Rio, 40 Graus (1955)
Rio, 40 Graus tem uma coisa que eu gosto muito em certos filmes brasileiros: ele não parece estar tentando explicar o Brasil para ninguém. Nelson Pereira dos Santos simplesmente coloca a câmera na rua e deixa que a cidade aconteça diante dela. O resultado é um filme que acompanha cinco meninos negros e pobres que passam um domingo vendendo amendoim em diferentes pontos do Rio de Janeiro, mas que acaba sendo muito maior do que essa premissa. A cidade inteira entra no filme: o calor, o futebol, a praia, os morros, os turistas, os políticos, os trabalhadores, a malandragem, a pobreza e aquela mistura tão brasileira de festa e precariedade. É um Rio que parece estar sempre a poucos metros de distância de uma tragédia, mas que continua funcionando como se nada pudesse interrompê-lo.
O mais bonito é que os meninos não são tratados como coitadinhos. Eles têm personalidade, desejos, brigas, pequenas ambições e maneiras diferentes de enxergar o mundo. Eles estão trabalhando, mas também estão vivendo. Vendem amendoim para conseguir algum dinheiro, atravessam a cidade, observam os adultos e tentam aproveitar o domingo como podem. A pobreza está presente o tempo inteiro, mas não engole completamente os personagens. Isso faz uma diferença enorme. O filme não olha para eles de cima, como se estivesse apresentando ao espectador uma coleção de problemas sociais. Ele acompanha aquelas crianças como pessoas.
E o Rio de Janeiro é praticamente o protagonista. É curioso como o filme consegue ser tão urbano sem precisar ficar explicando a cidade. A câmera está nos morros, nas ruas, nas praias, no estádio, nos bairros ricos e nos lugares mais pobres. Os personagens atravessam esses espaços e, ao atravessá-los, revelam as diferenças sociais que existem dentro de uma mesma cidade. É como se os meninos fossem pequenas partículas circulando por uma máquina gigantesca. Eles podem chegar à praia, ao Maracanã ou a uma área rica, mas continuam pertencendo a um lugar muito diferente daquele dos homens e mulheres que frequentam esses espaços.
O título é perfeito porque o calor não é apenas meteorológico. O Rio está literalmente fervendo. As pessoas parecem estar sempre suadas, correndo, gritando, vendendo alguma coisa, jogando futebol ou tentando ganhar dinheiro. Existe uma energia quase documental nas imagens, e acho que é justamente isso que torna o filme tão vivo. Não parece que Nelson Pereira dos Santos construiu uma cidade para o filme. Parece que ele simplesmente encontrou uma cidade que já estava acontecendo e resolveu filmá-la.
E há uma espontaneidade muito interessante nos diálogos e nas situações. Rio, 40 Graus não tem aquela aparência excessivamente organizada de um cinema que precisa conduzir o espectador pela mão. A narrativa acompanha diferentes histórias e personagens, e algumas delas são interrompidas ou ficam pelo caminho. Isso pode causar uma certa sensação de dispersão, mas também é justamente o que faz o filme parecer uma fotografia de um domingo. A vida não tem roteiro. As pessoas aparecem, desaparecem, encontram alguém, brigam, perdem dinheiro, fazem planos e seguem em frente.
O futebol é outro elemento fundamental. O Maracanã aparece como um espaço de sonho coletivo, onde diferenças sociais parecem momentaneamente suspensas. É uma das poucas coisas capazes de reunir personagens de origens completamente diferentes. Mas o filme não transforma o futebol em uma solução mágica para a desigualdade. O jogo termina e cada um volta para sua realidade. A bola pode unir a cidade por algumas horas, mas não consegue apagar as diferenças que existem fora do estádio.
Isso também vale para a praia. O Rio vendido como cartão-postal está ali, mas Nelson Pereira dos Santos mostra o que existe atrás desse cartão-postal. Há um prazer enorme em filmar a paisagem carioca, mas existe também uma consciência de que aquela beleza convive com uma desigualdade brutal. O Rio é bonito e miserável, festivo e violento, moderno e profundamente desigual. Uma coisa não elimina a outra.
Talvez seja por isso que o filme tenha causado tanto impacto na época. Ele desloca o olhar para personagens e lugares que o cinema brasileiro frequentemente deixava de lado. E faz isso sem transformar a pobreza em espetáculo. Os meninos estão no centro da narrativa, mas não são usados apenas como símbolos. Eles são sujeitos dentro daquele espaço. Isso aproxima o filme do neorrealismo italiano, especialmente pela filmagem em locações e pela atenção ao cotidiano, mas Rio, 40 Graus não me parece simplesmente uma cópia do neorrealismo. Nelson Pereira dos Santos está encontrando uma maneira brasileira de fazer esse tipo de cinema.
Também gosto muito da maneira como o filme mistura o cotidiano com uma certa tensão. O espectador sabe que aqueles meninos estão vulneráveis. Eles circulam pela cidade sem proteção, lidando com adultos que nem sempre têm boas intenções. Mas o filme não precisa transformar cada momento em uma ameaça. A violência está presente como parte daquele mundo, e justamente por isso algumas situações têm uma força maior do que teriam se fossem apresentadas de maneira melodramática.
E existe uma ingenuidade que hoje pode chamar bastante atenção. Algumas atuações são mais naturalistas, outras são bastante teatrais; determinados diálogos têm uma artificialidade evidente; algumas situações parecem quase construídas para representar uma ideia. Mas, sinceramente, isso não me incomoda tanto. Acho que existe algo muito charmoso nessa imperfeição. É um filme que está tentando descobrir uma linguagem, e dá para sentir essa tentativa em cada cena.
O que mais me interessa é que Rio, 40 Graus não parece ter sido feito por alguém que queria apenas denunciar a pobreza. Existe uma preocupação política evidente, mas existe também afeto. Nelson Pereira dos Santos gosta daquela cidade. Ele gosta das pessoas, da música, do futebol, das ruas, do movimento. O filme não olha para o Rio como um lugar condenado. Pelo contrário: existe uma enorme vitalidade ali. O problema é que essa vitalidade é distribuída de maneira profundamente desigual.
E talvez seja isso que faça o filme continuar tão interessante tantos anos depois. O Rio mudou completamente desde 1955, mas algumas das imagens permanecem reconhecíveis. A desigualdade, a distância entre morro e asfalto, a importância do futebol, a informalidade, a relação entre pobreza e sobrevivência, a cidade transformada em espetáculo turístico — tudo isso continua fazendo parte do imaginário brasileiro. É impressionante assistir ao filme e perceber que algumas coisas envelheceram muito menos do que deveriam.
Há também algo muito bonito na ideia de acompanhar um único dia. O domingo começa e termina. As pessoas acordam, trabalham, se divertem, se apaixonam, brigam, jogam futebol e voltam para casa. Parece pouco, mas é justamente esse recorte que permite que o filme seja tão amplo. Nelson Pereira dos Santos não precisa contar a vida inteira daqueles personagens para falar sobre uma sociedade. Basta acompanhar algumas horas.
No fim, o que fica é uma cidade inteira em movimento. Os meninos vendem seus amendoins enquanto o Rio continua acontecendo ao redor deles, indiferente e fascinante. É um filme que olha para o cotidiano e encontra política sem precisar transformar cada cena em discurso. E talvez essa seja sua maior qualidade: ele entende que mostrar como as pessoas vivem já pode ser uma forma bastante poderosa de falar sobre como uma sociedade funciona.
Rio, 40 Graus tem algumas irregularidades, um certo didatismo e momentos em que é possível sentir a idade do filme. Mas também tem uma vitalidade impressionante. É um filme quente não apenas pelo título, mas porque parece ter sido feito com a cidade ainda fervendo diante da câmera. E é justamente essa sensação de estar vendo o Rio antes de ele virar apenas imagem de cartão-postal que torna a experiência tão interessante.
Ficha técnica
Título: Rio, 40 Graus
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1955
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Duração: 100 minutos
Elenco: Roberto Bataglin, Jece Valadão, Modesto de Souza, Glauce Rocha, Ana Maria Nabuco, Zé Keti
Nota: 9/10


