Interiores (1978)
Interiores é um daqueles filmes em que ninguém parece particularmente interessado em ser feliz. E talvez essa seja justamente a sua graça. Woody Allen abandona completamente o humor que havia marcado sua carreira até então para fazer um drama familiar seco, claustrofóbico e deliberadamente desconfortável. A história acompanha Eve, uma decoradora de interiores extremamente controladora, casada há décadas com Arthur, um homem que parece ter passado a vida inteira tentando não incomodá-la. Os dois têm três filhas: Renata, uma escritora insegura e frustrada; Joey, que vive à sombra da irmã e sente que nunca consegue encontrar uma identidade própria; e Flyn, atriz bem-sucedida e emocionalmente mais distante da família. Quando Arthur decide deixar Eve temporariamente, alegando que precisa de espaço, a estrutura familiar cuidadosamente organizada começa a desmoronar.
O interessante é que o filme não apresenta a separação como uma explosão. Não existe uma grande traição, uma descoberta chocante ou uma briga capaz de explicar tudo. Arthur simplesmente parece ter chegado ao limite. Eve transformou a própria casa, o marido e as filhas em projetos que precisam ser constantemente organizados, corrigidos e aperfeiçoados. Ela controla a decoração, a alimentação, o comportamento dos outros e até a maneira como os sentimentos devem ser expressos. O problema é que, quanto mais tenta criar um ambiente perfeito, mais sufocante ele se torna. E acho que o título Interiores funciona muito bem justamente por isso: estamos falando tanto dos espaços físicos quanto das pessoas completamente presas dentro deles.
Eve é uma personagem difícil de suportar, mas também é difícil simplesmente odiar. Geraldine Page faz uma interpretação extraordinária, quase sem permitir que a personagem escape de sua própria rigidez. Ela fala baixo, movimenta-se com cuidado e parece estar permanentemente tentando impedir que alguma coisa saia do lugar. Até seus objetos precisam obedecer a uma lógica estética. Quando Arthur decide sair de casa, ela reage como se ele tivesse cometido uma espécie de vandalismo contra a própria vida. Para Eve, a existência precisa ser organizada para fazer sentido. O problema é que pessoas não são móveis.
As três filhas, por sua vez, parecem diferentes versões da mesma doença familiar. Renata é a intelectual, a filha que conseguiu transformar sua angústia em literatura, mas que continua completamente insegura sobre o próprio talento. Joey é mais agressiva e ressentida, sempre convencida de que Renata recebe uma espécie de reconhecimento que ela nunca terá. Flyn, interpretada por Kristin Griffith, é a que conseguiu escapar parcialmente daquela dinâmica porque sua profissão e sua vida em Los Angeles lhe permitem manter alguma distância. Mas nem ela está realmente livre. Quando volta para casa, imediatamente é puxada de volta para aquele sistema de relações em que todo mundo conhece exatamente os pontos fracos de todo mundo.
O filme me parece particularmente cruel na maneira como trata a rivalidade entre as irmãs. Não há uma vilã clara. Renata não é simplesmente a irmã arrogante, Joey não é apenas invejosa e Flyn não é apenas a filha superficial. Todas têm motivos para se ressentirem umas das outras. E todas também são um pouco insuportáveis. É uma família em que ninguém sabe conversar sem transformar uma conversa em julgamento, defesa ou ataque. As pessoas não dizem exatamente o que sentem; ficam circulando em torno dos sentimentos, interpretando o comportamento dos outros e tentando descobrir quem está sofrendo mais.
E então Arthur volta para casa acompanhado de Pearl, uma mulher completamente diferente de Eve. Pearl é calorosa, expansiva, espontânea e aparentemente muito mais confortável com a própria imperfeição. Ela entra naquela casa como uma espécie de corpo estranho. E é justamente por não obedecer às regras estéticas e emocionais de Eve que sua presença se torna tão ameaçadora. Não porque Pearl seja particularmente sofisticada ou interessante, mas porque ela representa uma possibilidade que Eve não consegue compreender: a de existir sem transformar cada aspecto da vida em uma tentativa de controle.
Diane Keaton, como Joey, é talvez a personagem que mais me interessa porque ela parece ser a única que percebe a artificialidade daquele universo o tempo inteiro. Joey quer escrever, quer encontrar alguma coisa que seja realmente sua, mas está paralisada pela própria insegurança. Ela observa a família e parece estar sempre pensando: “isso aqui é ridículo”. Só que também está completamente presa àquilo. É como se sua consciência sobre a doença da família não fosse suficiente para curá-la.
E é justamente aí que Interiores pode ser um filme frustrante. Woody Allen não está interessado em oferecer alívio. Não há a válvula de escape da comédia, e muitas das conversas são tão emocionalmente carregadas que chegam perto do melodrama. Em alguns momentos, os personagens parecem estar falando ideias em vez de pessoas. Há diálogos que soam excessivamente literários, como se todos tivessem consciência de que estão dentro de um drama de Ingmar Bergman. E não é coincidência: a influência de Bergman é enorme, quase descarada. Allen está claramente tentando fazer seu próprio Gritos e Sussurros, trocando o humor neurótico por silêncios, ressentimentos e crises existenciais.
Mas, curiosamente, acho que essa artificialidade combina com o filme. A família de Interiores é artificial. Eles vivem dentro de uma espécie de cenário cuidadosamente montado, e a fotografia de Gordon Willis reforça isso o tempo inteiro. Os interiores são frios, minimalistas e extremamente compostos. A câmera observa os personagens de longe, muitas vezes deixando-os pequenos dentro dos ambientes. As casas parecem bonitas, mas não parecem acolhedoras. É como se alguém tivesse decorado uma casa pensando em uma fotografia de revista e esquecido que pessoas precisariam morar ali.
Essa escolha visual é provavelmente uma das coisas que mais gosto no filme. Woody Allen e Gordon Willis entendem que Eve não é apenas uma decoradora: ela é alguém que tenta transformar a vida em composição. As cores, os móveis, os espaços vazios e a arquitetura parecem extensões de sua personalidade. Quando Pearl entra nesse mundo, é quase como se alguém tivesse colocado uma pessoa viva dentro de uma fotografia. Ela não combina com aquilo. E justamente por isso ela parece muito mais viva do que todos os outros.
A relação de Eve com a própria casa também torna a separação ainda mais dolorosa. Arthur não está simplesmente abandonando a esposa; ele está destruindo a organização que ela construiu para sobreviver. E quanto mais ela tenta recuperar o controle, mais evidente fica que nunca teve tanto controle assim. O casamento estava funcionando porque Arthur aceitava ocupar o lugar que ela havia reservado para ele. Quando ele decide sair desse lugar, todo o sistema desaba.
O filme também tem uma visão bastante amarga sobre criação artística. Renata é escritora, mas não consegue acreditar no próprio trabalho. Joey quer escrever, mas sente que não tem talento. Flyn é atriz, mas sua profissão é tratada pela família quase como uma forma de superficialidade. É como se cada uma das filhas tivesse herdado uma necessidade de reconhecimento da mãe, mas nenhuma tivesse aprendido a acreditar que merece esse reconhecimento. A família produz artistas e, ao mesmo tempo, produz pessoas incapazes de se sentirem boas o suficiente.
E acho que essa é uma das coisas mais interessantes de Interiores: ninguém ali sabe exatamente como amar sem avaliar. Eles elogiam, criticam, protegem e ferem utilizando praticamente a mesma linguagem. Até os momentos de carinho carregam alguma cobrança. É uma família em que afeto parece sempre vir acompanhado de uma expectativa.
O resultado é um filme bastante desconfortável, e não necessariamente no sentido de “difícil de assistir”. É desconfortável porque reconhece uma coisa muito pouco elegante sobre relações familiares: às vezes não existe um grande acontecimento que explique por que as pessoas estão infelizes. Às vezes elas simplesmente passaram tanto tempo desempenhando determinados papéis que já não sabem quem seriam se deixassem de desempenhá-los.
Por isso, apesar de ser claramente um exercício de Woody Allen em direção ao drama europeu, Interiores funciona melhor quando deixa de tentar ser uma homenagem a Bergman e passa a ser um retrato bastante particular de uma família americana emocionalmente congelada. A influência é evidente demais para ser ignorada, mas o filme tem personalidade própria justamente na sua obsessão com classe, estética, criação artística e controle.
Não é um filme simpático, e certamente não é um filme divertido. Mas gosto da sua frieza. Gosto de como ele transforma uma casa bonita em um lugar assustador sem precisar de nada sobrenatural. E gosto principalmente da ideia de que Eve passou a vida inteira tentando construir interiores perfeitos enquanto ignorava completamente o que estava acontecendo dentro das pessoas que viviam neles.
No final, fica aquela sensação desagradável de ter passado uma hora e meia dentro de uma casa onde ninguém consegue respirar direito. E talvez seja exatamente essa a experiência que Woody Allen queria provocar. Interiores não quer que você goste daquela família. Quer que você observe o modo como ela funciona, perceba o quanto todos estão machucados e, talvez, reconheça alguma coisa daquela dinâmica em famílias que parecem muito mais normais.
Título: Interiores (Interiors)
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Ano: 1978
Diretor: Woody Allen
Duração: 93 minutos
Nota: 9/10


