Anjo Azul (1930)
Professor Immanuel Rath é um homem rígido, respeitado e profundamente preso à própria autoridade. Dá aulas em uma escola para rapazes e parece ter construído toda a sua identidade em torno da disciplina, da moral e da distância que mantém dos alunos. Quando descobre que eles estão circulando fotografias de Lola-Lola, uma cantora de cabaré, decide ir até o estabelecimento onde ela se apresenta para descobrir de onde vêm aquelas imagens. É, evidentemente, uma péssima ideia. Ou talvez a única capaz de destruir uma vida que já parecia organizada demais.
Lola-Lola é interpretada por Marlene Dietrich e, mesmo quase um século depois, é fácil entender por que a personagem se tornou tão emblemática. Ela não precisa fazer muito. Canta, olha, fuma, cruza as pernas, sorri com uma mistura de tédio e provocação. O filme inteiro parece compreender que o verdadeiro poder de Lola não está exatamente na sexualidade, mas na maneira como ela percebe o efeito que causa nos outros. Rath chega ao cabaré acreditando que está ali para investigar uma ameaça à moral de seus alunos. Sai de lá como alguém que acabou de descobrir que sua própria moralidade era muito mais frágil do que imaginava.
O que acho mais interessante é que O Anjo Azul não trata essa transformação como uma simples história de um homem que se apaixona por uma mulher sensual. Rath não é um sujeito inocente que foi enganado por uma femme fatale. Ele é um homem extremamente convencido da própria superioridade moral que, diante de um desejo que não consegue controlar, começa a desmontar a própria vida. E quanto mais tenta preservar sua dignidade, mais ridículo se torna. A tragédia do personagem nasce justamente dessa contradição: ele quer continuar sendo o professor respeitável enquanto já está fazendo tudo aquilo que condenaria nos outros.
A relação com Lola também é menos romântica do que parece à primeira vista. Ela não precisa seduzi-lo de maneira calculada; Rath se oferece. Ele volta ao cabaré, abandona progressivamente o emprego e acaba se casando com ela. A partir daí, começa uma das transformações mais cruéis do filme. O homem que antes controlava uma sala de aula passa a ser uma espécie de acessório no mundo de Lola. Seu prestígio desaparece, seus antigos alunos riem dele e ele próprio começa a participar de apresentações grotescas, transformando sua antiga autoridade em motivo de diversão.
E é justamente aí que o filme fica muito mais ácido. Rath não apenas perde tudo: ele é obrigado a assistir à própria humilhação. O homem que se considerava acima dos outros acaba literalmente se tornando um palhaço.
A transformação é visualmente muito forte. No início, Rath aparece associado à rigidez: roupas formais, postura severa, movimentos controlados. Conforme se aproxima de Lola, o filme vai retirando dele essa imponência. Sua aparência vai ficando cada vez mais patética, até que a imagem do professor respeitável praticamente desaparece. Não é apenas uma queda social. É como se o filme estivesse desmontando a identidade que ele construiu para si mesmo.
E Sternberg filma tudo isso com uma elegância que torna a degradação ainda mais cruel. O Anjo Azul é um filme de atmosfera extraordinária. Os espaços do cabaré são cheios de fumaça, sombras e corpos, enquanto a escola e os ambientes associados a Rath parecem muito mais rígidos e controlados. Lola pertence ao primeiro mundo; Rath, ao segundo. Quando os dois se encontram, não é simplesmente uma pessoa entrando no universo da outra. É uma colisão.
Marlene Dietrich é, obviamente, o centro gravitacional do filme. Lola-Lola é uma personagem que poderia facilmente ter sido reduzida ao clichê da mulher fatal, mas Dietrich lhe dá uma espécie de indiferença que torna tudo mais interessante. Ela não parece particularmente interessada em destruir Rath. Ele é quem se destrói tentando permanecer perto dela. Lola continua cantando, trabalhando e vivendo enquanto Rath vai ficando cada vez mais dependente de sua aprovação.
A famosa apresentação de “Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt” é provavelmente o momento em que o filme cristaliza a persona de Dietrich. Há algo quase absurdo na quantidade de poder que a personagem exerce simplesmente permanecendo diante da câmera. Ela canta sobre estar entregue ao amor, mas a performance não transmite exatamente vulnerabilidade. Pelo contrário: parece saber perfeitamente que os homens estão olhando. E Sternberg sabe que nós também estamos.
O filme também tem uma relação curiosa com a sexualidade. Para um filme de 1930, há uma liberdade impressionante na maneira como Lola é apresentada. Ela não é punida por ser sexualmente desejável, nem transformada em uma figura monstruosa. O desastre acontece porque Rath não sabe lidar com o próprio desejo. Isso faz uma diferença enorme. O filme pode até carregar os valores de sua época, mas sua crítica à hipocrisia masculina continua bastante atual.
Rath passa boa parte da história preocupado com aquilo que é apropriado, respeitável e moralmente aceitável. Mas basta aparecer uma mulher que não se encaixa nesses critérios para que toda essa construção desmorone. É quase impossível não enxergar alguma ironia nisso.
Também gosto muito da maneira como o filme trabalha a vergonha. Rath não sofre apenas porque perdeu Lola ou porque perdeu seu emprego. Ele sofre porque sabe que todos estão vendo. Seus antigos alunos sabem. As pessoas do cabaré sabem. Lola sabe. E, principalmente, ele sabe. A humilhação pública é quase mais importante do que a ruína privada.
O final leva isso ao extremo. Depois de ser reduzido a uma caricatura de si mesmo, Rath retorna à escola e ocupa novamente o espaço onde antes era uma autoridade. Mas agora não existe mais autoridade alguma. Ele está completamente destruído. O homem que passou o filme tentando controlar os outros termina sem conseguir controlar sequer o próprio corpo, a própria vida ou a própria imagem.
Há algo particularmente cruel na escolha de colocá-lo novamente diante dos alunos. É como se o filme fechasse um círculo perverso: aqueles jovens que inicialmente pareciam representar a decadência moral que Rath precisava combater acabam testemunhando a sua própria decadência.
E, apesar de toda essa tragédia, O Anjo Azul nunca perde uma certa qualidade de espetáculo. Existe humor no exagero, na caricatura, na maneira como Rath vai se tornando cada vez mais absurdo. É um filme triste, mas não é sisudo. Há uma crueldade quase cômica em observar um homem tão convencido da própria superioridade transformar-se justamente naquilo que mais desprezava.
Talvez seja isso que faça o filme funcionar tão bem quase cem anos depois. A história poderia ser contada como uma advertência moral sobre os perigos do desejo, mas acho muito mais interessante lê-la como uma história sobre orgulho. Rath não é destruído simplesmente porque se apaixona por Lola. Ele é destruído porque não suporta descobrir que é tão vulnerável quanto qualquer outra pessoa.
E Lola, nesse sentido, é quase menos uma vilã do que um espelho. Ela revela o que já estava dentro dele.
Também é impossível assistir ao filme sem pensar na importância que ele teve para Marlene Dietrich. O Anjo Azul transformou a atriz em uma estrela internacional e construiu uma imagem que ela levaria consigo durante décadas. É um daqueles casos em que personagem e intérprete parecem ter sido criados simultaneamente. Lola-Lola não seria a mesma sem Dietrich, e é difícil imaginar Dietrich sem Lola.
O filme, inclusive, tem algo de inaugural na construção dessa persona: a mulher que não pede desculpas por ser desejada, que domina o ambiente em que entra e que não precisa demonstrar esforço para exercer poder. Ela simplesmente está ali. E os homens fazem o resto.
O que mais me impressionou em O Anjo Azul é justamente como ele consegue ser tão simples e tão cruel. A história é quase uma anedota: professor respeitável conhece cantora de cabaré, se apaixona, abandona tudo e acaba humilhado. Mas Sternberg transforma isso em uma tragédia sobre desejo, orgulho, envelhecimento, classe, masculinidade e a necessidade desesperada de ser respeitado.
E há uma coisa especialmente deliciosa na trajetória de Rath: ele começa o filme julgando os outros e termina sendo objeto do julgamento de todos. Começa acreditando que precisa ensinar os jovens a se comportarem e termina sendo tratado como entretenimento por eles. É uma vingança narrativa perfeita.
Talvez eu tenha gostado tanto justamente porque o filme não tenta salvar seu protagonista daquilo que ele próprio fez. Rath não é um herói incompreendido. Ele é arrogante, repressivo e incapaz de reconhecer os próprios desejos até que seja tarde demais. Sua queda não parece injusta. Parece inevitável.
E quando chega ao final, fica aquela sensação desagradável de ter assistido a alguém perder tudo em câmera lenta — sabendo desde o começo que ele poderia ter simplesmente ido embora.
Não foi.
E é justamente por isso que O Anjo Azul continua sendo tão bom.
Título: O Anjo Azul (Der blaue Engel)
País: Alemanha
Gênero: Drama
Ano: 1930
Diretor: Josef von Sternberg
Duração: 124 minutos
Nota: 9/10


