Tudo que o céu permite (1955)
Cary Scott é uma viúva de classe média alta que vive em uma cidade suburbana aparentemente perfeita. Seus filhos já cresceram e foram embora, sua casa é impecável, suas amigas são educadas e seu círculo social é bastante respeitável. Em teoria, Cary tem exatamente a vida que uma mulher deveria desejar. Na prática, ela parece estar apenas esperando que os dias passem. É então que começa a se aproximar de Ron Kirby, um homem muito mais jovem, jardineiro e dono de um pequeno negócio. Ron vive de maneira simples, gosta de trabalhar com as próprias mãos, mora sozinho e não parece particularmente interessado nas regras sociais que determinam o que Cary deveria ou não fazer com a própria vida.
O romance entre os dois é simples, quase ridiculamente simples. Eles conversam, caminham, passam tempo juntos e descobrem que gostam um do outro. E é justamente por isso que o filme fica tão ácido: nada de particularmente escandaloso acontece entre Cary e Ron. O problema é que eles ousam querer ser felizes de uma maneira que as pessoas ao redor consideram inadequada. Cary é viúva, Ron é mais jovem e pertence a uma classe social diferente. Para a comunidade, isso é aparentemente imperdoável. É impressionante como uma cidade inteira consegue transformar duas pessoas adultas se apaixonando em uma espécie de crise moral coletiva.
Douglas Sirk filma tudo isso com uma aparência tão bonita que quase parece uma propaganda de felicidade suburbana. As casas são impecáveis, os jardins estão sempre bem cuidados, as roupas são elegantes e os interiores parecem cuidadosamente organizados para que nada desagradável seja percebido. Mas é justamente aí que está a perversidade de Tudo que o céu permite. Quanto mais bonito o mundo parece, mais evidente fica que alguma coisa está profundamente errada.
Cary é uma mulher que já fez tudo aquilo que esperavam dela. Casou-se, teve filhos, cuidou da casa e, depois da morte do marido, continuou cumprindo o papel de viúva respeitável. O problema é que ninguém parece ter considerado a possibilidade de que ela ainda pudesse querer alguma coisa para si. Seus filhos, especialmente, tratam a mãe como uma espécie de extensão da memória do pai. Eles não querem exatamente que Cary seja feliz; querem que ela preserve a imagem da mãe que construíram. Quando percebem que ela está apaixonada por Ron, a preocupação deles não é propriamente com o bem-estar dela. É com o que aquilo significa para a família.
E existe algo particularmente irritante na maneira como os filhos tratam Cary. Eles são adultos, têm suas próprias vidas e, ainda assim, sentem-se autorizados a determinar com quem a mãe pode se relacionar. A ideia de que Cary possa ter uma vida amorosa depois da viuvez parece ameaçar toda a estrutura familiar. Ela deveria permanecer sozinha, elegante e triste, como uma espécie de monumento ao pai deles. É um controle disfarçado de preocupação.
Ron, por outro lado, oferece exatamente o contrário. Ele não parece interessado em transformar Cary em uma versão idealizada de mulher. Ele gosta dela. Só isso. E talvez seja justamente isso que torna o romance tão ameaçador para todo mundo. Ron não pertence àquela comunidade de aparências. Ele vive em um ambiente mais simples, trabalha com as próprias mãos e parece ter uma relação muito mais direta com aquilo que deseja. Seu sonho é restaurar um moinho e transformá-lo em sua casa. Não é uma fantasia de riqueza ou status. É uma vida.
E Sirk transforma o moinho em uma espécie de contraponto à casa de Cary. A casa dela é grande, confortável e socialmente perfeita, mas parece uma prisão. O moinho de Ron é menor, rústico e muito menos sofisticado, mas existe ali uma sensação de liberdade. É uma diferença fundamental: Cary tem tudo o que deveria querer e não tem aquilo que quer; Ron tem pouco, mas parece saber exatamente o que deseja.
A fotografia e o uso das cores são fundamentais para essa contradição. Sirk utiliza os ambientes como se fossem extensões do estado emocional dos personagens. A casa de Cary, com seus grandes janelões, parece inicialmente acolhedora, mas frequentemente a vemos enquadrada de uma maneira que faz com que os espaços pareçam fechados sobre ela. As janelas são especialmente importantes porque permitem que Cary olhe para fora sem necessariamente conseguir sair.
E há uma imagem que resume perfeitamente a crueldade desse universo: a televisão que os filhos dão a Cary como presente. É um objeto supostamente pensado para fazer companhia à mãe agora que ela está sozinha. É quase impossível não achar isso brutalmente irônico. Em vez de perguntarem o que ela quer fazer da própria vida, eles lhe dão uma televisão para que ela possa continuar sozinha dentro de casa. A tecnologia serve como substituta de companhia humana. É um presente que, sem querer, revela o quanto eles preferem uma mãe convenientemente solitária a uma mãe que realmente viva.
O título também é irônico. Tudo que o céu permite parece sugerir uma espécie de resignação religiosa, como se a vida de Cary fosse determinada por forças superiores. Mas o que realmente impede seu relacionamento não é o céu. São as pessoas. São os filhos, os vizinhos, os amigos, as convenções sociais e, principalmente, o medo de Cary de decepcionar todos eles. O céu permite. A sociedade não.
E isso é o que torna o filme muito mais interessante do que um simples romance impossível. Cary não é impedida de ficar com Ron por alguma circunstância externa inevitável. Ela é impedida pelo olhar dos outros. E, em determinado momento, ela mesma passa a reproduzir esse olhar. Ela começa a acreditar que seus desejos são inadequados, que está sendo egoísta e que talvez deva abrir mão da própria felicidade para preservar a tranquilidade dos filhos.
É uma forma de violência bastante silenciosa. Ninguém precisa gritar com Cary. Ninguém precisa ameaçá-la. Basta fazer com que ela se sinta culpada.
O filme também é muito interessante por tratar da idade e do desejo feminino sem transformar Cary em uma caricatura. Ela não é apresentada como uma mulher desesperada para parecer jovem. Ela simplesmente se apaixona. O romance não acontece porque Ron a faz sentir-se jovem novamente, mas porque ele a enxerga como uma pessoa. E isso parece ser quase revolucionário naquele ambiente.
Jane Wyman consegue transmitir muito bem essa mistura de desejo, culpa e hesitação. Cary frequentemente parece estar prestes a tomar uma decisão e, no último segundo, recua. Ela olha para Ron, olha para os filhos, olha para a casa e parece calcular o custo de cada escolha. O que é mais triste é perceber que ela não está escolhendo entre amor e falta de amor. Está escolhendo entre sua própria felicidade e a aprovação das pessoas que ama.
Rock Hudson também funciona muito bem como Ron justamente porque o personagem não tenta ser excessivamente sofisticado. Ele é direto, gentil e seguro de si. Em outro tipo de filme, poderia parecer idealizado demais, mas aqui essa simplicidade é necessária. Ron representa uma vida em que as coisas podem ser ditas sem a quantidade absurda de códigos sociais que sufocam Cary.
E, naturalmente, há um pouco de melodrama. Bastante, aliás. Mas acho injusto usar “melodramático” como sinônimo de exagerado quando se fala de Sirk. O exagero é parte da linguagem. As árvores, os vestidos, as janelas, a neve, os espelhos, os móveis, tudo parece ligeiramente mais bonito e mais artificial do que deveria. É como se o mundo estivesse sempre prestes a desabar, mas alguém tivesse acabado de arrumar a sala para receber visitas.
Essa artificialidade é justamente o que permite que o filme seja tão crítico. Sirk não precisa colocar seus personagens em situações grotescas para mostrar a hipocrisia daquela sociedade. Ele simplesmente mostra todo mundo sendo educado enquanto destrói a felicidade de uma mulher.
E acho particularmente interessante que o conflito não seja apenas entre ricos e pobres. Cary não é uma mulher oprimida porque seja economicamente vulnerável. Ela é justamente o contrário. Tem dinheiro, casa, filhos e posição social. Mesmo assim, não é livre. Isso desmonta um pouco a ideia de que conforto material necessariamente significa autonomia. Cary tem recursos, mas não consegue decidir o que fazer com a própria vida sem consultar mentalmente uma plateia inteira.
No final, quando Ron sofre um acidente e Cary volta a se aproximar dele, o filme assume uma estrutura mais convencional de reconciliação. Mas existe algo muito mais amargo por trás daquele final feliz. Cary não precisou apenas descobrir que amava Ron. Ela precisou aprender que seus filhos não têm o direito de decidir por ela. Precisou entender que envelhecer não significa desaparecer e que ser mãe não significa abandonar para sempre a própria existência.
Talvez seja isso que mais gosto em Tudo que o céu permite: ele parece, à primeira vista, uma história extremamente simples sobre uma viúva que se apaixona pelo homem errado. Só que, quanto mais se olha, mais fica claro que o homem não é o problema. O problema é uma sociedade que aceita quase qualquer coisa, desde que as pessoas mantenham as aparências corretas.
Cary não quer destruir sua família. Não quer abandonar os filhos. Não quer humilhar ninguém. Ela só quer continuar vivendo. E, para aquele mundo, isso já parece uma exigência enorme.
Douglas Sirk consegue transformar uma história de romance em uma crítica feroz à classe média americana, à família, à respeitabilidade e, principalmente, à ideia de que uma mulher deveria considerar a própria felicidade uma espécie de luxo. É um filme lindo, mas a beleza está sempre escondendo alguma coisa. Atrás das janelas, dos jardins perfeitos e das casas bem decoradas existe uma personagem sufocada pelo próprio conforto.
No fim, talvez a grande pergunta de Tudo que o céu permite seja bastante simples: de que adianta ter uma vida que todo mundo considera perfeita se você não pode escolher vivê-la?
E Cary finalmente entende que a resposta é: de muito pouco.
Nota: 10/10
Ficha técnica
Título: Tudo que o céu permite (All That Heaven Allows)
País: Estados Unidos
Gênero: Drama / Romance
Ano: 1955
Diretor: Douglas Sirk
Duração: 89 minutos


