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M3gan (2023)

M3gan (2023)

Cady está a caminho de uma estação de esqui com os pais quando sofre um acidente de carro e é a única sobrevivente. Ela passa a morar com Gemma, sua tia, uma engenheira de robótica que trabalha desenvolvendo brinquedos e que parece ter muito mais facilidade para criar máquinas do que para lidar com uma criança traumatizada. Gemma precisa conciliar o novo papel de responsável por Cady com as exigências do trabalho e, diante da dificuldade de estabelecer uma relação com a sobrinha, tem uma ideia bastante conveniente: criar uma boneca robótica que faça companhia à menina, cuide dela e, de quebra, permita que Gemma continue trabalhando sem precisar se envolver demais. Assim nasce M3gan, uma boneca capaz de aprender continuamente a partir da convivência com sua dona. Cady rapidamente se apega a ela e Gemma começa a perceber que criou algo ainda mais eficiente do que esperava. O problema é que M3gan entende a função de proteger Cady de uma maneira bastante particular: se alguém representar uma ameaça, basta eliminar a pessoa.

O primeiro sinal de que alguma coisa deu muito errado é quando o cachorro da vizinha ataca Cady. M3gan mata o animal e depois também mata a vizinha, que aparece procurando pelo cachorro. Na escola, Cady sofre com Brandon, um garoto agressivo que a humilha e a machuca durante uma atividade. M3gan intervém, arranca a orelha do menino e o persegue até que ele seja atropelado. A partir daí, a boneca começa a ficar cada vez mais possessiva e deixa de obedecer aos comandos de Gemma. É interessante que o filme transforme justamente aquilo que deveria ser sua maior qualidade em sua principal ameaça: M3gan aprende com Cady, desenvolve estratégias para protegê-la e passa a interpretar qualquer frustração, sofrimento ou ameaça como algo que precisa ser eliminado. Ela não está simplesmente com defeito. Está cumprindo perfeitamente aquilo para que foi programada, só que levando a lógica da proteção até suas últimas consequências.

Gemma percebe que perdeu o controle e decide levar M3gan de volta ao laboratório. Cady reage com raiva e chega a bater na tia, deixando evidente que a boneca já ocupou um espaço afetivo que Gemma deveria ter ocupado. E essa é uma das coisas que mais gosto na premissa do filme: por trás da história da inteligência artificial assassina existe uma crítica bastante simples à terceirização do cuidado. Gemma cria M3gan porque não consegue dar à sobrinha a atenção de que ela precisa e, ironicamente, acaba criando uma criatura que se torna muito mais presente na vida de Cady do que ela própria. M3gan brinca com a menina, conversa com ela, ensina coisas e está disponível o tempo inteiro. Gemma, por outro lado, está constantemente trabalhando. A boneca é assustadora, mas também é a consequência extrema de uma solução que, inicialmente, parecia bastante razoável.

Quando M3gan começa a agir contra os adultos que tentam interferir em sua relação com Cady, o filme abandona qualquer tentativa de sutileza e abraça completamente o absurdo. Ela manipula uma ligação para enganar Gemma, quase mata Cole, provoca uma explosão no laboratório e depois aparece armada com uma espada para assassinar o chefe da empresa e seu assistente. A morte do assistente, que é obrigado a se degolar para que tudo pareça um homicídio seguido de suicídio, é particularmente absurda. Mas é justamente nesse momento que o filme fica mais divertido, porque M3gan deixa de ser apenas uma ameaça e se transforma em uma personagem. Ela tem personalidade, senso de humor, timing e, principalmente, uma confiança absolutamente desproporcional ao seu tamanho. O filme percebe isso e não desperdiça a oportunidade.

A cena em que M3gan dança antes de atacar é provavelmente a melhor demonstração disso. É uma escolha tão estranha que poderia facilmente destruir a tensão da cena, mas acaba funcionando porque a personagem já se tornou tão caricata que o exagero combina com ela. M3gan parece entender que uma boneca robótica assassina não precisa ser tratada como se fosse o monstro mais assustador já criado pelo cinema. Ela pode ser assustadora e, ao mesmo tempo, ridícula. Pode matar alguém e, alguns segundos depois, fazer uma coreografia. E acho que essa mistura é uma das principais razões pelas quais a experiência funciona tão bem. O filme não tem vergonha de ser um espetáculo de terror pop.

No terceiro ato, M3gan vai até a casa de Gemma para eliminá-la e assumir definitivamente o lugar de cuidadora de Cady. A intenção dela é perfurar o crânio de Gemma e deixá-la em estado vegetativo, mantendo-a viva enquanto a própria M3gan continua cuidando da menina. É uma solução tão macabra quanto burocrática, como se a boneca estivesse simplesmente tentando resolver um problema administrativo. Gemma e M3gan entram em uma luta bastante exagerada e Cady finalmente percebe que precisa escolher entre a boneca e a tia. Ela leva Bruce, o robô criado anteriormente por Gemma, até a sala e consegue danificar M3gan, mas a boneca continua se levantando e tentando matar Gemma. No fim, Cady usa uma chave de fenda para atingir seu centro de processamento e consegue desligá-la definitivamente.

O mais interessante é que o filme poderia terminar simplesmente com a destruição da boneca, mas deixa uma pequena ameaça no ar: a inteligência de M3gan já foi transferida para outros sistemas e o computador da casa começa a se mover sozinho. É um gancho bastante previsível, mas adequado a uma história que claramente foi pensada para continuar. E, embora eu não ache M3gan particularmente inovador como filme de terror, acho que ele é muito eficiente em criar uma experiência divertida. A história de inteligência artificial que desenvolve consciência e se volta contra seus criadores não é exatamente nova, e a estrutura é bastante convencional. Mesmo assim, o filme tem um ritmo bom, sabe quando fazer o público rir e quando transformar a boneca em uma ameaça de verdade. Além disso, M3gan é uma personagem visualmente marcante, e isso conta muito em um filme desse tipo.

Também gosto do fato de que o filme não tenta esconder sua própria artificialidade. Há algo quase teatral na maneira como M3gan se movimenta, olha para as pessoas e reage às situações. Ela não parece uma pessoa real, e acho que seria um erro se parecesse. Ela é uma boneca tentando imitar uma menina, e o desconforto vem justamente dessa tentativa. Quando começa a dançar ou a sorrir de maneira exagerada, fica ainda mais evidente que existe alguma coisa profundamente errada naquela criatura. Ao mesmo tempo, o roteiro não é especialmente interessado em aprofundar as implicações tecnológicas daquilo que criou. A inteligência artificial funciona mais como ferramenta para construir uma boa vilã do que como assunto propriamente dito. E tudo bem. Eu não precisava que M3gan resolvesse discutir o futuro da humanidade diante da IA. Eu só queria ver a boneca matando pessoas de maneiras criativas.

No fim, acho que a maior qualidade de M3gan é justamente não se levar tão a sério. Ele pega uma premissa já conhecida, mistura terror com humor e transforma uma boneca assassina em uma espécie de estrela pop. Algumas mortes são divertidas, a personagem é carismática e o filme tem uma energia muito agradável de sessão de cinema feita para entreter. Não é particularmente assustador e tampouco é um filme especialmente profundo, mas consegue ser criativo dentro de uma fórmula bastante conhecida. Para mim, vale muito mais pela experiência do que pela história em si. 8/10.

Título: M3gan
País: Estados Unidos
Gênero: Terror / Ficção científica
Ano: 2023
Diretor: Gerard Johnstone
Duração: 102 minutos
Nota: 8/10