Triângulo da Tristeza (2022)
Ruben Östlund parece ter encontrado uma fórmula que funciona muito bem para me deixar desconfortável: colocar pessoas extremamente privilegiadas em uma situação em que aquilo que normalmente garante seu poder deixa de funcionar. Em Força Maior, era a imagem de um homem diante da própria covardia. Em Triângulo da Tristeza, ele amplia essa provocação e coloca modelos, bilionários, empresários, influenciadores e funcionários de um iate de luxo dentro de uma espécie de laboratório social flutuante. A diferença é que, desta vez, Östlund está muito menos interessado em observar uma família e muito mais interessado em destruir, uma por uma, as hierarquias que sustentam aquele grupo.
O filme começa com Carl e Yaya, um casal de modelos, e já nos primeiros minutos Östlund estabelece o tipo de relação que pretende observar. Eles discutem quem deve pagar a conta de um restaurante, e aquilo que poderia parecer uma briga banal rapidamente revela uma disputa muito maior sobre dinheiro, gênero e poder. Yaya é mais famosa e ganha mais dinheiro, enquanto Carl começa a perceber que, dentro da lógica daquele relacionamento, espera-se que ele aceite uma posição que não corresponde exatamente à imagem de masculinidade que gostaria de sustentar. Yaya, por sua vez, é bastante transparente sobre o que deseja: ela quer ser uma esposa troféu. Não existe grande romantismo na relação. Existe negociação.
Gosto dessa abertura porque ela apresenta uma das ideias que atravessam todo o filme: praticamente todas as relações humanas podem ser reduzidas a algum tipo de troca. Dinheiro, beleza, sexo, influência, trabalho, comida, poder. As pessoas estão sempre tentando descobrir o que possuem e quanto isso vale para os outros. Carl e Yaya negociam dinheiro e aparência. Os passageiros negociam dinheiro por conforto. A tripulação troca trabalho por gorjetas. E, quando todos chegam à ilha, aquilo que realmente importa passa a ser a capacidade de conseguir comida, água e fogo.
O título faz referência a uma expressão usada na indústria da moda para designar a região entre as sobrancelhas, aquela pequena marca que pode ser corrigida com procedimentos estéticos. É um título que parece superficial, mas combina perfeitamente com o filme. Östlund começa dentro do universo da aparência e termina em um lugar onde a aparência praticamente deixa de importar. A beleza, que no começo parece ser uma das formas mais importantes de poder, perde completamente o valor quando as pessoas precisam descobrir quem sabe pescar, acender uma fogueira ou encontrar água.
A segunda parte, passada no iate, é provavelmente a que mais gosto. Existe alguma coisa deliciosamente absurda na maneira como Östlund observa aquelas pessoas ricas vivendo dentro de um espaço em que tudo é feito para que elas não precisem fazer absolutamente nada. Os funcionários estão ali para atender a qualquer desejo. A chefe da tripulação, Paula, praticamente implora para que os passageiros sejam servidos da melhor maneira possível porque boas gorjetas são fundamentais. O dinheiro compra não apenas objetos, mas o comportamento de outras pessoas.
E é justamente aí que o filme começa a desmontar essa estrutura.
O jantar do comandante é uma sequência extraordinária de caos. O mar está agitado, os passageiros insistem em continuar a experiência e o menu sofisticado à base de frutos do mar começa a produzir consequências bastante desagradáveis. O que vem depois é uma das sequências mais nojentas que já vi em uma comédia, mas também uma das mais coerentes com o projeto do filme. Aqueles corpos que, até então, eram cuidadosamente vestidos, perfumados e apresentados como símbolos de sucesso passam a vomitar, defecar e perder completamente o controle.
É uma escolha óbvia, mas funciona porque Östlund não está simplesmente tentando provocar nojo. Ele está destruindo a distinção entre aqueles passageiros e qualquer outra pessoa. Dinheiro não impede o enjoo. Status não impede a diarreia. Um iate de luxo não muda o funcionamento do corpo humano.
E a situação fica ainda mais engraçada porque, enquanto todo mundo está passando mal, o capitão Thomas e Dimitri começam uma discussão política completamente absurda. Um marxista e um capitalista discutem enquanto o navio está literalmente mergulhando no caos. As citações de Marx, Reagan e outros nomes da política aparecem quase como uma competição de quem consegue fazer o discurso ideológico mais apropriado para aquele momento. É uma caricatura, evidentemente, mas acho interessante que Östlund não trate nenhum dos lados como particularmente inteligente.
A política, naquele momento, virou apenas mais uma forma de performance.
Isso me parece bastante importante para entender o filme. Todo mundo está performando alguma coisa. Carl e Yaya performam beleza e desejo. Os passageiros performam riqueza. Os funcionários performam cordialidade. Thomas e Dimitri performam suas convicções políticas. Até os discursos sobre igualdade e exploração aparecem dentro de um espaço em que todos continuam profundamente dependentes das estruturas que dizem criticar.
A explosão do navio funciona então como uma espécie de ponto de ruptura. É como se Östlund virasse a mesa e dissesse: muito bem, agora vamos retirar tudo isso.
Sem iate.
Sem funcionários.
Sem restaurantes.
Sem roupas sofisticadas.
Sem dinheiro.
Sem internet.
Sem público.
O que sobra?
A ilha transforma o filme em uma experiência completamente diferente. Abigail, que era apenas uma camareira dentro do iate, torna-se a pessoa mais importante do grupo porque sabe fazer aquilo que os outros não sabem: pescar, cozinhar e acender uma fogueira. De repente, a hierarquia econômica é substituída por uma hierarquia baseada em habilidades práticas.
Essa inversão é, para mim, a ideia mais interessante de Triângulo da Tristeza. Abigail não ficou mais inteligente de repente. Os bilionários não ficaram menos inteligentes. O que mudou foi o contexto. Dentro do iate, dinheiro e status determinavam poder. Na ilha, essas características são praticamente inúteis. A funcionária que antes servia os ricos passa a comandá-los.
E Östlund não apresenta essa inversão como uma utopia.
Isso é importante.
Abigail não se torna uma líder justa simplesmente porque agora tem poder. Ela rapidamente percebe que sua posição pode ser usada para obter aquilo que deseja. O relacionamento com Carl é o exemplo mais evidente. Ela oferece comida e abrigo em troca de sexo, e Carl aceita. A dinâmica que antes parecia ser determinada pela beleza agora é determinada pelo acesso aos recursos.
Yaya percebe a mudança e sente ciúmes, mas existe algo muito mais interessante acontecendo ali: Carl, que no começo estava preocupado com sua posição como homem dentro de uma relação com uma mulher mais famosa, agora está sendo disputado por duas mulheres. Só que a lógica continua sendo econômica. Ele está inserido em uma relação em que sexo e recursos estão sendo negociados.
O filme parece dizer que talvez o poder não desapareça quando mudamos as regras. Ele apenas muda de mãos.
É justamente por isso que considero a personagem de Abigail tão importante. Ela poderia facilmente ser apresentada como a “pobre explorada” que finalmente encontra uma oportunidade de vingança contra os ricos. Mas Östlund não faz isso. Ele mostra que, quando Abigail tem poder, ela também passa a reproduzir uma lógica de dominação. A opressão não desaparece; ela apenas troca de personagem.
A cena em que Yaya e Abigail sobem a montanha sintetiza muito bem essa transformação. Yaya acredita que está simplesmente conversando com Abigail, mas começa a perceber que a relação de forças mudou completamente. Quando elas encontram o elevador, descobrimos que aquele lugar aparentemente deserto é, na verdade, próximo de um resort de luxo. E esse detalhe muda tudo.
De repente, Abigail percebe que seu poder está prestes a desaparecer.
Se existe um elevador, existe civilização.
Se existe civilização, existe dinheiro.
Se existe dinheiro, ela volta a ser a camareira.
Por isso, o momento em que Abigail pega a pedra e olha para Yaya é tão perturbador. Ela pode matar Yaya e manter sua posição. Ou pode deixá-la viver e perder aquilo que conquistou.
E o filme termina antes de nos dar a resposta.
Confesso que esse final me divide. Por um lado, acho coerente com a proposta do filme deixar a decisão suspensa. Por outro, sinto que Östlund interrompe a história justamente quando ela poderia produzir uma consequência mais interessante. O corte para Carl correndo é engraçado, mas também reforça uma sensação que tive durante boa parte do filme: às vezes a provocação parece mais importante do que o desenvolvimento da ideia.
Esse é, inclusive, o principal motivo pelo qual minha nota fica em 7/10.
Eu gosto muito de Triângulo da Tristeza. Acho inteligente, visualmente interessante e, em vários momentos, extremamente engraçado. Mas também sinto que Östlund está mais preocupado em martelar sua tese do que em construir personagens que existam além dela. A crítica ao capitalismo, ao consumo, à indústria da beleza, às relações de gênero e às diferenças de classe é bastante evidente. Talvez evidente demais.
Depois de Força Maior, esperava um pouco mais daquela capacidade de encontrar uma situação aparentemente pequena e deixá-la crescer organicamente até se tornar uma crise moral. Em Triângulo da Tristeza, às vezes tenho a impressão de que o diretor já sabe exatamente qual ponto quer atingir e simplesmente constrói uma sequência de situações para chegar lá.
Isso não significa que o filme seja pouco inteligente. Pelo contrário. Existem ideias muito boas aqui. Só acho que, em determinados momentos, elas são apresentadas de maneira tão explícita que sobra pouco espaço para o espectador completar o raciocínio.
Ainda assim, é impossível negar o prazer de assistir àquilo tudo desmoronar. O luxo, a beleza, a etiqueta, o dinheiro, a educação, a política, as relações amorosas. Tudo parece funcionar enquanto existe uma estrutura sustentando aquelas pessoas. Quando essa estrutura desaparece, descobrimos que os valores que pareciam tão sólidos eram bastante frágeis.
E talvez seja essa a provocação que mais fica comigo depois do filme: não existe exatamente uma inversão entre ricos e pobres. Existe uma troca de circunstâncias. Quem tinha poder deixa de ter. Quem não tinha passa a ter. E, quase imediatamente, as pessoas começam a agir de maneira muito parecida com aqueles que estavam no lugar delas anteriormente.
No fim, Triângulo da Tristeza me parece menos uma crítica sobre quem tem dinheiro do que uma crítica sobre o próprio poder. Sobre como ele modifica relações, como cria hierarquias e como é difícil abrir mão dele depois que finalmente conseguimos experimentá-lo.
É um filme bastante engraçado, algumas vezes brilhante e outras vezes excessivamente interessado em provar que é inteligente. Eu gostei mais de suas ideias do que de sua execução em alguns momentos, mas ainda acho que a experiência vale muito a pena. Principalmente porque, mesmo quando parece estar apenas provocando, Östlund consegue fazer uma coisa que poucos diretores fazem tão bem: me deixar desconfortável com coisas que, até alguns minutos antes, pareciam completamente normais.
Nota: 7/10
Ficha técnica
Título: Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness)
Ano: 2022
País: Suécia / França / Alemanha / Estados Unidos / Reino Unido
Direção: Ruben Östlund
Roteiro: Ruben Östlund
Gênero: Comédia / Humor ácido / Drama
Duração: 147 minutos
Elenco: Harris Dickinson, Charlbi Dean, Woody Harrelson, Dolly De Leon, Zlatko Burić, Vicki Berlin e Henrik Dorsin
Direção de fotografia: Fredrik Wenzel
Montagem: Mikel Cee Karlsson e Ruben Östlund
Música: Mirsini Viossatou
Palma de Ouro: Festival de Cannes, 2022


