Garota de Ipanema (1967)
Garota de Ipanema é um filme que me deixou com uma sensação curiosa: gosto muito mais da ideia dele do que do resultado. Leon Hirszman pega a imagem da garota carioca, bonita, jovem, moderna e aparentemente despreocupada, e tenta transformá-la em personagem de um filme sobre juventude, vazio e alienação. O problema é que, em vários momentos, essa garota parece tão fascinada pela própria imagem quanto o filme está. Há uma distância enorme entre a personagem que deveria estar tentando descobrir o que quer da vida e a quantidade de tempo que passamos simplesmente olhando para ela existir.
Márcia é uma jovem de classe média alta que vive em Ipanema com a mãe e leva uma vida confortável, cercada por amigos, festas, praia, música e rapazes interessados nela. Ela é bonita, sabe que é bonita e parece não ter nenhuma necessidade urgente além de decidir o que fazer com o próprio tempo. Seu pai está ausente, a relação com a mãe é distante e, apesar de estar cercada de pessoas o tempo inteiro, existe nela uma espécie de vazio que o filme tenta transformar em conflito existencial.
E acho essa escolha bastante interessante, principalmente porque Garota de Ipanema está sendo feito em um momento em que o Brasil estava muito longe daquela imagem ensolarada, leve e despreocupada que a personagem encarna. O país estava sob uma ditadura militar, enquanto o filme acompanha uma juventude de classe média que continua frequentando praias, festas, boates e apartamentos elegantes. Existe uma tensão muito evidente entre o país real e a bolha social em que Márcia vive.
O filme parece saber disso.
Mas nem sempre sabe muito bem o que fazer com isso.
Márcia é interpretada por Márcia Rodrigues, que tem uma presença muito interessante justamente porque não transforma a personagem em uma grande heroína. Ela parece perdida, entediada e um pouco mimada, mas também não é exatamente feliz. É uma jovem que recebe muitas possibilidades e, justamente por isso, parece não conseguir escolher nenhuma. Os homens aparecem, as festas aparecem, a universidade aparece, a possibilidade de trabalhar aparece, mas tudo parece igualmente distante.
O curioso é que o filme coloca essa personagem em contato com diferentes tipos de homens para tentar fazer com que ela enxergue alguma coisa além da própria bolha. Há o jovem intelectual, o rapaz envolvido com política, os amigos de classe social semelhante e figuras que representam outras possibilidades de vida. Só que Márcia parece passar por tudo com a mesma expressão de quem está esperando alguma coisa acontecer.
E talvez essa seja justamente a intenção.
A personagem está entediada porque não sabe o que deseja.
Mas, como espectadora, às vezes eu também fiquei entediada junto com ela.
O maior problema de Garota de Ipanema para mim está no ritmo. O filme tem uma estrutura bastante episódica, quase como se estivéssemos acompanhando fragmentos da vida de Márcia em vez de uma história propriamente dita. Ela vai à praia, encontra alguém, vai a uma festa, conversa, dança, conhece um rapaz, discute com a mãe, sai novamente. Algumas situações parecem importantes durante alguns minutos e depois desaparecem.
Isso cria uma sensação de espontaneidade que combina com o tema, mas também faz com que o filme pareça um pouco sem direção. É como se Hirszman quisesse registrar uma atmosfera antes de contar uma história.
E a atmosfera é boa.
Muito boa, inclusive.
O Rio de Janeiro filmado pelo diretor é um personagem por si só. Ipanema aparece como um espaço de liberdade, beleza e juventude, mas também como uma bolha social. A praia, os bares, as ruas e os apartamentos formam um cenário em que as pessoas parecem estar permanentemente disponíveis para alguma coisa acontecer. Existe uma sensualidade muito própria daquele período, principalmente na maneira como os corpos jovens são filmados e como a música participa da narrativa.
A trilha sonora é um dos elementos que mais ajudam o filme. Não poderia ser diferente em uma obra que carrega Garota de Ipanema no título. A bossa nova já havia transformado aquela imagem do Rio em um produto cultural internacional, e o filme brinca diretamente com essa associação. A garota deixa de ser apenas uma personagem e passa a ser também uma espécie de símbolo.
E acho que aí está uma das coisas mais interessantes do filme: Márcia é simultaneamente uma pessoa e uma imagem.
Ela é a garota que todos olham.
Mas quase ninguém parece interessado em saber quem ela é.
Isso vale principalmente para os homens ao redor dela. Muitos estão interessados em seu corpo, em sua beleza ou naquilo que ela representa. Ela é uma espécie de prêmio, uma presença bonita que pode ser levada para uma festa, uma companhia desejável, uma imagem que confirma o status de quem está ao lado dela. E o filme parece perceber essa objetificação, ainda que nem sempre consiga escapar completamente dela.
Porque existe uma contradição engraçada em Garota de Ipanema: ele quer criticar a superficialidade daquele universo enquanto dedica bastante tempo a contemplá-lo.
É um filme que parece dizer “olhem como essa juventude é vazia” enquanto filma praia, corpos bonitos, festas, roupas, música e apartamentos charmosos. E eu não acho necessariamente que isso seja um defeito. Na verdade, acho que é parte da ambiguidade do filme. Hirszman parece simultaneamente fascinado e crítico daquela classe social.
Essa ambiguidade fica ainda mais interessante quando pensamos no contexto político.
A juventude politizada aparece como uma possibilidade de saída daquela alienação. Em contraste com Márcia, existem personagens mais preocupados com os acontecimentos do país, com política e com questões sociais. Mas o filme não transforma Márcia imediatamente em militante nem oferece uma conversão milagrosa. Ela continua sendo uma garota de classe média que não sabe muito bem onde se colocar.
Isso me parece mais honesto.
Não é como se alguém pudesse simplesmente sair de uma bolha social porque percebeu que ela existe.
E talvez o filme seja justamente sobre essa dificuldade.
Márcia parece ter tudo aquilo que teoricamente deveria produzir felicidade. Tem beleza, dinheiro, juventude, amigos, acesso a cultura, liberdade para sair e conhecer pessoas. E ainda assim está entediada. O filme poderia facilmente transformar isso em uma crítica moralista do tipo “jovens ricos não têm problemas de verdade”. Felizmente, não faz isso completamente. O vazio dela é tratado como um problema real, ainda que seja um problema privilegiado.
É interessante porque a personagem não sofre por falta de possibilidades. Sofre pelo excesso delas.
Ela pode ser qualquer coisa, mas não sabe o que quer ser.
E essa é uma angústia bastante reconhecível, principalmente quando pensamos em uma juventude de classe média que começa a perceber que seguir o roteiro tradicional — estudar, trabalhar, casar, ter filhos — talvez não seja suficiente.
O filme também tem uma certa ingenuidade que hoje chama atenção. Algumas cenas possuem uma liberdade que combina com o cinema brasileiro dos anos 1960, mas outras parecem excessivamente presas à ideia da “garota moderna” como objeto de contemplação. Márcia é moderna porque usa roupas modernas, vai à praia, frequenta festas e não parece muito preocupada com o casamento. Mas o filme nem sempre consegue transformar essa liberdade estética em verdadeira autonomia.
E isso me fez pensar em como a personagem ainda está presa ao olhar dos outros.
Ela pode escolher entre vários homens, mas continua sendo definida pela relação que estabelece com eles.
Ela pode circular livremente, mas a câmera está sempre pronta para transformá-la em imagem.
Ela pode questionar a vida que leva, mas o próprio filme parece apaixonado demais por essa vida para abandoná-la completamente.
Há algo quase melancólico nisso.
E acho que é justamente essa melancolia que faz Garota de Ipanema valer mais do que uma simples história de uma jovem entediada. Por trás da praia e da bossa nova existe uma sociedade tentando imaginar que futuro terá. O Rio continua bonito, as pessoas continuam dançando, os jovens continuam se apaixonando, mas existe alguma coisa errada fora daquele enquadramento.
O filme não é tão contundente politicamente quanto Os Fuzis, por exemplo, nem tem a mesma força de alguns dos grandes filmes do Cinema Novo. Mas ele ocupa um lugar interessante nesse cinema porque mostra outro Brasil: o Brasil urbano, de classe média, cosmopolita, que podia parecer completamente desconectado da pobreza do sertão e, ao mesmo tempo, estava vivendo o mesmo período histórico.
Essa diferença é talvez uma das coisas que mais gosto no filme.
Enquanto Ruy Guerra coloca o sertão diante dos fuzis, Hirszman coloca Ipanema diante do espelho.
E o que aparece no espelho não é exatamente bonito.
É uma juventude bonita, privilegiada e relativamente livre, mas também confusa, superficial e incapaz de encontrar muito sentido no próprio privilégio. A garota de Ipanema é uma imagem perfeita do Brasil que se queria vender: jovem, sensual, moderno, musical, ensolarado. Mas o filme deixa escapar pequenas rachaduras nessa imagem.
Por isso, minha nota fica em 7/10. Não acho Garota de Ipanema um filme ruim — muito pelo contrário. Acho visualmente interessante, historicamente rico e cheio de questões que me interessam. Mas sinto que ele é mais fascinante como retrato de uma época e de uma ideia de juventude do que como narrativa. Em vários momentos, a falta de acontecimentos parece proposital, mas em outros parece simplesmente falta de força dramática.
Ainda assim, gosto da sua ambiguidade. Gosto de Márcia ser uma personagem que não sabe exatamente o que está procurando. Gosto da contradição entre a beleza do mundo em que ela vive e o vazio que sente dentro dele. E gosto principalmente de como o filme captura uma cidade que já estava se tornando mito enquanto seus personagens ainda estavam tentando descobrir o que fazer da própria vida.
No fim, talvez a verdadeira garota de Ipanema seja menos aquela mulher perfeita que passa pela praia e mais essa jovem perdida que olha ao redor e percebe que ter tudo não significa necessariamente saber para onde ir.
Título: Garota de Ipanema
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1967
Diretor: Leon Hirszman
Nota: 7/10


