A hora da estrela (1985)
A Hora da Estrela é um filme que me deixa com uma sensação bastante incômoda porque parece, o tempo inteiro, estar tentando impedir que eu transforme Macabéa em uma personagem bonita demais. Ela não é uma heroína, não é especialmente inteligente, não tem grandes ambições e nem sequer parece compreender completamente a própria situação. É uma jovem nordestina pobre que vai para São Paulo, trabalha como datilógrafa, mora em um quarto compartilhado e vive praticamente sem chamar atenção de ninguém. E justamente por isso ela é tão difícil de esquecer.
Macabéa existe em um mundo que não parece ter sido feito para ela. Interpretada por Marcélia Cartaxo com uma delicadeza impressionante, ela está sempre um pouco deslocada, como se tivesse chegado à própria vida sem receber as instruções necessárias para saber como se comportar. Ela não sabe muito bem como conversar, como se vestir, como se relacionar ou como desejar alguma coisa. Quando as outras pessoas falam de amor, dinheiro, beleza e futuro, ela parece simplesmente acreditar no que ouve. Há algo quase infantil nela, mas o filme nunca a transforma em uma criança. Macabéa é adulta e está completamente sozinha.
O mais doloroso é que ela também não parece saber que deveria exigir mais da vida. Seu trabalho é miserável, seu salário é baixo, sua alimentação é precária e ela está cercada de pessoas que não têm qualquer interesse genuíno por ela. Mesmo assim, ela escuta rádio, toma Coca-Cola, gosta de Marilyn Monroe e inventa pequenas fantasias para tornar a existência um pouco menos árida. São coisas mínimas, mas para Macabéa elas parecem suficientes. E é justamente aí que o filme consegue ser cruel sem precisar transformar a personagem em alguém miserável o tempo inteiro.
A relação com Olímpico é talvez a manifestação mais evidente dessa crueldade. Ele também é nordestino e pobre, mas possui algo que Macabéa não tem: ambição. Olímpico quer subir na vida, quer ser importante, quer construir uma imagem de homem poderoso. Ele mente, exagera suas capacidades e trata Macabéa com uma brutalidade quase casual. O que mais incomoda é que ela não parece sequer compreender completamente a dimensão da rejeição. Quando ele a abandona por Glória, uma mulher mais bonita e mais segura, Macabéa sofre, mas não parece conseguir transformar esse sofrimento em revolta.
E Glória é uma personagem muito interessante justamente porque seria fácil transformá-la na vilã da história. Ela é tudo aquilo que Macabéa não é: bonita, sensual, expansiva, vaidosa e consciente do próprio corpo. Mas Glória também está presa à mesma estrutura que aprisiona Macabéa. Ela entende como o jogo funciona e tenta jogar melhor. Não é necessariamente mais livre; apenas possui mais ferramentas para negociar sua posição dentro daquele mundo.
O filme de Suzana Amaral é muito econômico visualmente. Não existe uma tentativa de transformar a pobreza em uma experiência esteticamente exuberante. São Paulo aparece como uma cidade fria, cinzenta e impessoal, e Macabéa parece quase desaparecer dentro dela. Isso me parece fundamental. Ela não é apenas uma pessoa pobre em uma cidade grande; ela é uma pessoa que pode desaparecer completamente sem que a cidade sequer perceba.
E existe uma espécie de humor muito estranho atravessando tudo isso. Macabéa é engraçada sem saber que é engraçada. Suas perguntas, seus comentários e sua maneira de interpretar o mundo provocam riso, mas é um riso desconfortável porque logo percebemos que estamos rindo de alguém que não tem consciência de estar sendo engraçada. O filme nos coloca numa posição bastante cruel: às vezes queremos rir dela, mas imediatamente percebemos que talvez não devêssemos.
A cena em que ela procura a cartomante é particularmente importante porque representa o momento em que Macabéa finalmente recebe aquilo que nunca teve: a promessa de um futuro. Madame Carlota não apenas diz que sua vida vai melhorar; ela constrói para ela uma narrativa inteira. Um homem rico e estrangeiro vai aparecer, ela será amada, ficará bonita, terá uma vida completamente diferente. Pela primeira vez, Macabéa consegue imaginar uma versão de si mesma que não seja aquela moça invisível que passa despercebida pelas ruas.
E é cruel justamente porque nós sabemos que o filme está chegando ao fim.
A sequência final é uma das coisas mais bonitas do filme porque a morte de Macabéa não é tratada como uma grande tragédia heroica. Ela é atropelada e simplesmente fica ali. A cidade continua funcionando. Pessoas passam. O mundo não para. A promessa de que finalmente alguma coisa aconteceria em sua vida é imediatamente transformada em morte. É quase uma piada de mau gosto do destino.
E talvez seja por isso que o título seja tão irônico. A hora da estrela deveria ser o momento em que Macabéa finalmente se torna protagonista de alguma coisa. Mas sua estrela só aparece quando ela está morrendo. A única ocasião em que o mundo parece olhar para ela é justamente quando ela já não pode fazer nada com esse olhar.
O filme também me interessa porque não tenta transformar Macabéa em uma vítima perfeita. Ela é alienada, passiva e, em muitos momentos, parece quase desconectada do mundo. Mas essa passividade não é apresentada simplesmente como uma característica individual. É consequência de uma vida em que quase ninguém lhe ensinou que seus desejos importavam. Macabéa não luta porque nunca aprendeu que poderia lutar.
Isso torna ainda mais cruel a postura de Olímpico. Ele percebe que ela é vulnerável e usa isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também é produto de uma sociedade em que sobreviver significa subir, competir e abandonar quem ficou para trás. O filme não precisa absolvê-lo para mostrar isso. Ele simplesmente deixa claro que a brutalidade não nasce do nada.
Marcélia Cartaxo é fundamental para que tudo funcione. Ela faz uma personagem que poderia facilmente cair na caricatura e encontra uma delicadeza extraordinária. Seu corpo, seus gestos, a maneira como olha e principalmente a maneira como sorri fazem Macabéa parecer simultaneamente muito pequena e muito presente. É uma atuação que não tenta embelezar a personagem, mas também não a ridiculariza. Ela consegue fazer com que sintamos ternura por Macabéa sem transformá-la em uma santa.
E acho que esse equilíbrio é uma das maiores qualidades do filme. A Hora da Estrela poderia ser um filme extremamente sentimental. Afinal, estamos acompanhando uma jovem pobre, solitária e praticamente invisível até sua morte. Seria muito fácil manipular o espectador. Suzana Amaral, porém, mantém uma certa distância. O filme é triste, mas não fica implorando para que tenhamos pena.
Essa distância torna a experiência muito mais dolorosa.
Porque, no fundo, o que mais me incomoda em Macabéa é perceber que sua tragédia não está apenas no fato de ela morrer. Está no fato de que ela quase não viveu antes de morrer. Sua existência foi reduzida a trabalhar, comer pouco, ouvir rádio, sonhar um pouco e tentar entender as pessoas ao redor. Ela não teve tempo de descobrir quem poderia ser.
E o mais perverso é que ela finalmente começa a imaginar um futuro justamente quando esse futuro já não existe.
A Hora da Estrela é um filme sobre invisibilidade, mas também sobre a violência de uma sociedade que decide quem merece ser visto. Macabéa não é invisível porque não possui importância. Ela é invisível porque ninguém ao redor dela se dá ao trabalho de enxergar. E isso é muito mais perturbador.
Gosto muito de como o filme termina sem oferecer qualquer conforto. Não há redenção, não há grande aprendizado, não há justiça. Macabéa simplesmente morre e o mundo continua. Talvez seja justamente essa ausência de consolo que faça o filme permanecer na cabeça depois que termina.
É uma adaptação que entende que a força do romance de Clarice Lispector não está apenas na história de uma moça pobre que morre tragicamente. Está no desconforto de perceber que uma vida pode ser considerada tão insignificante que praticamente ninguém sente sua falta. E Suzana Amaral consegue traduzir isso para o cinema sem perder a delicadeza e a crueldade da história.
No fim, o que fica é aquela garota andando pelas ruas de São Paulo, tentando existir sem saber muito bem como. E talvez seja impossível assistir a A Hora da Estrela sem pensar em quantas Macabéas continuam atravessando cidades enormes todos os dias, trabalhando, esperando, sonhando com alguma coisa que nem sabem nomear e sendo ignoradas por quase todo mundo.
Ficha técnica
Título: A Hora da Estrela
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1985
Direção: Suzana Amaral
Roteiro: Suzana Amaral e Alfredo Oroz
Duração: 96 minutos
Elenco: Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman, Fernanda Montenegro, Denoy de Oliveira
Nota: 9/10


