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Força Maior (2014)

Força Maior (2014)

Há alguma coisa profundamente cruel em Força Maior. Não porque Ruben Östlund seja particularmente interessado em mostrar pessoas sofrendo, mas porque ele pega uma situação banal e constrangedora e a transforma em uma espécie de experimento sobre quem somos quando deixamos de ter tempo para pensar. A avalanche que interrompe o almoço da família de Tomas e Ebba dura poucos segundos, mas o verdadeiro acontecimento do filme não está nela. Está no instante seguinte, quando todos voltam às mesas, o restaurante continua funcionando e Tomas precisa conviver com a descoberta de que, diante de uma ameaça que acreditava ser mortal, seu primeiro impulso foi salvar a si mesmo.

É uma situação quase ridícula. Ninguém morreu. Ninguém sequer se machucou. A avalanche era controlada e nunca chegaria de fato ao restaurante. Mas isso pouco importa. Para Ebba, aqueles poucos segundos revelaram alguma coisa sobre o marido que talvez ela preferisse não saber. Para Tomas, revelaram uma versão de si mesmo que ele imediatamente tenta negar. E, para mim, é justamente aí que Força Maior se torna tão interessante: Östlund não está realmente interessado na avalanche. Ele está interessado naquilo que fazemos depois que descobrimos que não somos exatamente a pessoa que imaginávamos ser.

O primeiro detalhe que me chama atenção é como o filme constrói essa família dentro de um ambiente absolutamente controlado. Tomas, Ebba e os dois filhos estão em um resort de luxo nos Alpes, cercados por neve, restaurantes, teleféricos e paisagens perfeitamente fotografáveis. É um cenário de férias ideal, quase uma imagem publicitária de felicidade familiar. Mas a sensação que o filme produz é estranhamente oposta. Existe algo frio não apenas na neve, mas na própria relação entre aquelas pessoas. A arquitetura do resort, os corredores, os quartos de hotel e principalmente os enquadramentos simétricos fazem com que os personagens pareçam estar constantemente expostos, como se fossem observados dentro de uma vitrine.

E Östlund aproveita muito bem essa artificialidade. A direção é extremamente calculada. Os personagens são frequentemente colocados no centro dos planos, enquanto os espaços ao redor parecem grandes demais para eles. A fotografia de Fredrik Wenzel transforma os Alpes em algo quase ameaçadoramente belo. Tudo é branco, limpo, geométrico e organizado. É justamente por isso que o comportamento dos personagens se torna tão desconfortável quando alguma coisa escapa desse controle.

A avalanche é a primeira ruptura. Enquanto todos filmam o espetáculo com os celulares, Tomas parece inicialmente tão fascinado quanto os outros. Só que, quando percebe que a neve pode realmente atingir o restaurante, ele pega o celular e corre. Ebba permanece com os filhos. Poucos segundos depois, a situação termina e ninguém está ferido. O problema é que Tomas não consegue voltar ao estado anterior. Ele pode fingir que nada aconteceu, mas Ebba viu.

E acho muito interessante que Östlund não apresente imediatamente Tomas como um homem horrível. Eu não consigo simplesmente olhar para ele e pensar: “ele é um péssimo marido”. A reação dele é humana. O medo é humano. O instinto de sobrevivência é humano. O que torna a situação tão dolorosa é justamente o fato de que não existe uma resposta fácil. Se eu estivesse naquele restaurante e acreditasse que uma avalanche estava prestes a me matar, eu gostaria de acreditar que salvaria minha filha. Mas não tenho como saber o que faria. É muito confortável julgarmos comportamentos extremos quando estamos sentados em segurança, observando-os através de uma tela.

O filme, porém, não permite que Tomas use essa justificativa tão facilmente. O problema não é apenas ele ter corrido. É a necessidade quase desesperada de negar que correu. Quando Ebba conta a história para outras pessoas, Tomas insiste que ela está exagerando, que não foi exatamente assim, que existe outra perspectiva. O celular, entretanto, registra tudo. E esse detalhe é genial porque transforma uma discussão sobre memória em uma discussão sobre imagem. Tomas pode reinterpretar o acontecimento quantas vezes quiser, mas existe uma gravação.

A câmera do telefone funciona quase como uma testemunha objetiva, embora o próprio filme nos lembre o tempo todo de que imagens também podem ser interpretadas. O que vemos é Tomas correndo. Mas o que isso significa? Ele abandonou deliberadamente a família? Foi apenas um reflexo? Ele pretendia voltar? O filme nunca oferece uma resposta definitiva. E acho que isso é muito mais interessante do que seria se Östlund simplesmente transformasse Tomas em covarde.

O que realmente me incomoda é a maneira como o episódio contamina todas as relações. Ebba não consegue mais olhar para o marido da mesma maneira. Tomas, por sua vez, parece cada vez mais desesperado para reconstruir a imagem que tinha de si mesmo. Ele começa a explicar, justificar, negar e finalmente desmorona. A avalanche passa, mas o casamento fica preso naquele momento.

A partir daí, Força Maior se transforma quase em uma comédia de constrangimento. E talvez seja uma das comédias mais desconfortáveis que já assisti. Östlund não precisa criar grandes piadas. Ele simplesmente coloca seus personagens em situações em que ninguém sabe exatamente como reagir. As conversas à mesa são especialmente cruéis porque todos sabem o que aconteceu, mas Tomas continua tentando sustentar uma versão diferente dos fatos. Existe uma espécie de tortura social em assistir àquelas pessoas fingindo que estão tendo uma conversa normal enquanto o assunto real está pairando sobre a mesa.

Essa dinâmica fica ainda mais interessante quando Tomas e Ebba contam a história para Mats e Fanny. A discussão deixa de ser apenas sobre o casal e passa a envolver todo mundo. Mats afirma que, em uma situação de emergência, não somos necessariamente nós mesmos. É uma tentativa de absolver Tomas, mas também uma maneira de proteger a própria imagem. Afinal, ninguém sabe como reagiria. Fanny percebe isso e começa a questionar se Mats faria diferente. A partir daí, o problema deixa de ser “o que Tomas fez?” e passa a ser “o que nós faríamos?”.

É aí que o filme começa a funcionar como um espelho bastante incômodo.

A situação de Mats e Fanny é especialmente boa porque mostra que a avalanche não destruiu apenas a relação de Tomas e Ebba. Ela contaminou todas as relações ao redor. Fanny começa a duvidar do próprio namorado e Mats se sente profundamente ofendido. O episódio se espalha como uma doença. Uma pergunta que parecia pertencer exclusivamente a Tomas passa a ser feita por todos: em uma situação extrema, você salvaria a si mesmo ou salvaria quem ama?

E Östlund é inteligente porque não responde.

Em vez disso, ele mostra homens tentando desesperadamente reconstruir uma imagem de masculinidade que foi destruída por alguns segundos de pânico. Tomas é especialmente afetado por isso. Ele não consegue aceitar a ideia de ter sido covarde porque toda a identidade que construiu parece depender da imagem de homem forte, provedor, pai e marido. Quando finalmente admite o que fez, a cena em que chora diante da família é quase humilhante. Ele confessa não apenas a fuga, mas uma série de outras pequenas falhas: trapaças nas brincadeiras com os filhos, infidelidade, mentiras. É como se a avalanche tivesse aberto uma porta e, uma vez aberta, todas as outras coisas que ele escondia começassem a escapar.

Essa é uma das minhas cenas favoritas do filme justamente porque não é catártica da maneira tradicional. Não existe uma grande reconciliação. Existe constrangimento. Os filhos choram, Tomas chora, Ebba chora e todos se abraçam quase porque não sabem mais o que fazer. A família continua existindo, mas alguma coisa foi quebrada.

Também gosto muito da maneira como os filhos são usados nessa dinâmica. Vera e Harry estão constantemente presentes, observando os adultos e absorvendo seus conflitos. Eles não entendem completamente o que está acontecendo, mas entendem que alguma coisa mudou. A família que deveria proporcionar segurança começa a parecer tão vulnerável quanto qualquer outra coisa naquele resort.

E então o filme repete a situação.

Essa repetição é fundamental. Quando Tomas decide entrar primeiro na neblina e depois buscar Ebba, existe a possibilidade de ele estar tentando corrigir o que aconteceu anteriormente. Agora ele tem uma oportunidade de provar que é diferente. Ele consegue encontrar a esposa e retorna carregando-a. O gesto é quase heroico, e a expressão de satisfação de Tomas deixa claro que ele sabe disso.

Mas Östlund não permite uma redenção tão simples.

Porque, no caminho de volta, o ônibus perde o controle.

E, de repente, a mesma pergunta retorna.

É uma das estruturas mais inteligentes do filme. A primeira avalanche cria uma ferida; o segundo momento de perigo oferece a oportunidade de repará-la. Só que agora o pânico é coletivo. Todos saem do ônibus e caminham pela estrada. Não existe um único personagem completamente corajoso ou completamente covarde. Mats tenta assumir o controle, as mulheres e crianças saem primeiro, Tomas fuma um cigarro e a família segue andando. A situação é quase banal, mas a experiência anterior continua presente em cada gesto.

O cigarro que Tomas aceita no final é um detalhe que gosto muito. Durante as férias, ele não fumou. Quando Harry pergunta se o pai fuma, ele responde que sim. É uma resposta simples, mas me parece carregada de tudo o que aconteceu. Tomas está, de certa forma, assumindo novamente uma identidade que tinha escondido. Talvez seja um gesto pequeno de honestidade. Talvez seja apenas mais uma mentira. O filme deixa isso em aberto.

E essa ambiguidade é, para mim, sua maior força.

Força Maior não é um filme sobre descobrir se Tomas é bom ou mau. É sobre descobrir que talvez essas categorias sejam insuficientes quando pensamos no comportamento humano. Existe uma distância enorme entre aquilo que acreditamos que faríamos e aquilo que efetivamente fazemos quando sentimos medo. E talvez seja justamente essa distância que Östlund queira explorar.

Também considero fascinante a maneira como o diretor utiliza o humor para impedir que o filme se torne um drama familiar pesado demais. A música, os enquadramentos e principalmente os silêncios criam situações que chegam a ser absurdamente engraçadas. Muitas vezes eu ri justamente porque não sabia se deveria rir. E acho que esse é o melhor tipo de humor para uma história como essa: aquele que nasce do desconforto.

No fim, Força Maior me parece um filme sobre a fragilidade das imagens que construímos de nós mesmos. Tomas acredita que sabe quem é. Ebba acredita que sabe quem é o marido. Mats acredita que sabe como reagiria. Fanny acredita que conhece Mats. Todos têm uma ideia sobre si mesmos e sobre os outros. Basta uma avalanche de alguns segundos para colocar tudo em dúvida.

E talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto do filme. Porque ele pega uma situação extremamente simples — alguém fugir de uma avalanche — e transforma aquilo em uma investigação sobre casamento, masculinidade, maternidade, família, ego, vergonha e instinto de sobrevivência. Não existe uma resposta confortável porque provavelmente não existe uma resposta confortável para a pergunta que ele está fazendo.

Se eu tivesse alguns segundos para decidir entre salvar a mim mesma e salvar as pessoas que amo, quem eu seria?

Eu gostaria de acreditar que sei a resposta.

Depois de Força Maior, já não tenho tanta certeza.

Nota: 9/10

Ficha técnica

Título: Força Maior (Turist / Force Majeure)
Ano: 2014
País: Suécia / Noruega / França
Direção: Ruben Östlund
Roteiro: Ruben Östlund
Gênero: Comédia dramática
Duração: 119 minutos
Elenco: Johannes Bah Kuhnke, Lisa Loven Kongsli, Clara Wettergren, Vincent Wettergren, Kristofer Hivju e Fanni Metelius
Direção de fotografia: Fredrik Wenzel
Montagem: Jacob Secher Schulsinger e Ruben Östlund
Música: Ola Fløttum