diferenças, mas também usa a viagem para aproximar dois mundos que normalmente não se encontrariam. É uma comédia romântica, mas existe ali uma pequena fantasia democrática: para se apaixonarem, os dois precisam abandonar temporariamente as posições sociais que os separavam.
Peter é particularmente interessante porque não é exatamente um mocinho convencional. Quando encontra Ellie, sua primeira preocupação é conseguir uma boa história para o jornal. Ele a ameaça com a possibilidade de denunciá-la ao pai e praticamente transforma a fuga dela em uma oportunidade profissional. É bastante conveniente que, enquanto ele começa a se apaixonar, também possa continuar dizendo a si mesmo que está apenas trabalhando. Mas a relação vai mudando e, quando ele finalmente percebe que Ellie está realmente vulnerável, passa a protegê-la sem esperar nada em troca.
Clark Gable está excelente nesse papel porque consegue fazer Peter parecer simultaneamente um canalha e um homem extremamente charmoso. Ele tem aquela segurança de personagem que sempre parece saber o que fazer, mesmo quando claramente não sabe. Já Claudette Colbert é perfeita como Ellie porque não tenta fazer da personagem apenas uma mocinha encantadora. Ela é irritante quando precisa ser irritante, orgulhosa quando precisa ser orgulhosa e, principalmente, engraçada. A química entre os dois é o verdadeiro motor do filme.
E há uma cena que resume perfeitamente essa dinâmica: a famosa sequência da “muralha de Jericó”. Peter e Ellie precisam dividir um quarto durante a viagem, mas ele coloca um cobertor pendurado entre as duas camas para estabelecer uma separação. A barreira é obviamente uma piada, mas funciona também como símbolo do relacionamento inteiro. Eles estão cada vez mais próximos, mas continuam fingindo que existe uma distância enorme entre eles. É uma das maneiras mais inteligentes que o filme encontra para falar de desejo sem precisar explicá-lo.
Aliás, é impressionante como o filme consegue ser tão sexual sem precisar mostrar praticamente nada. Para uma produção de 1934, a quantidade de duplos sentidos, provocações e situações envolvendo intimidade é enorme. O Código Hays ainda nem havia sido aplicado com toda a força que teria posteriormente, e isso permite que Capra brinque muito mais livremente com o desejo entre os personagens. A própria “muralha” é uma piada sobre sexo. A maneira como Ellie troca de roupa, as conversas na estrada, os olhares, as situações constrangedoras: tudo está construindo uma tensão sexual que nunca precisa ser explicitada.
E talvez seja por isso que o filme envelheceu tão bem. A comédia não depende apenas de referências de sua época. Ela depende de comportamento humano. Duas pessoas que se atraem e não querem admitir. Uma pessoa rica descobrindo que não sabe fazer as coisas mais básicas. Um homem tentando parecer indiferente enquanto está cada vez mais apaixonado. Um casal discutindo por qualquer coisa porque discutir é uma maneira muito conveniente de evitar dizer o que realmente sente.
A sequência em que Peter ensina Ellie a fazer uma espécie de “aula” de comportamento para que eles consigam passar por um casal comum é deliciosa justamente porque ela expõe o quanto Ellie está deslocada daquele mundo. Ela precisa aprender até a comer de determinada maneira para não chamar atenção. E, ao mesmo tempo, Peter, que parece tão superior, também vai sendo desarmado por ela. O filme transforma a viagem em uma espécie de processo de educação sentimental para os dois.
Mas Aconteceu Naquela Noite também tem um lado muito mais amargo escondido dentro da comédia. A relação entre Ellie e o pai é fundamental para isso. O milionário Alexander Andrews inicialmente parece apenas o pai autoritário que quer impedir a filha de se casar. Só que, conforme a história avança, percebemos que ele não é simplesmente um vilão. Ele ama a filha e quer protegê-la, mas tenta fazer isso controlando sua vida. Ellie precisa fugir justamente porque, dentro daquela estrutura de riqueza e poder, não consegue tomar as próprias decisões.
O curioso é que o filme não transforma o pai em inimigo até o fim. Ele eventualmente percebe que Peter é realmente apaixonado por Ellie e que a filha também o ama. Existe uma espécie de reconciliação entre o desejo de proteção do pai e a necessidade de autonomia da filha. E isso torna o final mais satisfatório, porque Ellie não precisa simplesmente abandonar a família para conquistar sua liberdade. Ela consegue ser reconhecida como adulta.
Outro aspecto que adoro é o ritmo. O filme tem uma estrutura muito simples — duas pessoas viajando de um lugar para outro —, mas nunca parece parado. Cada parada na estrada cria uma nova situação, um novo conflito ou uma nova oportunidade para que os personagens se aproximem. É quase uma comédia de estrada antes de a comédia de estrada se tornar um gênero tão reconhecível.
E Capra sabe exatamente quando acelerar e quando deixar uma situação constrangedora durar um pouco mais. O humor nasce muitas vezes da espera, dos olhares e da reação dos personagens. Não é um filme que precisa transformar cada cena em uma sequência de piadas. Ele entende que é engraçado colocar duas pessoas muito diferentes em uma situação em que nenhuma delas sabe exatamente o que fazer.
Também acho fascinante como a viagem funciona como uma suspensão da realidade. Ellie está fugindo do pai, Peter está tentando conseguir uma matéria, ambos precisam esconder suas identidades e os dois estão literalmente entre dois lugares. Isso cria uma espécie de mundo provisório em que podem se conhecer sem as regras habituais de suas vidas. Quando chegarem ao destino, terão que decidir o que fazer com aquilo que descobriram.
E é aí que o romance ganha força.
Porque Aconteceu Naquela Noite não é apenas sobre duas pessoas que se apaixonam durante uma viagem. É sobre duas pessoas que descobrem uma versão de si mesmas que não conheciam. Ellie percebe que consegue viver sem o dinheiro do pai. Peter percebe que consegue se importar com alguém sem transformar tudo em uma oportunidade. Os dois entram na viagem desempenhando papéis e terminam completamente diferentes.
O final, com Peter chegando à casa dos Andrews e tudo caminhando para o casamento de Ellie com King Westley, parece encaminhar a história para uma resolução convencional. Mas o filme guarda sua melhor piada justamente para os últimos momentos. A famosa sequência das “muralhas de Jericó” finalmente encontra sua conclusão, e o que estava sendo usado como uma barreira entre os dois deixa de ter qualquer função.
É uma solução simples, engraçada e perfeita.
Talvez seja por isso que Aconteceu Naquela Noite seja tão fácil de amar. Ele não tenta transformar o romance em uma coisa grandiosa. Não precisa de sofrimento interminável, de tragédia ou de declarações exageradas. Basta acompanhar duas pessoas que começam se detestando, passam a se divertir juntas e finalmente percebem que a pessoa que mais as irritava acabou se tornando justamente aquela com quem querem ficar.
E existe algo muito moderno nisso.
Hoje estamos acostumados a romances construídos em torno da ideia de “alma gêmea”, como se o amor dependesse de encontrar alguém imediatamente perfeito para nós. Aconteceu Naquela Noite propõe quase o contrário. O amor nasce da convivência, da irritação, da descoberta, da admiração e da capacidade de enxergar o outro para além da primeira impressão.
Ellie não se apaixona por Peter porque ele é perfeito. Peter não se apaixona por Ellie porque ela deixa de ser mimada. Eles se apaixonam porque, no meio daquela viagem completamente improvável, começam a gostar da pessoa que existe por trás das máscaras.
E talvez seja exatamente isso que faça o filme continuar tão encantador.
É engraçado, romântico, inteligente e muito mais esperto do que parece à primeira vista. Um daqueles filmes antigos que não dão a sensação de estar assistindo a uma peça de museu, porque seus personagens continuam falando, brigando, desejando e se apaixonando de uma maneira reconhecível.
Para mim, é uma daquelas comédias românticas que justificam o próprio gênero. E, sinceramente, depois de quase cem anos, ainda é difícil fazer melhor.
Nota: 10/10
Título: Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night)
País: Estados Unidos
Gênero: Comédia, Romance
Ano: 1934
Diretor: Frank Capra
Duração: 105 minutos


