Se meu apartamento falasse (1960)
C.C. Baxter é um funcionário de uma grande companhia de seguros em Nova York que descobriu uma maneira bastante peculiar de subir na carreira: emprestar seu apartamento para os chefes casados que precisam de um lugar discreto para encontrar suas amantes. Em troca, recebe pequenos favores, elogios e a promessa de uma promoção que nunca chega. Baxter vive sozinho, mas seu apartamento raramente está vazio. O problema é que ele não é exatamente o dono da própria casa. Ele entrega a chave para os homens mais importantes da empresa e, em troca, passa as noites andando pela cidade, esperando que alguém termine de usar sua cama.
A situação é absurda, mas Billy Wilder não demora muito para mostrar que existe uma lógica perfeitamente coerente por trás dela. O escritório é uma máquina de exploração em que todo mundo está tentando subir um degrau, e Baxter simplesmente percebeu que pode transformar sua vida privada em moeda de troca. O apartamento virou extensão da empresa. O chefe usa, Baxter espera, o chefe promete, Baxter obedece. É uma espécie de prostituição corporativa sem sexo, só que com terno, gravata e uma quantidade impressionante de cinismo.
E Baxter nem parece particularmente ambicioso. Ele é mais solitário do que ganancioso. Quer uma promoção, claro, mas também quer ser reconhecido. Quer que alguém importante perceba que ele existe. O que torna sua situação engraçada e triste ao mesmo tempo é justamente isso: ele está sempre tentando ser agradável para pessoas que não demonstram nenhum interesse real por ele. Quando precisa sair do próprio apartamento porque um executivo quer levar uma mulher para lá, ele aceita como se fosse a coisa mais natural do mundo. E quanto mais ele aceita, mais os outros entendem que podem pedir.
A grande ironia é que Baxter acredita estar controlando a situação. Afinal, o apartamento é dele e as chaves são dele. Mas, aos poucos, percebemos que ele se tornou um homem sem casa. O apartamento é o centro de toda a sua vida e, ao mesmo tempo, o único lugar onde ele nunca pode estar.
No meio dessa confusão está Fran Kubelik, uma ascensorista da empresa por quem Baxter é apaixonado. Fran é inteligente, espirituosa e bastante mais interessante do que os homens que passam por ela no elevador parecem perceber. Ela conversa com Baxter, brinca com ele e demonstra certa simpatia, mas existe uma distância entre os dois. Baxter é apaixonado por ela sem conseguir realmente se aproximar, enquanto Fran está envolvida com Jeff Sheldrake, um dos executivos da empresa.
E Sheldrake é exatamente o tipo de homem que consegue fazer Baxter parecer ainda mais patético. Ele é poderoso, casado e perfeitamente confortável com a própria capacidade de conseguir o que quer. Quando descobre que Baxter empresta o apartamento aos executivos, percebe imediatamente que pode usá-lo também. O apartamento, que já era uma espécie de bordel informal da empresa, passa a ser o cenário do relacionamento entre Sheldrake e Fran.
O mais cruel é que Fran não está vivendo um grande romance proibido. Ela está sendo enganada. Sheldrake promete que vai deixar a esposa, mas não deixa. Promete que vai escolher Fran, mas continua casado. É o mesmo mecanismo que mantém Baxter preso à empresa: uma promessa futura que nunca chega. A diferença é que Baxter pelo menos recebe uma promoção ocasionalmente. Fran recebe apenas a esperança.
Wilder é muito bom em encontrar humor justamente nessas situações moralmente desconfortáveis. O filme é engraçado, mas nunca porque os personagens são simplesmente idiotas. O humor nasce do sistema em que estão presos. Todo mundo sabe que alguma coisa está errada, mas ninguém quer ser a primeira pessoa a dizer isso.
O escritório é um dos grandes achados do filme. Centenas de funcionários trabalham em fileiras intermináveis de mesas, como se fossem peças de uma fábrica. Baxter aparece como um homem pequeno dentro de uma estrutura gigantesca. A empresa tem milhares de pessoas, mas parece não ter espaço para nenhuma individualidade. E é muito significativo que a carreira de Baxter dependa justamente de sua capacidade de disponibilizar um espaço privado que ele próprio não consegue desfrutar.
O apartamento, então, se torna quase um personagem. Ele testemunha tudo: traições, mentiras, bebedeiras, encontros secretos, esperas, decepções e, eventualmente, uma tentativa de suicídio. Se aquelas paredes pudessem falar, provavelmente teriam histórias suficientes para destruir metade da diretoria da companhia.
E o filme vai ficando progressivamente mais triste sem abandonar o humor. Fran descobre que Sheldrake não pretende abandonar a esposa e percebe que foi apenas mais uma mulher na lista dele. Baxter, por sua vez, descobre que o apartamento que ele empresta está sendo usado pelo próprio chefe com a mulher que ama. Ele sabe o que está acontecendo e não consegue impedir porque o emprego, a promoção e a relação com Sheldrake estão todos amarrados à mesma coisa.
Existe uma cena particularmente dolorosa em que Baxter percebe que Fran esteve no apartamento. Ele encontra um objeto deixado por ela e entende imediatamente o que aconteceu. Não precisamos de grandes explicações. A dor está no rosto dele e, sobretudo, na maneira como ele continua tentando manter a rotina. Ele não é apenas um homem apaixonado por uma mulher que não corresponde. É um homem que percebe que transformou sua própria dignidade em moeda e que o preço finalmente chegou.
Jack Lemmon é perfeito para Baxter porque consegue fazer o personagem parecer simultaneamente patético e adorável. Ele tem uma energia nervosa, uma espécie de entusiasmo permanente que parece esconder uma insegurança enorme. Baxter quer ser engraçado, quer ser simpático, quer ser promovido, quer ser amado. Está sempre tentando agradar alguém. E justamente por isso é tão fácil gostar dele.
Shirley MacLaine, como Fran, também está excelente. Ela consegue evitar que a personagem se transforme simplesmente na “mocinha triste” que precisa ser salva pelo protagonista. Fran tem desejos, contradições e principalmente uma consciência bastante amarga de sua própria situação. Ela sabe que está se metendo em uma relação ruim, mas não consegue simplesmente desligar os sentimentos porque percebe racionalmente que o homem é um canalha. É uma das coisas mais humanas do filme.
E então existe a famosa questão do espelho.
O pequeno espelho quebrado que Baxter encontra no apartamento parece inicialmente apenas um objeto. Aos poucos, ele se transforma em uma das imagens mais bonitas do filme. Fran reconhece o espelho e percebe que Baxter sabe de sua situação. É uma cena em que um objeto diz mais do que qualquer diálogo poderia dizer. O apartamento guarda a verdade, mesmo quando os personagens tentam escondê-la.
Gosto muito também da maneira como Wilder trata o sexo. Não há necessidade de mostrar nada explicitamente. O filme pertence a uma época em que a censura obrigava o diretor a ser inventivo, mas Wilder transforma essa limitação em vantagem. As traições, os encontros e as relações extraconjugais são sugeridos através de portas, objetos, conversas e consequências. E isso combina perfeitamente com o tema do filme: todo mundo está tentando esconder alguma coisa.
O Natal também funciona muito bem nesse universo. As ruas estão iluminadas, as pessoas estão celebrando e a empresa continua funcionando como uma máquina de exploração. Baxter está sozinho, Fran está devastada e Sheldrake está tentando manter sua vida confortável. É uma daquelas situações em que a decoração festiva só torna a tristeza mais evidente.
O filme também tem uma crítica muito boa à masculinidade corporativa. Os homens poderosos são tratados como se tivessem direito a tudo: dinheiro, carreira, sexo, privacidade e mulheres. Baxter, que está abaixo deles na hierarquia, aprende que precisa colaborar com esse sistema para ascender. Ele não é exatamente inocente. Ele sabe o que está facilitando. Mas a diferença é que, ao contrário dos chefes, ele ainda parece ter vergonha.
E talvez seja justamente essa vergonha que permita que ele mude.
O momento em que Baxter finalmente enfrenta Sheldrake é importante porque não se trata simplesmente de uma escolha romântica. Ele está recusando uma posição dentro daquele sistema. Está dizendo que não quer mais ser o homem que empresta o apartamento, que aceita qualquer coisa em troca de uma promoção e que finge não perceber quem está sendo prejudicado. Pela primeira vez, ele escolhe perder alguma coisa para preservar a própria dignidade.
E isso torna o final tão satisfatório.
Fran e Baxter não terminam juntos porque ele finalmente consegue impressioná-la com dinheiro, status ou alguma demonstração heroica. Eles se encontram em uma situação muito mais simples. Baxter está jogando cartas, Fran aparece e os dois conversam. Ele diz que a ama, mas ela já sabe. Quando ela tenta ajudá-lo a recolher as cartas, ele diz que ela deve continuar jogando. É uma pequena cena, mas existe nela uma intimidade muito maior do que em qualquer grande declaração romântica.
“Shut up and deal” é praticamente a síntese do filme. Depois de duas horas de mentiras, manipulações, relações de poder e pessoas tentando controlar o futuro, finalmente sobra uma coisa simples: duas pessoas juntas, jogando cartas.
E acho que essa simplicidade é o que faz Se meu apartamento falasse envelhecer tão bem. É uma comédia romântica, mas não é exatamente uma fantasia romântica. O amor não resolve magicamente a vida dos personagens. Baxter continua sendo um funcionário de escritório. Fran continua tendo problemas. O mundo corporativo não desaparece. Sheldrake continua existindo. Mas Baxter e Fran finalmente conseguem estabelecer uma relação que não depende de uma mentira.
O filme consegue ser engraçado, melancólico, romântico e cruel sem parecer que está mudando de gênero a cada cena. Billy Wilder entende que a vida é assim: a gente pode estar rindo de uma situação e, dois minutos depois, perceber que ela é profundamente triste. O apartamento é engraçado porque é absurdo. É triste porque é necessário. E é bonito porque, no fim, é justamente ali que Baxter e Fran encontram uma possibilidade de honestidade.
Para mim, Se meu apartamento falasse é um dos melhores exemplos de como uma comédia pode esconder uma crítica social bastante amarga. Por trás das piadas sobre chefes adúlteros e funcionários desesperados existe uma história sobre solidão, exploração e pessoas que aceitam ser usadas porque acreditam que, em algum momento, serão recompensadas.
Baxter passa boa parte do filme tentando conseguir um lugar melhor dentro de um sistema que não se importa com ele. Fran passa boa parte dele esperando que um homem que nunca pretendeu escolhê-la finalmente a escolha. Os dois estão presos em promessas. E o que salva os dois é justamente desistir delas.
No fim, talvez o apartamento não tenha conseguido falar. Mas, se falasse, provavelmente diria que já viu coisa demais.
Nota: 9/10
Ficha técnica
Título: Se meu apartamento falasse (The Apartment)
País: Estados Unidos
Gênero: Comédia dramática / Romance
Ano: 1960
Diretor: Billy Wilder
Duração: 125 minutos


