Sorria (2022)
Há uma coisa particularmente irritante em filmes de terror sobre traumas: quase sempre os personagens passam boa parte da história tentando convencer os outros de que aquilo que estão vendo não é real, enquanto nós, espectadores, sabemos perfeitamente que alguma coisa está errada. Sorria poderia facilmente cair nessa armadilha e se tornar apenas mais um filme sobre uma mulher sendo desacreditada enquanto uma entidade demoníaca aparece atrás dela sorrindo. Felizmente, Parker Finn entende que o verdadeiro potencial da história está menos na criatura e mais naquilo que ela representa. A maldição de Sorria é, no fundo, uma versão sobrenatural de um trauma que vai sendo transmitido de uma pessoa para outra, sempre encontrando alguém fragilizado o suficiente para acreditar que está perdendo a própria sanidade.
Rose é uma psiquiatra acostumada a ouvir pessoas em seus piores momentos. É justamente por isso que a primeira cena do filme funciona tão bem. Ela recebe Lauren, uma paciente aterrorizada, que afirma estar sendo perseguida por uma entidade que assume a aparência de pessoas conhecidas e sorri para ela. Rose tenta manter a postura profissional, mas assiste à jovem se matar de uma maneira brutal diante dela. A partir daquele momento, a situação se inverte: a mulher que deveria compreender o trauma dos outros passa a ser aquela que precisa convencer todo mundo de que está sendo perseguida por alguma coisa que ninguém mais consegue enxergar.
E existe uma ironia bastante cruel nisso. Rose trabalha justamente em uma área na qual qualquer comportamento estranho pode ser interpretado como sintoma. Ela sabe quais palavras usar, conhece os mecanismos de negação e sabe exatamente como alguém pode parecer delirante para quem está do lado de fora. Quando começa a contar o que está acontecendo, portanto, ela não é apenas uma mulher assustada. É uma psiquiatra que sabe perfeitamente quais são as explicações racionais para aquilo que está vivenciando. Talvez por isso o terror funcione tão bem: Rose não consegue nem mesmo confiar no próprio diagnóstico.
A culpa pela morte da mãe também é fundamental. Quando criança, Rose presencia a tentativa de suicídio da mãe, que pede para que ela chame uma ambulância. Rose, tomada pelo medo, foge. A mãe morre, e ela passa o resto da vida carregando a sensação de que poderia ter feito alguma coisa. O demônio não precisa inventar uma fraqueza nova. Ele simplesmente encontra aquela que já estava ali. É assim que a maldição funciona: ela não cria o trauma, apenas enfia os dedos dentro dele e começa a apertar.
O sorriso, por isso, é uma escolha visual muito mais perturbadora do que parece inicialmente. Existe alguma coisa profundamente errada em uma pessoa sorrir quando deveria estar desesperada. O filme entende que o sorriso pode ser uma expressão extremamente agressiva quando colocado no contexto certo. Não é um sorriso de felicidade, mas uma espécie de aviso. E quanto mais Rose vê aquele sorriso, mais ele se torna associado à ideia de que ela perdeu o controle da própria percepção.
O filme também é muito eficiente em construir situações nas quais Rose não sabe mais se está diante de uma pessoa real ou da entidade. A cena em que ela conversa com a terapeuta e recebe uma ligação da própria terapeuta é particularmente boa. Aos poucos, ela percebe que a mulher sentada diante dela não é quem parece ser. O terror está justamente nessa dúvida: se qualquer pessoa pode ser uma manifestação da criatura, então não existe mais nenhum lugar seguro. Nem mesmo aqueles que deveriam ajudá-la.
E gosto muito de que o filme não transforme Rose imediatamente em uma protagonista completamente racional e competente. Ela toma decisões ruins, se isola, perde a confiança nas pessoas e começa a agir de maneira cada vez mais desesperada. Isso é importante porque Sorria não está interessado apenas em mostrar uma mulher tentando derrotar um monstro. Está mostrando alguém sendo lentamente convencida de que é impossível confiar no próprio cérebro. Quanto mais Rose tenta provar que está certa, mais louca parece.
A investigação conduzida por Joel também ajuda a dar ao filme uma estrutura mais interessante. Quando Rose descobre que existe uma sequência de mortes semelhantes e que todas as vítimas testemunharam um suicídio violento antes de morrer, a maldição deixa de parecer uma experiência exclusivamente pessoal. Existe um padrão. E o detalhe de que uma das vítimas conseguiu sobreviver porque matou outra pessoa cria uma solução moralmente repugnante: para escapar da maldição, é preciso transmiti-la a alguém.
É aí que Sorria deixa de ser apenas um filme sobre demônios e passa a ser um filme sobre trauma como uma espécie de herança. A violência passa de uma pessoa para outra. Quem sofre pode acabar reproduzindo o sofrimento. E a maneira mais fácil de sobreviver é fazer com que outra pessoa seja destruída no seu lugar. Não é exatamente uma metáfora sutil, mas também não precisa ser. O filme não tenta esconder aquilo que está fazendo.
Talvez a parte mais interessante seja justamente o conflito de Rose com essa possibilidade. Ela poderia matar alguém e sobreviver. O filme oferece uma saída concreta e horrível. Rose se recusa. Isso não significa que ela seja particularmente forte; significa apenas que ainda existe nela uma linha que não quer atravessar. E essa recusa torna o final inevitavelmente trágico.
Também gosto bastante da maneira como a família de Rose participa do problema. A irmã, que parece ter construído uma vida estável e convencional, não consegue compreender a situação da mesma maneira. Quando Rose aparece no aniversário do sobrinho, tudo deveria ser normal, mas o episódio do gato morto transforma a comemoração em um pesadelo. É uma das cenas mais desagradáveis do filme justamente porque mistura uma situação familiar banal com uma violência completamente absurda. Rose não está apenas perdendo o controle da própria vida; está começando a contaminar a vida das pessoas ao redor dela.
E talvez seja aí que o título se torna mais cruel. O sorriso é contagioso. Não literalmente como uma doença, mas como uma imagem. Depois que você o vê, começa a procurá-lo. Rose passa a enxergar aquela expressão em todo lugar, até não conseguir mais distinguir o sorriso real do sorriso da entidade.
A sequência na casa abandonada de sua infância é, para mim, uma das melhores do filme porque fecha o círculo. Rose retorna exatamente ao lugar em que seu trauma começou. Ela encontra a mãe e, por alguns instantes, parece estar diante da oportunidade de finalmente confrontar aquilo que carrega desde criança. Só que a entidade sabe exatamente onde tocar. Ela transforma a culpa de Rose em uma acusação: você deixou sua mãe morrer.
A resposta de Rose é importante. Pela primeira vez, ela tenta se defender. Ela não era adulta, não sabia o que fazer, estava apavorada. A culpa que carregou por tantos anos talvez nunca tenha pertencido realmente a ela. É um momento em que parece possível que a personagem consiga romper com aquilo que a persegue.
Mas o filme não deixa.
A sequência final é particularmente cruel porque Rose acredita que conseguiu chegar até Joel. Ela pede que ele fique com ela enquanto dorme e, por alguns instantes, encontra aquilo que mais precisava: companhia. Então ele começa a sorrir. É uma das melhores manifestações da lógica do filme. A entidade não precisa atacar Rose imediatamente. Ela só precisa destruir a confiança dela na última pessoa em quem ainda acredita.
E o desfecho, com Rose colocando fogo em si mesma enquanto Joel chega tarde demais, funciona justamente porque não oferece uma vitória reconfortante. Ela tentou resistir, tentou entender a maldição, tentou encontrar uma maneira de quebrar o ciclo sem machucar outra pessoa. No fim, falhou. E o olhar de Joel, refletindo a imagem de Rose já dominada pela entidade, deixa claro que o ciclo continuará.
O que me impede de dar uma nota ainda maior é que Sorria às vezes explica demais aquilo que seria mais interessante deixar no campo da sugestão. A investigação de Joel entrega ao espectador praticamente todas as regras da maldição, e algumas das soluções narrativas são bastante convenientes. Também não acho que todos os personagens secundários tenham a mesma força de Rose. O filme depende muito da atuação de Sosie Bacon para sustentar o crescente desespero da protagonista, e felizmente ela entrega exatamente isso.
Ainda assim, há uma competência muito grande na maneira como Parker Finn constrói o desconforto. A direção sabe quando mostrar e quando esconder, e o desenho de som é particularmente eficiente para criar a sensação de que alguma coisa está sempre prestes a acontecer. O filme entende que um corredor vazio pode ser mais assustador do que uma criatura pulando na tela, principalmente quando já sabemos que aquela criatura pode aparecer literalmente em qualquer rosto.
No fim, Sorria não inventa nada de particularmente novo quando falamos de terror psicológico, trauma ou maldições sobrenaturais. Mas também não acho que precise inventar. O que ele faz é pegar elementos bastante conhecidos e organizá-los de uma maneira eficiente, visualmente marcante e, em vários momentos, genuinamente perturbadora. O sorriso funciona, a atmosfera funciona e Rose funciona. E quando um filme de terror consegue me fazer desconfiar de qualquer pessoa que apareça sorrindo demais na tela, considero que ele fez seu trabalho.
Não é uma obra-prima, e algumas de suas metáforas são tão evidentes que praticamente entram na sala carregando uma placa explicativa. Mas é um terror inteligente o bastante para saber que o monstro mais assustador não é necessariamente aquele que aparece diante de Rose. É a culpa que ela carrega, a sensação de que ninguém acredita nela e, principalmente, a possibilidade de que aquilo que aconteceu com ela continue acontecendo com outra pessoa. O verdadeiro horror de Sorria está menos em morrer do que em perceber que, para sobreviver, talvez seja preciso transformar outra pessoa na próxima vítima.
Ficha técnica
Título: Sorria (Smile)
País: Estados Unidos
Gênero: Terror
Ano: 2022
Diretor: Parker Finn
Duração: 119 minutos
Nota: 8/10


