A grande cidade (1966)
Luzia chega ao Rio de Janeiro vinda do Nordeste em busca de Jasão, seu noivo, carregando aquela esperança meio ingênua de quem acredita que mudar de cidade também pode significar começar outra vida. Só que o Rio de Janeiro de Cacá Diegues não está particularmente interessado em receber ninguém. A cidade é enorme, barulhenta, violenta e indiferente, e Luzia rapidamente descobre que o homem que veio procurar não é mais o vaqueiro que deixou para trás. Jasão se transformou em criminoso e vive escondido da polícia. No caminho, ela conhece Calunga, um malandro carioca que funciona quase como seu guia turístico de um Rio que não tem absolutamente nada de turístico, e Inácio, outro nordestino que, ao contrário dela, só pensa em voltar para casa. O filme acompanha esses quatro personagens em uma cidade que parece engolir qualquer possibilidade de futuro antes mesmo que ela consiga nascer.
O que mais me chamou atenção em A Grande Cidade é justamente a maneira como Diegues transforma o Rio em personagem. Não é apenas o lugar onde a história acontece: é uma espécie de máquina que movimenta, confunde e destrói as pessoas. Logo no começo, Calunga quebra a narrativa e passa a conversar com pessoas pelas ruas, perguntando sobre suas rotinas, quanto trabalham, quanto tempo gastam andando e o que fazem com o pouco tempo que sobra. É uma escolha que poderia facilmente parecer pretensiosa, mas aqui funciona porque deixa muito claro o que o filme quer investigar: quem são essas pessoas que vivem na cidade e o que, afinal, a cidade permite que elas façam com a própria vida?
E a resposta não é muito animadora. O Rio apresentado por Diegues é uma cidade de contrastes violentos. A câmera encontra as pessoas nas ruas, acompanha trabalhadores, atravessa espaços populares e coloca a classe média e os ambientes mais pobres dentro do mesmo quadro. Não existe aquela ideia confortável de uma cidade dividida em mundos completamente separados. Eles estão todos ali, ocupando o mesmo espaço, mas vivendo realidades absolutamente diferentes. O filme pertence a um momento importante do Cinema Novo justamente por colocar no centro personagens que o cinema brasileiro tradicionalmente preferia manter como paisagem.
Luzia é particularmente interessante porque ela chega ao Rio ainda acreditando em uma narrativa romântica. Ela veio encontrar o noivo. Quer recuperar uma vida que, na verdade, já deixou de existir. O problema é que o filme não transforma essa ingenuidade em motivo para ridicularizá-la. Pelo contrário: há alguma ternura na maneira como Anecy Rocha interpreta a personagem. Luzia parece estar sempre um pouco deslocada daquele ambiente, como se ainda estivesse tentando entender as regras de um jogo que os outros personagens já aprenderam a jogar. E talvez seja justamente por isso que ela seja a personagem mais trágica do filme: ela ainda acredita que as relações humanas podem funcionar como funcionavam antes de a cidade chegar até elas.
Calunga, interpretado por Antônio Pitanga, é praticamente o oposto. Ele conhece as ruas, sabe circular, conhece pessoas, entende os códigos daquele lugar e parece encarar a vida como uma sucessão de oportunidades e pequenos golpes. Mas há alguma coisa de profundamente triste nesse personagem. Sua malandragem não é exatamente liberdade; é adaptação. Ele aprendeu a sobreviver porque não tem muitas outras opções. A pesquisa acadêmica sobre o filme inclusive identifica Calunga como uma espécie de cicerone migrante, alguém que apresenta o espaço urbano aos demais personagens e, ao mesmo tempo, funciona como narrador dessa cidade.
É aí que o filme fica particularmente bom: ninguém parece completamente senhor do próprio destino. Jasão virou bandido, Inácio quer desesperadamente voltar para o Nordeste, Luzia procura um amor que já não existe e Calunga parece condenado a continuar circulando pela cidade, sempre em movimento, sem necessariamente chegar a lugar algum. São personagens que chegaram de longe, como diz o subtítulo do filme — As aventuras e desventuras de Luzia e seus três amigos chegados de longe —, mas que não encontram exatamente aquilo que vieram procurar.
Também gostei muito de como Diegues não transforma essa discussão social em um discurso completamente mastigado. O filme é claramente político, mas sua política está principalmente na maneira como olha para os personagens e para os espaços que eles ocupam. A questão racial também está presente, especialmente na trajetória de Calunga, embora não seja formulada diretamente em discursos sobre racismo. Estudos sobre o filme apontam justamente essa relação entre representação do negro, cultura popular e crise do projeto nacional-popular que atravessava o Cinema Novo naquele momento.
A música também tem um papel enorme nessa construção. A Grande Cidade não usa a trilha apenas para acompanhar o que está acontecendo; ela ajuda a organizar o próprio filme. A estrutura narrativa é dividida em quatro capítulos associados a Luzia, Jasão, Inácio e Calunga, e a música acompanha essas divisões, associando diferentes personagens a diferentes gêneros e compositores. O samba de Zé Kéti, especialmente, parece resumir a contradição fundamental do filme: a cidade pode ser fascinante, cheia de movimento, música e possibilidades, mas também pode ser um lugar profundamente cruel.
E existe uma coisa que acho particularmente bonita nisso: A Grande Cidade não parece ter nenhuma vontade de apresentar o Rio como uma cidade “feia”. Pelo contrário. Há momentos em que a cidade é filmada com uma energia quase sedutora. O problema é justamente esse. Ela é bonita, fascinante, viva — e completamente capaz de destruir você. Talvez seja por isso que o filme continue funcionando tão bem. A promessa da cidade grande continua praticamente a mesma décadas depois: venha para cá, aqui tudo acontece. Só esquecem de avisar que, às vezes, tudo acontecer significa também dar muito errado.
O filme tem alguns momentos em que sinto a mão do Cinema Novo ficando um pouco pesada demais. Há uma vontade muito evidente de dizer alguma coisa, e algumas passagens soam mais construídas como intervenção política do que como desenvolvimento dramático. Também não acho que todos os personagens tenham a mesma força e, em alguns momentos, a narrativa parece se dispersar porque quer abraçar uma quantidade enorme de questões ao mesmo tempo. Mas, curiosamente, isso combina com a própria proposta. É um filme sobre uma cidade caótica e sobre pessoas tentando encontrar algum sentido dentro dela; esperar uma narrativa completamente organizada talvez fosse exigir que o filme mentisse sobre aquilo que está tentando representar.
O final é particularmente forte. Depois de tudo que aconteceu, Calunga segue sozinho, enquanto o rádio continua despejando notícias políticas sobre o mundo. Ele caminha pela estrada, aparentemente sem destino, enquanto a realidade histórica continua acontecendo indiferente ao drama daquele homem. Quando finalmente encara a câmera, o filme congela sua imagem e termina. É um encerramento que gosto muito porque recusa uma conclusão confortável. Não há uma grande lição, uma redenção ou a sensação de que alguma coisa foi resolvida. A cidade continua. As notícias continuam. A vida continua. Só aquele personagem parece ter ficado temporariamente suspenso diante de nós.
No fim, o que fica para mim é justamente essa sensação de que A Grande Cidade é menos um filme sobre quatro pessoas do que sobre o que acontece quando pessoas completamente diferentes são jogadas dentro de uma metrópole que não foi construída para acolhê-las. Luzia chega procurando amor, Inácio procurando retorno, Jasão tentando sobreviver e Calunga tentando se divertir. Nenhum deles consegue exatamente o que queria. E talvez essa seja a grande ironia do filme: a cidade oferece possibilidades infinitas, mas não necessariamente oferece possibilidades para todo mundo.
É um filme muito brasileiro, muito carioca e muito ligado ao seu momento histórico, mas que ainda consegue ser reconhecível porque a sensação de estar perdido numa cidade grande não envelheceu nem um pouco. O Rio de 1966 parece distante em quase tudo, mas a mistura de desigualdade, improviso, violência, desejo de ascensão e gente tentando simplesmente sobreviver continua absurdamente familiar. E Diegues entende que a melhor maneira de filmar uma cidade assim não é explicá-la. É deixar que ela engula os personagens diante da câmera.
Título: A Grande Cidade
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1966
Diretor: Cacá Diegues
Duração: 90 minutos
Nota: 9/10


