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Gritos e Sussurros (1972)

Gritos e Sussurros (1972)

Gritos e Sussurros é um daqueles filmes que parecem existir em um lugar entre a memória, o sonho e o pesadelo. Bergman praticamente elimina tudo aquilo que normalmente usamos para nos orientar em uma história: não há uma grande ação externa, quase não há mundo além daquela casa e pouco importa saber exatamente quanto tempo está passando. O que existe são quatro mulheres confinadas em um espaço vermelho, lidando com doença, morte, ressentimento, culpa e uma incapacidade quase absoluta de dizer umas às outras aquilo que realmente sentem. É um filme sobre pessoas que passaram a vida inteira próximas e, ainda assim, parecem não saber como tocar umas nas outras sem se ferir.

Agnes está morrendo de câncer e passa os últimos dias em uma casa de campo ao lado das irmãs, Karin e Maria, e da empregada Anna. A situação poderia ser, em outras mãos, um drama familiar bastante convencional sobre a aproximação de pessoas diante da morte. Bergman, felizmente, não tem o menor interesse em fazer algo tão confortável. A doença de Agnes funciona menos como ponto de partida para uma reconciliação do que como uma espécie de lupa que aumenta tudo aquilo que já estava apodrecendo entre aquelas mulheres. A proximidade da morte não torna ninguém necessariamente melhor, mais generoso ou mais amoroso. Às vezes, apenas deixa mais evidente o quanto essas pessoas são incapazes de amar.

O que mais me impressiona é que o filme consegue ser extremamente doloroso sem precisar explicar quase nada. Sabemos que as irmãs têm uma relação complicada, mas Bergman não transforma seus diálogos em grandes sessões de exposição. Aos poucos, pelos gestos, pelos olhares e pelas lembranças, percebemos que existe uma história inteira de crueldades silenciosas entre elas. Maria é aparentemente a mais afetuosa, mas sua doçura tem algo de superficial. Karin é mais fria, rígida e ressentida, como se tivesse construído uma muralha para não precisar admitir que precisa das outras pessoas. Agnes, justamente por estar morrendo, parece ser a mais vulnerável, mas também é quem está no centro daquilo que todas tentam evitar: a necessidade de receber e oferecer afeto.

E então existe Anna, a empregada, que acaba sendo a personagem que mais me comove. Ela não pertence àquela família, mas é justamente ela quem demonstra uma capacidade de cuidado que as três irmãs parecem ter perdido. Enquanto as mulheres da casa vivem presas às suas próprias frustrações, Anna cuida de Agnes com uma intimidade quase maternal. Existe uma diferença brutal entre o amor que essas personagens dizem sentir e o amor que efetivamente conseguem oferecer. Bergman parece perguntar, sem muita delicadeza, de que adianta amar alguém se somos incapazes de suportar o sofrimento dessa pessoa?

A morte de Agnes é o centro emocional do filme, e poucas representações da morte que já vi são tão desconfortáveis. Bergman não transforma o sofrimento em uma experiência bonita. Agnes geme, chama pelas irmãs, se contorce e implora por companhia. O corpo deixa de ser algo que podemos controlar e passa a ser uma coisa estranha, dolorosa, quase repulsiva. E é justamente aí que o filme se torna mais humano. Não existe uma morte elegante. Não existe a grande despedida acompanhada por palavras perfeitas. Existe uma mulher sofrendo e outras pessoas sem saber o que fazer diante desse sofrimento.

A cena em que Agnes pede ajuda depois de morrer é especialmente perturbadora porque parece atravessar a fronteira entre realidade e fantasmagoria. As irmãs são convocadas novamente para perto dela, mas nenhuma delas sabe realmente como lidar com aquela presença. Anna é quem acaba oferecendo o acolhimento que as outras não conseguem dar. É uma sequência de uma intimidade quase insuportável, e Bergman consegue fazer com que o gesto mais simples — alguém abraçando um corpo — carregue uma quantidade absurda de desespero.

Visualmente, o filme é de uma beleza quase agressiva. O vermelho domina a casa inteira, das paredes aos interiores, criando a sensação de que aquelas mulheres estão vivendo dentro de um corpo aberto. Não é apenas uma escolha estética bonita; é uma cor que parece representar tudo o que está acontecendo ali: sangue, carne, dor, desejo, violência e morte. O vermelho transforma os ambientes em espaços claustrofóbicos, como se não houvesse realmente para onde escapar. Mesmo quando as personagens estão em quartos diferentes, parece que continuam presas umas às outras.

E os rostos são fundamentais. Bergman filma essas mulheres de maneira tão próxima que qualquer pequena alteração de expressão parece uma revelação. Liv Ullmann, Ingrid Thulin, Harriet Andersson e Kari Sylwan conseguem fazer coisas extraordinárias com o silêncio. Às vezes, uma personagem apenas olha para outra e parece que estamos diante de vinte anos de ressentimento condensados naquele olhar. É um cinema que confia muito mais no rosto humano do que na necessidade de explicar o que está acontecendo.

As transições entre as personagens também são lindas e estranhas. O rosto de uma mulher lentamente se dissolve no vermelho antes de surgir o rosto de outra, como se todas fossem, de alguma maneira, partes de uma mesma consciência. Não é um filme interessado em estabelecer fronteiras muito claras entre indivíduo e memória. As histórias se misturam, os tempos se misturam e as pessoas parecem carregar umas às outras dentro de si, mesmo quando passam a vida inteira tentando se afastar.

As lembranças de Maria e Karin ajudam a entender por que a proximidade física entre as irmãs não significa intimidade. Maria se recorda de um caso extraconjugal e de um momento de desejo que rapidamente se transforma em culpa. Karin, por sua vez, revela uma relação conjugal marcada por repulsa e violência. São mulheres que parecem ter aprendido a associar intimidade à humilhação. Não sabem conversar, não sabem pedir carinho, não sabem demonstrar vulnerabilidade. E talvez seja justamente por isso que o filme seja tão triste: ninguém ali é simplesmente monstruoso. São pessoas profundamente machucadas que aprenderam maneiras bastante eficientes de machucar os outros.

Bergman também não facilita nossa relação com essas personagens. Não há uma irmã boa e outra ruim. Não há uma vilã que possamos culpar por toda aquela infelicidade. Maria pode ser carinhosa e egoísta; Karin pode ser cruel e desesperadamente carente; Agnes pode ser delicada e também carregar ressentimentos; Anna pode ser generosa, mas sua própria história é marcada por uma perda que nunca desaparece. É justamente essa ambiguidade que impede o filme de virar uma parábola simples sobre uma família disfuncional.

E há algo particularmente cruel no fato de que a morte, que poderia aproximá-las, não consegue realmente resolver nada. Elas têm momentos de ternura, mas eles são frágeis. Depois que Agnes morre, a vida precisa continuar e as relações voltam a assumir suas antigas formas. É quase como se o filme dissesse que a morte de alguém não transforma magicamente os vivos. Podemos chorar, abraçar, pedir perdão e prometer mudanças; ainda assim, continuamos sendo quem somos.

O título é perfeito. Os gritos estão ali no corpo de Agnes, nos momentos de desespero, nas crises que ninguém consegue conter. Mas os sussurros são muito mais importantes: são aquilo que essas pessoas nunca conseguem dizer diretamente. O amor, o ressentimento, o desejo, o medo, a inveja, a culpa. Tudo aquilo que fica preso entre uma pessoa e outra e que, por não ser dito, acaba se transformando em silêncio, doença ou violência.

Talvez seja isso que mais tenha me atingido em Gritos e Sussurros: ele não é realmente um filme sobre a morte, embora seja impossível assistir a ele sem pensar nela. É um filme sobre a dificuldade de estar vivo ao lado de outras pessoas. Sobre como podemos conhecer alguém durante décadas e continuar sendo incapazes de alcançá-lo. Sobre como o corpo pode estar a poucos centímetros de outro corpo e, ainda assim, existir uma distância impossível de atravessar.

É um filme lindíssimo, mas não no sentido confortável da palavra. Sua beleza incomoda porque está sempre colada à dor. O vermelho é maravilhoso e sufocante; os rostos são fascinantes e devastadores; os silêncios são elegantes e cruéis. Bergman faz um cinema extremamente controlado sobre personagens que perderam completamente o controle de si mesmas. E, mesmo depois que o filme termina, fica aquela sensação desagradável de ter passado tempo demais dentro da cabeça de pessoas que não conseguem dizer aquilo que mais precisavam dizer.

Título: Gritos e Sussurros (Viskningar och rop)
País: Suécia
Gênero: Drama
Ano: 1972
Diretor: Ingmar Bergman
Duração: 91 minutos
Nota: 10/10