O beijo da mulher-aranha (1985)
Em uma cela de uma prisão latino-americana, dois homens completamente diferentes são obrigados a dividir o mesmo espaço. Luis Molina é um homossexual preso por corrupção de menores, sensível, vaidoso e apaixonado por cinema. Valentín é um militante político torturado e mantido preso por suas atividades contra o regime. Molina passa boa parte do tempo contando histórias de filmes que inventa ou reconta à sua maneira, enquanto Valentín inicialmente demonstra irritação com aquilo que considera escapismo. É uma situação curiosa: um homem tenta sobreviver refugiando-se na fantasia e o outro tenta sobreviver agarrando-se à realidade política. Aos poucos, porém, a distância entre os dois começa a desaparecer.
O que mais gostei em O Beijo da Mulher-Aranha é que Babenco consegue transformar uma cela minúscula em um espaço enorme. Quase tudo acontece entre aquelas quatro paredes, mas o filme está o tempo inteiro viajando. Molina conta histórias, descreve personagens, inventa diálogos e transforma a prisão em um cinema particular. Enquanto Valentín quer falar de política, revolução e tortura, Molina quer falar de mulheres bonitas, romances impossíveis e filmes antigos. No começo, parece que um está simplesmente tentando fugir do assunto do outro. Depois percebemos que os dois estão fazendo exatamente a mesma coisa: tentando encontrar alguma maneira de suportar a própria realidade.
William Hurt está extraordinário como Molina. Existe um risco enorme de transformar o personagem em uma caricatura afetada, especialmente porque ele é apresentado inicialmente através de seus trejeitos, sua maneira de falar e sua obsessão por cinema. Hurt, porém, consegue dar a Molina uma delicadeza que vai muito além disso. Ele é engraçado, dramático, inconveniente, carente e extremamente humano. Sua relação com a própria feminilidade é também uma espécie de mecanismo de sobrevivência. Molina inventa uma versão de si mesmo que parece mais suportável do que aquilo que a prisão permite que ele seja.
Raúl Juliá também está muito bem como Valentín, principalmente porque seu personagem começa quase como o oposto absoluto de Molina. Ele despreza a frivolidade do companheiro de cela, reclama de suas histórias e tenta manter uma postura racional diante de tudo. Mas a prisão vai corroendo essa segurança. Valentín também sente medo, sente desejo, sente solidão e precisa de algum tipo de consolo. A grande ironia é que justamente o homem que parece mais preocupado com a realidade política acaba precisando tanto da fantasia quanto Molina.
A estrutura do filme é particularmente interessante porque as histórias contadas por Molina aparecem visualmente na tela. Não ficamos apenas ouvindo suas descrições: somos transportados para os filmes que ele imagina. Há um melodrama de inspiração nazista, com uma cantora francesa apaixonada por um oficial alemão. A princípio, essas sequências parecem apenas um passatempo de Molina. Aos poucos, porém, percebemos que elas funcionam como um reflexo bastante evidente da própria situação dos dois homens.
Molina encontra no cinema aquilo que não consegue encontrar na vida real: uma possibilidade de romance, beleza e transformação. Ele pode imaginar mulheres que enfrentam perigos, homens misteriosos, amores impossíveis e finais dramáticos. É uma maneira de controlar minimamente o mundo. Na prisão, ele não controla praticamente nada. Nas histórias, pelo menos, pode decidir o que acontece.
E existe algo muito bonito nessa relação entre cinema e sobrevivência. Molina não assiste aos filmes apenas para se distrair. Ele precisa deles. A fantasia é sua forma de resistência. Pode parecer escapismo, mas, para alguém preso em uma cela, talvez imaginar outra vida seja uma das poucas formas possíveis de liberdade.
Ao mesmo tempo, o filme não romantiza completamente essa fuga. Molina também está sendo manipulado. Aos poucos, descobrimos que sua presença na cela não é casual e que as autoridades estão interessadas no relacionamento entre os dois. O sistema percebe que existe uma fragilidade naquela amizade e tenta explorá-la. Isso acrescenta uma camada bastante amarga à história: até a intimidade entre eles pode ser transformada em instrumento de controle.
É aí que o filme fica mais forte politicamente. Babenco não precisa transformar Valentín em um grande herói revolucionário nem fazer discursos intermináveis sobre ditadura. A violência está presente na própria estrutura da prisão. Está nos interrogatórios, nas ameaças, na vigilância e principalmente na impossibilidade de os personagens controlarem suas próprias vidas. O poder está sempre do lado de fora da cela, mesmo quando não aparece.
Mas o que realmente sustenta o filme é a relação entre Molina e Valentín. Aos poucos, eles deixam de ser dois estereótipos ideológicos. Molina não é simplesmente o homossexual alienado que prefere filmes à política, e Valentín não é simplesmente o militante sério que despreza qualquer coisa que pareça fútil. Eles começam a enxergar um no outro aquilo que não conseguiam reconhecer em si mesmos.
A amizade dos dois é construída de maneira gradual, e isso faz toda diferença. Não existe uma transformação repentina em que os dois passam a se entender perfeitamente. Eles continuam discordando, continuam se irritando e continuam tendo suas próprias limitações. Mas alguma coisa muda. Molina passa a se importar com aquilo que acontece com Valentín, e Valentín passa a perceber que Molina não é apenas a pessoa superficial que imaginou no começo.
Há também uma discussão muito interessante sobre masculinidade. Valentín precisa sustentar constantemente a imagem do homem revolucionário, racional e corajoso. Molina, por outro lado, já foi colocado socialmente no lugar oposto: o homem considerado fraco, feminino e inadequado. A prisão intensifica essas diferenças, mas também acaba revelando que nenhum dos dois corresponde completamente às imagens que tenta sustentar.
E o romance que surge entre eles é tratado com uma delicadeza que considero muito mais interessante do que se o filme simplesmente transformasse a relação em uma história de amor convencional. Existe desejo, mas existe principalmente intimidade. O que nasce entre eles é uma confiança que nenhum dos dois parecia disposto a oferecer no início.
Sônia Braga, como a Mulher-Aranha das histórias de Molina, funciona quase como uma criatura saída diretamente da imaginação dele. Ela é uma figura de desejo, fantasia e perigo, uma mulher que aparece para salvar ou condenar os homens. É uma presença que conecta as histórias inventadas por Molina à própria situação dos personagens. A fantasia vai ficando cada vez menos separada da realidade, até que as duas coisas parecem existir simultaneamente.
O filme também é muito bonito visualmente sem precisar transformar a prisão em um espaço excessivamente estilizado. A fotografia trabalha justamente com essa sensação de confinamento, enquanto as sequências imaginárias criam um contraste quase absurdo com a realidade cinzenta da cela. É como se o cinema literalmente abrisse uma janela no meio da parede.
E talvez seja isso que O Beijo da Mulher-Aranha tenha de mais bonito: ele fala de cinema sem ser um filme simplesmente sobre cinema. Fala sobre aquilo que as histórias podem fazer quando a realidade se torna insuportável. Molina conta filmes porque precisa acreditar que existe alguma coisa além daquela cela. Valentín inicialmente rejeita essas histórias porque acredita que olhar para a realidade é uma forma de responsabilidade. No fim, os dois descobrem que talvez seja possível fazer as duas coisas.
O filme não é perfeito. Em alguns momentos, acho que a narrativa se demora um pouco demais em determinadas situações, e a própria estrutura melodramática pode parecer excessivamente carregada. Mas existe uma sinceridade enorme na maneira como Babenco trata seus personagens. Ele não está interessado apenas na prisão política ou na sexualidade de Molina. Está interessado em duas pessoas que, em circunstâncias terríveis, acabam descobrindo uma forma inesperada de afeto.
No fim, o que fica é menos a história de uma prisão e mais a história de uma relação improvável. Dois homens que aparentemente não tinham absolutamente nada em comum encontram, justamente quando estão privados de quase tudo, uma forma de companhia. Molina oferece a Valentín aquilo que ele mais desprezava: fantasia. Valentín oferece a Molina aquilo que ele talvez nunca tenha tido de verdade: alguém que o enxergue para além da personagem que criou para sobreviver.
É um filme sobre política, desejo, cinema, solidão e, acima de tudo, sobre a necessidade humana de inventar alguma forma de liberdade quando todas as portas estão fechadas. E talvez a Mulher-Aranha seja justamente isso: a fantasia que aparece quando a realidade já não dá conta de nos manter vivos.
Título: O Beijo da Mulher-Aranha (Kiss of the Spider Woman)
País: Brasil, Estados Unidos
Gênero: Drama
Ano: 1985
Diretor: Héctor Babenco
Duração: 120 minutos


