Suspiria (1977)
Suzy Bannion é uma jovem bailarina americana que viaja para a Alemanha para estudar em uma prestigiada academia de dança. Logo na chegada, ainda durante uma tempestade, ela presencia uma cena estranha: uma aluna sai correndo da escola, aparentemente desesperada, e pouco depois é brutalmente assassinada. Suzy entra na academia mesmo assim e começa a perceber que há alguma coisa muito errada naquele lugar. As professoras são estranhas, as alunas parecem assustadas e acontecimentos inexplicáveis começam a se acumular ao redor dela. O problema é que Suspiria nunca parece muito interessado em fazer com que tudo isso faça sentido. E acho que é justamente aí que está uma parte considerável de sua força e também de sua fraqueza.
A história, olhando friamente, é bastante simples. Suzy investiga os acontecimentos da escola e descobre que existe uma conspiração envolvendo bruxas, liderada por Helena Markos, uma antiga professora de dança. A academia é, na verdade, uma espécie de fachada para esse grupo de mulheres que utiliza a escola para esconder seus rituais. Há mortes, perseguições, corredores escuros, quartos assustadores e uma sucessão de acontecimentos cada vez mais absurdos até o confronto final. É uma estrutura bastante tradicional de filme de terror, mas Argento está muito menos interessado na lógica da investigação do que na experiência sensorial de acompanhar Suzy naquele pesadelo.
E é aí que Suspiria realmente me ganha. Visualmente, o filme é impressionante. Talvez seja um dos filmes de terror mais bonitos e mais agressivamente estilizados que já vi. Argento usa cores de uma maneira quase irresponsável. Vermelho, azul, verde e amarelo não aparecem apenas para iluminar os ambientes; parecem determinar o estado emocional de cada cena. As paredes, os corredores e os objetos são banhados por cores tão fortes que o cenário deixa de parecer um espaço real. A academia não parece uma escola de dança. Parece uma casa de bonecas demoníaca.
O vermelho, principalmente, é quase um personagem. Quando aparece, não é simplesmente vermelho: é uma ameaça. As luzes parecem pulsar, os ambientes parecem contaminados pela cor e até as cenas mais banais ganham uma aparência de pesadelo. É um filme em que a direção de arte parece ter recebido a seguinte instrução: “se puder escolher entre uma cor normal e uma cor completamente absurda, escolha a absurda”. E funciona.
A fotografia de Luciano Tovoli é fundamental para isso. O filme foi fotografado em Technicolor, e Argento aproveita a saturação das cores para criar uma estética que não tenta reproduzir o mundo real. Ao contrário de muitos filmes de terror que usam a escuridão para esconder seus monstros, Suspiria frequentemente faz o oposto: ilumina tudo de maneira exagerada. O medo está à vista. Não é preciso enxergar melhor para entender o que está acontecendo; enxergar melhor só torna tudo mais estranho.
Também gosto muito da arquitetura da escola. O espaço parece ter sido construído especificamente para que alguém se perca dentro dele. Portas, corredores, escadas, janelas e passagens criam uma sensação constante de labirinto. Suzy entra naquele lugar e parece imediatamente presa. Mesmo quando não há ninguém perseguindo-a, o próprio cenário dá a impressão de que alguma coisa pode aparecer a qualquer momento.
A abertura é talvez o melhor exemplo disso. Suzy chega à escola durante uma tempestade, com o vento, a chuva e a música do Goblin criando uma atmosfera quase operística. A porta se fecha atrás dela e parece que ela acabou de entrar em outro universo. É uma cena que praticamente anuncia: esqueça a realidade daqui para frente.
E a trilha sonora é impossível de ignorar. O Goblin cria uma música que mistura rock progressivo, sintetizadores, vozes e sons que parecem vir de algum ritual pagão. A trilha não está simplesmente acompanhando o terror; ela está constantemente anunciando que alguma coisa terrível está prestes a acontecer. Em alguns momentos, inclusive, acho que a música é mais assustadora do que as próprias cenas.
O problema é que toda essa beleza também deixa muito evidente o quanto o roteiro é secundário. A investigação de Suzy é bastante conveniente. Ela encontra pistas, escuta conversas e chega a conclusões que muitas vezes parecem existir apenas para levar a história para o próximo cenário. As personagens secundárias também são pouco desenvolvidas. Sabemos que existe uma tensão entre as alunas e as professoras, mas não necessariamente sentimos que conhecemos aquelas pessoas o suficiente para que todas as mortes tenham o impacto emocional que poderiam ter.
E isso me impede de gostar do filme tanto quanto a sua estética gostaria que eu gostasse. Suspiria é um filme que consigo admirar mais do que exatamente me envolver com ele. Eu olho para determinadas cenas e penso “isso é maravilhoso”, mas nem sempre penso “preciso saber o que vai acontecer com essa personagem”. A experiência é muito mais visual e sensorial do que narrativa.
Por outro lado, quando Argento decide simplesmente mostrar o horror, ele é extremamente eficaz. A primeira grande morte é um exemplo perfeito. O assassinato é longo, gráfico e completamente estilizado. Não existe pressa. A câmera observa o corpo sendo violentamente destruído enquanto as cores e a música transformam a cena em uma espécie de espetáculo. É brutal, mas também estranhamente belo. E essa combinação de beleza e violência talvez seja a característica mais marcante do filme.
Há algo quase infantil na maneira como Suspiria encara o terror. Não é o horror realista de alguém sendo perseguido por um assassino em uma casa comum. É o medo de entrar em um lugar colorido demais, ouvir uma música estranha e descobrir que todas as mulheres ao seu redor estão escondendo alguma coisa. É um pesadelo de infância levado a sério por um diretor que decidiu decorá-lo com cores fluorescentes.
Também acho interessante que a protagonista seja uma bailarina. O balé já tem uma relação natural com disciplina, perfeição, dor física e controle do corpo. A escola de dança, portanto, é um cenário perfeito para um filme sobre mulheres sendo submetidas a forças que controlam seus corpos. Só que Suspiria não desenvolve essa ideia de maneira particularmente sofisticada. Ela está muito mais presente na atmosfera do que no roteiro.
O próprio corpo feminino é tratado de forma bastante gráfica ao longo do filme. As mortes são físicas, exageradas e frequentemente coreografadas. A violência parece quase uma extensão da dança. Os corpos são movimentados, contorcidos, perfurados e arrastados pelo espaço. Há uma teatralidade enorme nisso, e acho que essa é uma das razões pelas quais o filme continua tão influente.
E não dá para falar de Suspiria sem falar da casa como organismo. A academia parece viva. Ela produz sons, esconde passagens, muda de aparência conforme a iluminação e constantemente faz Suzy duvidar do que está vendo. O sobrenatural não está apenas escondido dentro dela. Parece estar impregnado nas paredes.
O terceiro ato finalmente revela o que está acontecendo e entrega uma conclusão bastante simples: há uma bruxa, há outras bruxas e Suzy precisa sobreviver. É quase engraçado depois de toda a construção. Passamos mais de uma hora acompanhando uma investigação cheia de símbolos, pistas e acontecimentos estranhos e, no fim, a explicação é basicamente: sim, eram bruxas mesmo. Mas talvez exigir mais seja perder o ponto do filme. Argento não quer construir uma mitologia particularmente complexa. Quer criar um pesadelo.
E como pesadelo, Suspiria funciona muito melhor do que como história de terror convencional. É uma experiência estética antes de ser narrativa. Há filmes que você lembra pelo que aconteceu com os personagens; Suspiria é um filme que você lembra pelas cores, pela música, pelos corredores, pela arquitetura e por determinadas imagens que parecem ter sido gravadas diretamente na memória.
Não acho que seja um filme perfeito. A história é simples demais, alguns personagens são praticamente acessórios e a investigação nem sempre convence. Mas é difícil negar a personalidade visual de Dario Argento. Ele não parece preocupado em fazer um filme de terror “realista” ou mesmo particularmente lógico. Ele quer construir uma experiência que pareça um sonho ruim — e, nesse aspecto, é extremamente bem-sucedido.
No fim, fiquei mais impressionada com o filme que vi do que envolvida com a história que ele contou. E talvez isso seja suficiente. Suspiria é menos um filme para acompanhar atentamente e mais um filme para se deixar contaminar. As cores, a música e os cenários fazem praticamente todo o trabalho, criando uma atmosfera tão específica que poucas obras conseguem reproduzir. É exagerado, barroco, colorido, violento e, em vários momentos, completamente absurdo.
Mas é um absurdo muito bonito.
Título: Suspiria
País: Itália
Gênero: Terror
Ano: 1977
Diretor: Dario Argento
Duração: 98 minutos
Nota: 7/10


